quarta, 17 de julho de 2019
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Mudanças no clima alteram padrão de chuvas

Luciene Meireles / 25 de junho de 2019
Foto: Reprodução
Os episódios de chuva intensa devem se tornar cada vez mais frequentes nas metrópoles brasileiras. É o que aponta um estudo climatológico feito pela Universidade da Califórnia e divulgado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. A análise indica que a mudança se deve às variações climáticas que alteram o padrão de chuvas no Brasil. João Pessoa registrou, em menos de uma semana, o maior volume de precipitações das últimas três décadas. Em quatro dias, foram 504 mm, volume que corresponde a 204,6% a mais que a média histórica.

“As mudanças climáticas causadas pelo aquecimento global são irreversíveis e os problemas causados por essas mudanças, como as fortes chuvas que assolam João Pessoa desde a semana passada, serão cada vez mais frequentes”, observou a arquiteta e urbanista Sônia Matos, conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Paraíba (CAU/PB).

Para Ênio Pereira de Souza, professor titular do Departamento de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), é preciso observar que, quando se faz estudo atualmente, a abrangência é global. Segundo ele, ao serem analisados dados meteorológicos de 70 anos, não se enxerga algo numa escala de tempo maior, e o Nordeste e a Paraíba estão sujeitos a secas recorrentes bem antes dessas coletas de dados. Em 1915 e entre 1875 e 1877 também houve grande seca, ou seja, conforme o estudioso, o risco sempre existiu e torna-se complicado atribuir a situação a uma causa específica.

“Agora, é fato que quando se tem mudanças que causam um impacto global, elas vão afetar algumas regiões mais ou menos. Uma região que é mais sensível, como a nossa, que já tem secas de forma natural, acaba sofrendo secas mais intensas”, explicou. Em relação a chuvas mais frequentes e intensas, ele disse que esses episódios têm sido vistos em São Paulo e Rio de Janeiro.

“É outro extremo da mudança climática, com secas mais prolongadas e também eventos mais intensos que têm um impacto muito mais rápido. Esse ano, no Rio, muitas pessoas morreram. Isso realmente é algo que se observa no mundo, um aumento da frequência desses eventos. Agora também não se sabe se as regiões urbanas são mais afetadas porque hoje em dia o solo urbano está impermeável e há uma maior concentração de pessoas que acabam ficando sujeitas a esses efeitos. Tudo isso tem que ser levado em consideração”, avaliou.

Não é só vilão

“Não é que o estudo não se confirme. Existem realmente os efeitos. O difícil é como se atribui tudo a uma determinada coisa quando se tem ciclos naturais sobrepostos”, analisou o professor Ênio Pereira de Souza, da UFCG.

Ele explicou que não se pode atribuir toda a culpa a uma eventual mudança climática, embora ela possa ter uma participação. “Temos questões naturais também, as regiões são mais desmatadas, há muitos fatores e tudo isso entra na conta da chamada mudança climática global. Por isso, não se pode simplesmente atribuir tudo a um mesmo vilão”, analisou.

Sem sombra de dúvida, conforme Ênio Souza, as chuvas mais fortes podem intensificar os transtornos, quando se faz uma ocupação desordenada, por exemplo. “Não é que o evento não acontecesse antes. O efeito agora é maior porque aumentou a população vulnerável a ele. Por isso, o efeito é maior do que passado”, frisou.

A conselheira do CAU-PB, Sônia Matos, acrescentou que os problemas ocasionados pelas chuvas são diversos, entre eles, alagamentos de ruas e casas da população que mora próximo aos rios, desmoronamentos de barreiras, quedas de árvores, surgimento de crateras que deixam o trânsito lento causando congestionamento e acidentes na cidade. “Todos esses problemas poderiam ser amenizados com medidas de planejamento urbano”, reforçou.

Aesa: evento é normal

Apesar da intensidade e duração das chuvas em João Pessoa, o meteorologista Alexandre Magno, afirmou que o evento foi isolado e que, em 1968, a ocorrência foi ainda maior. Por isso, segundo ele, não se pode analisar o estudo como definitivo para caracterizar o clima da região.

“O tipo de evento que está ocorrendo agora não tem interferência com o clima local. Vem do Oceano Atlântico e tem maior magnitude no Litoral”, disse ele, que é gerente executivo de Monitoramento Hidrométrico da Agência Executiva de Gestão das Águas da Paraíba (Aesa-PB). Esses eventos ocorrem de junho a agosto e são normais.

“As chuvas mais fortes vieram de efeitos significativos sobre o oceano. Duraram apenas dois dias e, depois, chuvas normais. O solo saturado causa acúmulo de água. Foi isso que aconteceu. Do dia 12 para o dia 13, saturou solo, encheu rios e depois, com chuva normal, não teve como escoar e seguir o curso normal. Tudo depende do sistema, e o estudo de mudança climática não tem comprovação local”, esclareceu.

Ainda segundo Alexandre Magno, as chuvas foram provocadas por ondas de Leste ou distúrbios ondulatórios de Leste, um aglomerado de nuvens que vêm do oceano para a atmosfera e é normal para esse período. Ele acrescentou que não há previsão de chuvas fortes para os próximos quatro dias.

Estudo aponta soluções

Realizado pela Universidade da Califórnia e publicado no International Journal of Climatology, o estudo aponta que as mudanças no clima favorecem a mudança no padrão de chuvas no Brasil. Os estudiosos chegaram à conclusão com base na análise de 70 anos de dados meteorológicos. As constatações indicam que as ilhas de calor que se formam em metrópoles criam condições para a formação de tempestades, que são intensificadas pela proximidade com o Oceano Atlântico.

“Cada vez mais vamos ter mais episódios de chuvas torrenciais, bem como longos períodos de estiagem, invernos com baixíssimas temperaturas, tornados. O importante é que a sociedade e o poder público tenham consciência de que, sim, estamos provocando mudanças no clima. As cidades sofrem cada vez mais impactos e precisam investir em adaptação ao novo cenário”, afirmou André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

"É preciso mapear as regiões mais vulneráveis a alagamentos e deslizamentos de terra e retirar as pessoas das áreas de risco, como margens de rios e encostas íngremes. Além disso, é necessário manter parques, praças e ruas arborizadas para diminuir o efeito das ilhas de calor, que atraem as grandes tempestades".

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