segunda, 18 de janeiro de 2021

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O trauma das vítimas de balas perdidas

Ainoã Geminiano / 26 de março de 2017
Foto: Rafel Passos
Já passou mais de um mês e a família de Bruno ainda não conseguiu normalizar a rotina que tinha, antes que o garoto fosse atingido por uma bala perdida, ao sair da escola, no bairro Jardim Planalto, em João Pessoa. Apesar do apoio psicológico que tem recebido, o garoto não consegue sequer passar pela rua em que aconteceu o fato e que é um dos acessos ao colégio. A irmã, de 9 anos, não consegue dormir todas as noites e tem medo de fogos. A mãe trabalha sob tensão, pensando que o telefone pode tocar a qualquer momento, com alguma notícia ruim.

O atentado contra Bruno, de apenas 7 anos, foi um dos últimos registrados na Capital. Mas os dados do Hospital de Emergência e Trauma mostram um aumento dos casos de crianças feridas por bala perdida, na cidade. Em 2016, o hospital recebeu 17 crianças, com idade entre 0 e 13 anos, feridas por disparo de arma de fogo. Em janeiro e fevereiro deste ano, sete crianças baleadas já foram atendidas na unidade, o que representa 41% dos casos de todo o ano passado. No comparativo dos dois primeiros meses de 2016 e 2017, os dados revelam um aumento de 130%. Para a polícia, os atentados são consequência de briga de gangues rivais e a impunidade com presos por porte ilegal de arma como é o maior incentivo aos confrontos armados, no meio da rua.

Tiros confundidos com fogos

Era final da manhã, do dia 9 de fevereiro deste ano, quando a babá de Bruno chegou para pegá-lo na escola. A aula tinha terminado e aquele parecia ser mais um trajeto rotineiro, da escola para o berçário onde ele passa as tardes e que fica a poucos metros de onde estuda. Era só percorrer uma calçada, junto com a irmã Bárbara e os dois encontrariam os coleguinhas do turno da tarde. Mas, alguns estouros parecidos com fogos aconteceram perto de onde passavam e, segundos depois, Bruno se queixou de dores nas costas.

Ao parar para olhar o garoto, a babá viu a perna esquerda ensanguentada. Foi só aí que percebeu que ele tinha sido atingido por um tiro. Duas tias de Bruno moravam perto do local e foram chamadas, para levá-lo ao Trauma.

“Ouvimos várias conversas sobre o que teria acontecido, porém a mais provável é que estava acontecendo uma briga de gangues. O tiro pegou na bolsa dele, que estava nas costas, atravessou a bolsa e atingiu a lombar. Por um milagre de Deus, nenhum órgão foi atingido. A bala atravessou o corpo, atingindo apenas o tecido muscular”, contou Luciana Oliveira, mãe de Bruno.

No Hospital de Trauma, Bruno foi atendido, ficou o resto do dia em observação e recebeu alta na manhã seguinte. No local, a PM foi acionada e, como de praxe, fez rondas, mas não localizou, não identificou, nem prendeu ninguém.

Trauma do atentado. Bruno foi baleado, acolhido pelos familiares e socorrido para o hospital. Somente após a correria da episódio foi que as tias se deram conta de procurar por Bárbara. Ela foi encontrada escondida, dentro de um casa. “Quando viu que o irmão tinha sido baleado, ela saiu correndo e entrou no primeiro portão aberto que encontrou. Ficou lá, quietinha, até procurarmos por ela”, disse a mãe. O barulho dos tiros, que inicialmente foi confundido com fogos, fez com que a garotinha ficasse com medo dos artefatos. “Hoje quando ela ouve barulho de fogos, muda o comportamento e até chora, se for muito forte”, acrescentou Luciana.

Por ter um perfil mas extrovertido, Bruno parece estar superando melhor as lembranças do atentado. Mas uma coincidência de datas tem atrapalhado essa recuperação. Um ano atrás, no dia 21 de fevereiro de 2016, ele perdeu o pai, que morreu por complicações de diabetes. “Ele chegou a dizer que queria ter morrido com esse tiro, para não sentir mais tanta falta do pai”, contou uma Rosilda Florêncio, prima de Bruno. Desde e a morte do pai, ele vinha recebendo ajuda de um psicólogo, que agora tem um novo direcionamento para o tratamento: superar também o atentado.

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