terça, 16 de julho de 2019
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O diário de um esquizofrênico e a farsa escondida por trás dos ‘canibais de Garanhus’

Ainoã Geminiano / 13 de junho de 2016
Foto: Infográfico Correio
Já está sendo testado em pacientes e pode estar no mercado em alguns anos, a nova tecnologia que irá diagnosticar a esquizofrenia através do mapeamento do cérebro. Além de facilitar o diagnóstico em crianças, com quem é difícil a abordagem clínica convencional, baseada em entrevistas, questionários e avaliação subjetiva, o software poderá apontar se é possível a reorganização de estrutura cerebral, através de tratamento medicamentoso.

Com essa tecnologia também será possível, por exemplo, impedir que criminosos psicopatas se passem por esquizofrênicos, na tentativa de se livrar da responsabilidade dos crimes cometidos, a exemplo do que fizeram os "Canibais de Garanhuns" - um homem e duas mulheres de Pernambuco que mataram, esquartejaram e comeram a carne de várias mulheres.

A farsa de esquizofrenia apresentada pelos Canibais só foi desmascarada dentro do processo que tramita na Justiça de Garanhuns, com a convocação de um psiquiatra que examinou os três e descartou a existência de distúrbio mental. Somente depois disso, eles foram julgados e condenados por um dos assassinatos. Os canibais voltarão ao banco dos réus, possivelmente este mês, para serem julgados por outras duas mortes.

A técnica desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) é baseada na análise de dados, fornecidos por exames de ressonância magnética funcional. "O sistema utiliza métodos de inteligência artificial. O cérebro humano é mapeado em uma rede, usando dados de ressonância magnética. Depois caracterizamos essa rede, usando métodos matemáticos para classificar os pacientes. Ou seja, alimentamos o computador com dados das redes corticais cerebrais de pacientes esquizofrênicos e as que são de pacientes sadios. Depois inserimos os novos dados e o computador retorna a classificação do paciente que está sendo examinado, comparando com as informações armazenadas. Conseguimos uma taxa de acerto próxima de 80% no diagnóstico, resultado dessa comparação", explicou o pesquisador do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo (USP), Francisco Aparecido Rodrigues, responsável pela pesquisa.

"Talvez demore um ano, dois ou mais, para termos essa tecnologia no mercado. A dificuldade está na fase de teste com pacientes e coleta de dados, já que a ressonância magnética funcional é muito sensível e precisa do paciente imóvel durante vários minutos, o que é difícil conseguir com esse público", Francisco Aparecido Rodrigues, pesquisador da USP.

DIAGNÓSTICO DA ESQUIZOFRENIA

Como é hoje

1 - Psiquiatra faz entrevista com paciente e aplica questionários se necessário

2- Psiquiatra entrevista familiares e busca doenças pré-existentes no paciente

3 - Após eliminação de outras possíveis doenças, o profissional faz o julgamento clínico e apresenta diagnóstico

Como será com a tecnologia

1 - Exame de ressonância magnética funcional analisa a estrutura cerebral do paciente

2 - Informações são enviadas para o computador, que compara a estrutura examinada com os modelos de cérebros sadios ou com esquizofrenia

3 - A comparação dos modelos apontará o diagnóstico: positivo ou negativo

Suposta esquizofrenia

Com a falta de uma tecnologia que ateste a existência ou não de esquizofrenia, a inteligência disfarçada de loucura, de Jorge Beltrão Negromonte deixará eternas dúvidas no ar, sobre a possibilidade de também terem matado e comido a carne de pessoas na Paraíba, onde moraram há cerca de quatro anos. Nos contos do investigado, um homem de João Pessoa e uma mulher da cidade do Conde estariam entre suas vítimas. Para a polícia, esses crimes são pura invenção.

O diário de Jorge Negromonte, intitulado por ele como "Diário de um esquizofrênico", conta com detalhes algumas das barbáries cometidas por ele e suas duas mulheres, tentando dar ares de ficção e alucinações a crimes que a polícia comprovou serem verdadeiros. As investigações comprovaram que as vítimas eram escolhidas apenas por terem um estilo de vida diferente do que pregava uma seita mencionada por Jorge Negromonte em depoimento. Elas eram esquartejadas, com partes do corpo enterradas em diferentes covas, enquanto os assassinos se alimentavam de parte da carne das vítimas, numa espécie de ritual de purificação.

De quebra, uma das mulheres de Jorge, Bruna Cristina Oliveira, teria feito empadas com a mesma carne e vendido à população. A fabricação dos salgados começou quando o trio morava na cidade do Conde. Mas o uso da carne humana só teria acontecido após retornarem para Pernambuco.

O conto 'O vigilante e a empregada'

"Nevinha me pega pela mão e me leva para o andar de cima do Juliano Moreira. Na subida, cada degrau tinha uma poça de sangue, no final do percursos, um corpo de um segurança caído com vários ferimentos. Nevinha diz que fui o culpado". Assim, Jorge Negromonte descreve o que seria o assassinado de um vigilante do hospital psiquiátrico de João Pessoa, onde ele esteve internado. Disse ter matado o homem apenas com as mãos, usando técnicas do Karatê, o que o teria feito abandonar a arte marcial.

A polícia nega a existência desse crime. "Nós requisitamos todos os prontuários de quando ele foi internado e não há nenhum registro de anormalidade no hospital. Inclusive ele passou pouco tempo internado, porque uma das mulheres assinou um termo de responsabilidade e o levou para casa", disse o delegado Luis Eduardo Montenegro, da delegacia do Conde.

Outro suposto crime seria a morte da uma empregada de Jorge e suas duas mulheres, identificada apenas por Iolanda, que trabalhou para a família em uma casa no município do Conde, no Litoral Sul. Esse relato foi feito por Jorge durante um depoimento prestado à polícia de Pernambuco. "Na época foram feitas buscas e perícias na casa, até no cachorro que a família tinha e não foi encontrado nenhum vestígio de vítima. Também foi ouvida uma mulher chamada Iolanda, que trabalhou com eles e está vivinha. Os autos comprovaram que não houve nenhuma dessas mortes", acrescentou o delegado.

Intenção era fugir de PE

A intenção dos Canibais ao vir morar na Paraíba era fugir dos crimes que tinham cometido em Pernambuco. É no que acredita o delegado Elias Rodrigues da Silva, o primeiro a investigar os supostos crimes da família em território paraibano. "Eles não tinham intenção de cometer crimes na Paraíba porque foi o refúgio que encontraram após matar a adolescente em Olinda", disse.

* 0,7% da população tem esquizofrenia

* Possíveis causas:

- uso de drogas

- predisposição genética

- traumas emocionais

- traumatismos cranianos frontais

* mulheres são mais suscetíveis

MPPE consegue prova de que Canibais não são esquizofrênicos

Com ajuda de um psiquiatra especializado em perícia, o Ministério Público de Pernambuco conseguiu provar, em um dos processos, que os Canibais de Garanhuns não são esquizofrênicos. "Durante uma das audiências do caso, em Olinda, o especialista atestou que os réus não apresentavam nenhum transtorno mental e que sabiam o tempo todo o que estavam fazendo, inclusive com ciência das consequências que os atos teriam", disse o promotor Jorge Dantas, autor da denúncia que os levará a júri popular este mês.

Processo a caminho do arquivamento

Iniciada em 2012, a investigação sobre os supostos crimes praticados pelos Canibais na Paraíba ainda não está concluída, mas caminha para ser arquivada pela Justiça. Em março deste ano, o processo foi enviado pela Justiça de volta à delegacia do Conde. "O promotor pediu que fizéssemos uma diligência para localizar a pessoa chamada Iolanda, que seria a suposta vítima dos Canibais aqui no Conde. Mas essa pessoa já tinha sido localizada, foi ouvida no processo e vou apresentar isso em um novo relatório, devolvendo o processo para o Fórum de Alhandra", disse o delegado Luis Eduardo Montenegro.

O promotor Márcio Gondim do Nascimento disse à reportagem que atualmente trabalha com muitos processos e não recordava o que exatamente tinha pedido. "Quando chegam aqui os processos têm três caminhos: a pronúncia para julgamento, o pedido de novas diligências ou o arquivamento. Será denunciado se houve comprovação da autoria de um crime. A segunda possibilidade ocorrerá se sentirmos falta de alguma informação. Agora se tudo estiver completo e não tiver autoria de crime, como pode ser o caso desse processo, o caminho é o arquivamento", explicou.

Esquizofrenia x Psicopatia

Esquizofrenia não tem nenhuma relação com psicopatia, na opinião do psicanalista clínico Tibério Pessoa. Segundo ele, o esquizofrênico não tem condições de calcular, planejar previamente uma situação e executá-la segundo o planejado. "A esquizofrenia é a loucura popularmente conhecida. O esquizofrênico não tem noção do senso de realidade. Até pode matar em série, mas em uma mistura de fantasia e delírios, sem noção de causa e consequência dos atos", explicou.

Já a psicopatia não tira do indivíduo a noção da realidade. "O psicopata não tem capacidade de se importar com o sofrimento alheio. Além disso, ele manifesta perversidade em seus atos. Mas em todo tempo sabe o que está fazendo e as consequências do que faz, embora não sinta nenhum remorso ou arrependimento. É também uma doença, mas que não o torna incapaz de responder pelos seus atos", acrescentou Tibério.

 

 

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