sábado, 15 de junho de 2019
Cidades
Compartilhar:

Viver é a solução: reportagem especial aborda luta para não tirar a vida

Beto Pessoa / 17 de junho de 2018
Foto: Rafael Passos
Nós, jornalistas, erramos. Erramos por medo de nos tornarmos má influência. Erramos por medo de desrespeitar os que ficam. Erramos e ajudamos a transformar o suicídio em uma pauta tabu, que deve ser evitada no cotidiano das redações e, assim, da sociedade.

Hoje, inseridos num mundo onde a disseminação de informação foge do controle, não dá mais para evitar a temática. Precisamos, juntos, encarar a questão, discutindo e gerando  reflexões sobre uma realidade há muito tempo negligenciada, mas que sempre esteve presente no dia a dia da população.

Diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis, do Ministério da Saúde, a médica Fátima Marinho é precisa: o suicídio existe, ele cresce e se não gerarmos reflexões responsáveis sobre o tema não poderemos tentar torná-lo uma questão de saúde pública.

“Temos que começar a falar sobre suicídio. Não adianta querer esconder, pois é um fato concreto e que está aumentando, fato que nos tem preocupado. Mas não basta falar, tem que saber falar com responsabilidade, não tratar o fato pelo fato. Por isso uma preocupação nossa no Ministério da Saúde é discutir com os jornalistas, orientando sobre o tema”, destacou.



Médica Fátima Marinho



Dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) apontam que, entre 2007 e 2017, o número de casos de suicídio cresceu 42% na Paraíba, saltando de 150 para 213 ocorrências.

Não é que o jornalismo contribuiu para esse aumento, visto sobretudo entre jovens e idosos. Mas, certamente, não discutindo o assunto, o jornalismo deixou de gerar reflexões sobre a temática, defende Eliane Soares, porta-voz nacional do Centro de Valorização da Vida (CVV), entidade que através do Disque 188 presta serviço gratuito de apoio emocional e prevenção ao suicídio.

“A pessoa que fica sozinha nos seus pensamentos tem maior probabilidade de cometer suicídio. A mídia precisa esclarecer o que é o suicídio, tratar como uma questão de saúde, mostrar que essa tristeza prolongada tem tratamento. Uma pessoa gripada, por exemplo, terá febre e dor de cabeça. Uma pessoa em depressão também vai apresentar sinais da doença, que pode culminar no suicídio. O jornalismo tem que apresentar isso. Não tratar o suicídio pelo suicídio. O fato pelo fato. Mas sim gerar reflexão”, disse a representante da CVV.

Chega de Werther

No século 18, o escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe publicava o livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, a narrativa de um jovem que, por não ter conseguido viver com a pessoa amada, prometida a outro homem, decide se matar. A romantização da morte autoprovocada teria criado uma onda de suicídios na Europa, aquilo que ficou conhecido como “efeito Werther”. É dessa função que precisa fugir o jornalismo, explica Eliane Soares, da CVV.

“Suicídio não é solução, mas sim o último ato de quem está vivendo em um estágio de tristeza profunda e prolongada. É uma doença e precisamos continuar reforçando isso: a quem sofre precisa de tratamento, buscar psicólogo, psiquiatra. Ligar para a CVV (Disque 188), onde ela será atendida sem necessitar se identificar, gratuitamente. Esses são espaços seguros, onde a pessoa não encontrará julgamento. É nisso que temos que focar ao tratar o tema”, disse.

Se no século 18, publicações como a do alemão Goethe romantizavam o suicídio, na contemporaneidade a temática segue sendo retratada de forma teatral e por certas vezes irresponsável, como na série norte-americana “13 Reasons Why”, exibida na Netflix, onde uma jovem se mata para se “vingar” daqueles que a fizeram sofrer bullying na escola.

A médica Fátima Marinho, diretora do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis, do Ministério da Saúde, reforça que a romantização do suicídio, seja hoje ou séculos atrás, segue existindo, podendo ativar os gatilhos suicidas. O jornalismo, enquanto instrumento de informação e cidadania, pode representar uma frente contrária a esse quadro.

“A série romantizou o assunto e causou o efeito errado, apontando uma solução errada para o problema, que é o bullying. Se uma pessoa se suicida, ela não está se vingando de ninguém. O outro continuará vivendo muito bem obrigado. Temos que parar de tratar o suicídio como espetáculo, como algo romantizado ou com glamour. Temos que discutir suas causas e tratamentos. Nisso, os meios de comunicação podem ajudar”, disse.

Atenção ao que se escreve

Professor do Departamento de Jornalismo (Dejor) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o pesquisador Carmélio Reynaldo é uma das referências quando se pensa nas dinâmicas da produção jornalística no Estado. Sobre pautar o suicídio, ele avalia que o assunto não pode ficar preso ao fato, mas sim às causas que o geram.

“Tem se tentado não dar publicidade ao assunto, porque de certa forma falar em casos de suicídio pode influenciar uma pessoa que já tenha a tendência. Mas talvez a interdição dessas pautas também esteja. O interessante, acredito, é que se discuta o que tem ocasionado. É pensar no bullying nas escolas, que é um problema ainda muito comum”, disse o professor.



Professor Carmélio Reynaldo



Talvez seja este o momento dos grandes jornais voltarem suas pautas ao tema, sobretudo quando se pensa na facilidade de disseminação das fake news (notícias falsas), onde qualquer um pode abrir um blog e postar o que bem entende e tudo isso pode em poucos segundos estar compartilhado em milhares de Whatsapp país afora.

“É onde a imprensa tem que se segurar, porque ela tem a credibilidade e a responsabilidade editorial, que esses grupos de Whatsapp e pequenos portais não têm. No curso de Jornalismo da UFPB, na disciplina de Jornalismo e Cidadania, estamos tratando de pautas contemporâneas, colocando os direitos humanos como tema transversal. Porque precisamos preparar o jornalista para discutir essas questões”, destacou o pesquisador.

Médico defende diálogo

Discutir para tratar: somente conhecendo as causas do suicídio será possível diminuir as taxas em ascensão. É nesta função que pode agir a produção jornalística, destaca o psiquiatra membro da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), Alfredo José Minervino, mestre em Neuropsiquiatria e Ciências do Comportamento.

“É preciso que as pessoas entendam que o suicídio existe, as pessoas precisam entender que qualquer pessoa pode ter ideação de morte. Mas que essa ideação pode ficar na ideação, pode chegar a uma tentativa, mas também pode ser evitada, quando tratada. Se criou a idéia que falar sobre suicido na mídia brasileira levava desencadearia uma cascata de pessoas tentando suicídio a qualquer momento. Mas isso é mito, precisamos falar sobre o assunto”, destacou o psiquiatra.



Médico Alfredo Minervino



Na avaliação do especialista, o atual cenário da saúde mental em todo o mundo só reforça a necessidade dessas discussões.

“O suicídio é uma emergência médica, não só psiquiátrica. 90% dos pacientes que se suicidam têm depressão, que é subnotificada, pouco diagnosticada e muitas vezes não tratada. Se você juntar todas as guerras, não morreu mais gente que em suicídio em nenhum momento”, explicou o psiquiatra.

Hospitais não estão preparados

Além da falta de diálogo, outra dificuldade para se combater o problema é a falta de assistência hospitalar, reforça o psiquiatra da ABP. “Não existe preparo em nenhum hospital do Brasil para o paciente que tenta suicídio. O médico que atende, na maioria das vezes, não compreende o que aconteceu, ele está ali para salvar aquela vida. Como não há psiquiatras nas urgências, se cria essa confusão. Além disso, os planos de saúde proíbem atendimento hospitalares e ambulatoriais por tentativa de suicídio”.

Aos que não conseguem ajuda médica na rede privada, resta o serviço público, que na maioria das vezes se encontra superlotado. “O grande problema é que as pessoas não têm onde se tratar, por conta de uma política de saúde pública que fechou os ambulatórios de psiquiatria e psicologia. Quem não pode pagar, ou busca os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), que estão cheios, ou os ambulatórios dos hospitais escolas”, destacou Alfredo Minervino.

No Hospital Universitário Lauro Wanderley (HU) são quase 4 mil atendimentos mensais no ambulatório de psiquiatria. Lá existe hoje uma demanda reprimida de quase mil pacientes, destacou Alfredo Minervino, que também atende no local.

“É preciso estar atento, escutar essas pessoas sem julgá-las. Sempre acreditar em toda e qualquer ameaça do indivíduo, verificar mudanças bruscas de comportamento, verificar se o indivíduo está se desfazendo das suas coisas, como que se despedindo. Quando ela não puder buscar, busque você um psicólogo ou psiquiatra. A gente pode ajudar, mas precisa estar ao lado e perceber esses sinais”, destacou o psiquiatra.



Quadro - Como pautar a temática



  • Não dê destaque à notícia


  • Evite repetições e atualizações, sobretudo em casos que envolvam celebridades


  • Não use a palavra suicídio no título


  • Não divulgue o método utilizado


  • Não divulgue o lugar


  • Não publique fotos


  • Não divulgue cartas ou bilhetes suicidas


  • Não descreva o suicídio como inexplicável ou sem aviso


  • Não aborde suicídio como conseqüência de um único evento


  • Não apresenta suicídio como única saída


  • O suicídio nunca deve ser tratado como crime ou caso de polícia


  • Não trate o assunto como epidemia


  • Fique atento à linguagem, nunca utilizar termos como ‘obteve êxito’




Fonte: Ministério da Sáude

SERVIÇO:

Centros de Atenção Psicossocial (Caps) Caminhar (transtornos mentais graves e persistentes)

Endereço: Rua Paulino Santos Coelho, s/n, Jardim Cidade Universitária.

Telefone: 3218-7008

Horário de atendimento: 24h

 

Caps III – Gutemberg Botelho (referência em atender adultos com transtornos mentais graves, severos e persistentes)

Endereço: Rua Minas Gerais, nº 409, Bairro dos Estados

Telefone: 3211-6700

Horário de Atendimento: 24h

 

– Caps AD – Rangel (álcool e outras drogas)

Endereço: Rua José Soares, s/n, Rangel.

Telefone: 3218-5244

Horário de Atendimento: 24h

 

– Caps I – Infanto Juvenil Cirandar (transtornos mentais, álcool e outras drogas)

Endereço: Rua Gouveia Nóbrega, s/n, Róger.

Telefone: 3214-6079

Horário de Atendimento: 8h às 17h

 

– Pronto Atendimento de Saúde Mental (Pasm) (Complexo Hospitalar de Mangabeira – Ortotrauma)

Endereço: Rua Agente Fiscal José Costa Duarte, s/n, Mangabeira II.

Telefone: 3218-9725 / 3218-9727

Horário de Atendimento: 24h

 

Centro de Valorização da Vida (CVV) João Pessoa

Endereço: Av. Rui Barbosa S/N – (Sala Do Lactário Da Torre) – Torre

Telefone: Disque 188

Horário: 14 às 22h diariamente

 

Centro de Valorização da Vida (CVV) Campina Grande

Endereço: Rua Maciel Pinheiro, 170 Centro Edficio Palomo, sobreloja sala 7

Telefone: Disque 188

Horário: 7 às 23h diariamente

 

 

 

 

 

Relacionadas