quinta, 27 de junho de 2019
Cidades
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Mulheres trans conquistam espaços negados

Beto Pessoa / 25 de junho de 2017
Foto: Assuero Lima
Com expectativa de vida em torno de 30 anos de idade, cerca de 90% das travestis brasileiras estão na prostituição, segundo estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Exceções à regra, no mês do Orgulho LGBT, mulheres trans mostram que o que separa esta parcela da população das demais pessoas é a falta de oportunidades.

Gisele Alessandra Schmidt, no início deste mês, fez uma sustentação oral na mais alta instância do poder judiciário brasileiro: o Superemo Tribunal Federal (STF). Em defesa da retificação do nome e identidade de gênero, ela foi a primeira advogada transexual a ocupar aquele espaço, ainda distante da maior parte das travestis e transexuais brasileiras, destacou em sua fala.



“Como tudo na vida das pessoas trans é extremado, comigo não poderia ser diferente. Esta é a primeira sustentação oral que eu faço nos meus dois anos de advocacia e ela acontece justamente na Suprema Corte do nosso país. Sinto que estou fazendo história, mas se estou aqui perante Vossas Excelências é porque sou uma sobrevivente”, disse em plenário.

O discurso da advogada é respaldado pelos números que mapeiam a realidade trans no Brasil: enquanto a expectativa de vida da população é de aproximadamente 74 anos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a pessoa trans não costuma viver mais que 35 anos, de acordo com a ONG TransRevolução.

Muitas são expulsas de casa e evadem a escola cedo. Não encontrando oportunidades no mercado de trabalho, cerca de 90% das travestis encontram na prostituição o único modo de sobrevivência, revela a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Força e persistência são algumas das armas que as travestis e transexuais precisam estar munidas quando faltam oportunidades no mercado de trabalho, destaca Gisele Schmidt em entrevista ao Correio da Paraíba.

"É um caminho árduo, porque já no ensino básico sofremos violência, desde alunos até professores. Já levei cuspida, pedrada e sofri humilhações no ambiente escolar. Até apelidada de ‘florzinha’ fui por um professor. Mas sempre quis ser advogada. Insisti e consegui me formar e passar no Exame da Ordem", disse.

Conquistando Espaços Negados



Na Paraíba, outras mulheres trans reforçam a constatação da advogada. Mariam Jade tem 28 anos. É travesti, negra e em poucos meses vai contrariar o destino que é reservado à maioria das pessoas trans no Brasil: estará formada em um curso superior numa universidade pública. Ela destaca as dificuldades que toda pessoa trans encontra durante sua trajetória de vida, mesmo quando preenche espaços que lhe são historicamente negados.

“O mundo inteiro se volta contra você, como você terá forças para conquistar os espaços? A regra é que as pessoas trans sejam rejeitadas. Me sinto realizada por ser uma mulher trans e negra num curso extremamente masculino, tendo visibilidade neste espaço, que tem os mesmos preconceitos da sociedade: funcionários que não respeitam, professores que se recusam a chamar pelo nome social. Mas vamos seguindo em frente”, disse.

Os obstáculos encontrados não assustam a universitária, que pensa um futuro com mais oportunidades para as pessoas trans. “Nós temos problemas hoje, mas, graças à luta dos movimentos sociais, conseguimos algumas conquistas. São políticas que conquistamos e nos fazem sentir respeitadas, humanas. Você se sente gente, sabe? No futuro me vejo professora numa universidade pública, trabalhando ao lado e ajudando outras travestis e transexuais. A graduação foi só o começo”, projeta.

Segundo informações da assessoria de imprensa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), dos 30.363 alunos da graduação naquela instituição, somente 5 são transexuais ou travestis registradas. Os dados, antes de entristecer, dão forças para que Jade Mariam enxergue novos possíveis para pessoas como ela.

“Aqui na UFPB eu conheço no máximo quatro travestis, mas já fomos menos. Quando ocupamos este espaço que é esperado que não conquistemos a gente faz a diferença, mostramos que somos capazes de cursar uma graduação, pós-graduação, seguir carreira acadêmica, temos capacidade cognitiva e garra para enfrentar as dificuldades que forem surgindo”, disse.

Empreendedorismo



Outro caminho possível é o empreendedorismo, que leva independência e empoderamento às várias mulheres trans. Natural do município de São José de Piranhas, Sertão paraibano, Marquesa Vasconcelos é uma destas. Artesã, desde 2014 tem investido na produção de objetos decorativos de luxo, maior parte trabalhado em pedraria e pérola. Ela disse que decidiu enveredar para o empreendedorismo porque enxergou ali a oportunidade de alcançar um objetivo ainda negado à maioria das travestis e transexuais no Brasil.

“Não é fácil ser uma mulher trans, porque o preconceito é escancarado, as pessoas nos obrigam a ficar na marginalidade. Fui demitida e não aceitei ficar na marginalidade, por isso comecei a empreender. Acreditei na minha capacidade e hoje as coisas estão dando certo”, disse.

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