segunda, 23 de novembro de 2020

Cidades
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Natal da desesperança: moradores de rua lutam contra a violência e o desprezo

Bruna Vieira/Aline Martins / 21 de dezembro de 2015
Foto: Rafael Passos
Para muitas pessoas, o Natal simboliza a união familiar. Para quem mora na rua, uma data triste, longe daqueles que amam. Apesar das dificuldades, eles tem esperança de dias melhores. Para alguns, ter uma casa ou voltar para o lar é o pedido nesse fim de ano. Para outros, dormir em paz, livre da violência, é suficiente.

Alaina Feliciano, 51 anos, relembra a boa vida (foi casada por 30 anos e ficou viúva há dois) e compara com a atual, após ter sido expulsa de casa pelas filhas há três meses. “Meu marido era da marinha, ganhava bem. Na rua, o mais triste é o domingo, porque se ninguém traz comida, a gente fica o dia com fome. É sempre o pessoal da igreja que traz, nunca do governo. A violência faz muito medo. Eu durmo enquanto meu parceiro me olha e depois eu olho ele dormindo, para a gente se proteger”, contou.

Alaina reclama que o serviço no Centro Pop só funciona durante o dia. “Lá a gente come, toma banho, assiste TV, se deita. Mas é só de dia e à noite volta pra rua. E no fim de semana é fechado. Cada um se não souber viver, amanhece morto”, revelou.

Sem dignidade e saúde. Aos 56 anos e com o pé infeccionado, a fome e o desalento não são o único sofrimento de seu Severino Ramos. A dor de dia e de noite tira o sono do morador de rua. Mas, a dor mais profunda para ele é o desprezo. “Minha família toda mora aqui, mas quero ir para Brasília. Fiquei um ano lá, como caseiro, quando voltei com dinheiro minha família me recebeu. Depois que acabou vim para a rua, acho que eles tem nojo de mim”, relatou.

“O natal seria bom se a gente tivesse uma casa ou pelo menos um abrigo, isso é o certo. A maior parte dos roubos e das drogas vem disso. Ia ser bom para todo mundo. Às vezes quem recebe casa já tem e aluga, enquanto a gente fica nessa situação”, suplicou João Serafim Matias.

Para o morador, a miséria pode ser responsável pelos crimes. “A pessoa quer vestir uma roupa e não tem, quer comer e não tem, se acha desesperado sem ter nada e dá vontade de fazer besteira. Eu guardo carros e às vezes as pessoas dão R$ 0,10. Isso é humilhante, para mim é o mesmo pedindo esmola. Eu era agricultor, minha mulher morreu e meus filhos tomaram minha casa”, disse.

A droga é a vilã. Muitos moradores de rua recusam o serviço assistencial e preferem estar na rua a viver nas casas de acolhimento. A resistência se justifica por duas razões. “Eles não querem seguir regras e as casas tem horários. Outra são as drogas. A maioria dos moradores de rua são usuários e fica difícil. Internação é complicado porque o Brasil não dá suporte”, disse Ingrid Bakke, coordenadora do serviço de média complexidade da Sedes, de João Pessoa.

Muitos sem lar - 210 moradores de rua são estimados em João Pessoa e 33 estão na casa acolhida de adultos.

Opiniões:

“Nesse Natal, espero que minha filha me leve para casa. Perdoar isso ela não vai fazer. É muito triste, elas nunca me chamam para ficar com elas nessa data. Tenho esperança de recuperar minha vida, já estou velha”, Alaina Feliciano, moradora de rua.

“Se é para viver desprezado, prefiro que seja em Brasília. Não quero voltar para minha família. Na rua é muito feio, não espero nada de bom nesse natal. Estou desesperançoso”, Severino Ramos, morador de rua.

Jantar em JP

A Prefeitura  de João Pessoa reunirá cerca de 150 moradores de rua hoje. Durante o jantar com os moradores, que ocorrerá no Restaurante Popular, será anunciada a criação de mais uma casa de acolhimento.

Festa em CG

Em Campina Grande, o Centro POP fará hoje uma comemoração natalina para os usuários da instituição, na unidade. Segundo a coordenadora de Centro, Kaline Tavares, a festa terá um momento de louvor e um café da manhã.

Leia mais no Jornal Correio da Paraíba.

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