terça, 16 de julho de 2019
Mudança de hábito
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Veganismo alcança quase 5% dos paraibanos

Lucilene Meireles / 05 de maio de 2019
Foto: Assuero Lima
Adotar uma dieta que exclui a ingestão de carne e deixar de consumir qualquer produto de origem animal ou testado neles – como vestuário, produtos de beleza, calçados, bolsas – pode parecer uma decisão extrema, mas não é assim que os veganos enxergam. O estilo de vida, que atrai cada vez mais simpatizantes, já conquistou entre 4% e 5% dos paraibanos, segundo estimativa da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), núcleo de João Pessoa, e tende a crescer por aqui. Os lactovegetarianos em transição somam 10%.

Para os seguidores do veganismo, a prova de que eliminar os produtos de origem animal de forma geral tem crescido é que até as grandes redes de fast-food passaram a produzir alimentos específicos para vegetarianos. Nathalia Viana, coordenadora da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), em João Pessoa, observou que a tendência é de que cresça o número de adeptos e, consequentemente, o mercado para atender a esse público. Além das áreas como alimentação e vestuário, é possível encontrar no mercado outros produtos que atendem às exigências dos veganos, a exemplo de creme dental, cosméticos, shampoos, batons. “Existe uma tendência de crescimento em torno de 30% ao ano na procura por produtos veganos”, destacou Nathalia.

O mercado voltado para este nicho, inclusive, tem promovido eventos que expõem artigos produzidos exclusivamente para veganos, vegetarianos e afins. Em João Pessoa, por exemplo, é realizada uma feira anual, a VegJampa, na Usina Cultural da Energisa, que atrai, por dia, em torno de 1,5 mil pessoas. Em 2019, a mostra, que normalmente ocorre entre os meses de setembro e novembro, está programada para setembro.

Indústria é cruel. A jornalista Michelle Raeder adotou o vegetarianismo há seis anos e o veganismo há nove meses. Ela conta que se tornou vegetariana por causa dos animais. “Comecei a ler muito sobre o tratamento que é dado aos animais criados para abate e depois que tomei conhecimento da real situação, não consegui consumir carnes e derivados. Foi instantâneo”, afirmou.

Com o passar dos anos, ela começou a se aprofundar sobre as informações. “Descobri que a indústria do leite é tão ou mais cruel que a indústria da carne. Diante disso, decidi parar de consumir os derivados e me tornar vegana, pois os maus tratos são fortes e não consegui consumir algo que causou dor e sofrimento”, justificou.

Para quem pensa em aderir e ainda tem dúvidas sobre o assunto, ela deixa um recado. “Coloque compaixão no seu prato. Veja nele uma comida que não fez ninguém sofrer, que ninguém precisou abrir mão da vida para estar lá. Só assim conseguimos de fato abrir mão de costumes que são desnecessários para a nossa vida. Acredito que não é preciso ter sofrimento e dor no meu prato, ninguém precisa morrer para eu me alimentar. E não precisa mesmo”, completou.

Entenda a diferença





  • Vegetarianismo Exclui o consumo de carne.


  • Ovolactovegetarianos Se alimentam de vegetais, ovos, leites e derivados.


  • Vegetarianos estritos Não consomem qualquer alimento de origem animal.


  • Veganos Não consomem nenhum alimento de origem animal, nem utilizam produtos feitos a partir de animais ou testados neles.






Dieta vegana traz benefícios ao corpo



Carboidratos, incluindo cereal integral, arroz integral, quinoa, trigo, cevada; leguminosas, como feijões, lentinha, ervilha, grão de bico, e salada com bastante folhas verdes são alguns exemplos de alimentos que fazem parte do cardápio vegano que, segundo a jornalista Michelle Raeder, não é apenas uma dieta e sim um estilo de vida.

As mudanças após aderir ao veganismo são muitas. Michelle Raeder, por exemplo, garante que, fisicamente, percebeu um aumento da disposição. “Minha digestão está mais fácil, meu intestino passou a funcionar regularmente – antes eu sofria com prisão de ventre – minha imunidade é alta, minhas taxas sanguíneas são ótimas. Ou seja, com uma dieta correta, a carne não faz nenhuma falta no seu prato”, assegurou.

Para ela, a qualidade de vida melhorou muito. “Quase não fico doente. Tenho gastrite e antes, sentia frequentes azias. Faz muito tempo que não sei o que é isso”, afirmou. A mudança radical, segundo a jornalista, tem explicação. “Quando percebemos que somos parte de um todo, é impossível ficar apático ao sofrimento de tantos seres inocentes só para nos causar um prazer momentâneo. Já que nosso corpo vive muito bem sem a proteína animal, consumi-la é apenas um prazer gastronômico”, observou.

Por conta da mudança, Michelle não consome absolutamente nada de origem animal. Só compra sapatos veganos, roupas e produtos veganos. “Me sinto muito feliz em não compactuar com o sofrimento dos animais”.

Mercado ainda é restrito na Paraíba





Apesar de ter crescido o número de estabelecimentos que ofertam produtos veganos, o mercado ainda é restrito. Em João Pessoa, segundo Michelle Raeder, a oferta tem aumentado nos últimos anos. “Hoje já podemos encontrar em lojas de produtos naturais algumas opções de salsichas, salgados, queijos, entre outros itens, tudo vegano”, afirmou.

Na Capital paraibana, conforme a jornalista, produtos veganos industrializados são mais caros por haver baixa demanda de procura. Mesmo assim, há itens disponíveis em alguns supermercados da cidade. “E importante deixar claro que esses produtos são completamente desnecessários numa dieta vegana. É possível viver sem eles e, além disso, a maioria dá para fazer em casa”, assegurou.

A chefe de cozinha Adriana Barcelos, que também é bióloga com mestrado em Ecologia, adotou o veganismo há quatro anos. Proprietária de um restaurante que promete culinária saudável, ela acredita que a tendência é de aumento no número de adeptos e concorda que os alimentos veganos industrializados são desnecessários. “Feiras e mercados têm frutas e verduras à disposição”, pontuou Adriana Barcelos.

Para quem acha que os produtos veganos são mais caros, ela diz que isso é mito. “A beterraba que eu compro é mais cara que a beterraba de uma pessoa que consome produtos de origem animal? É preciso desmistificar que o veganismo é caro. Como é que retirar produtos da sua dieta deixaria seu orçamento mais apertado?

Quando se diz que produtos veganos são caros, as pessoas se referem a produtos industrializados, que não são necessários para uma alimentação equilibrada. Ainda assim, quando é de minha vontade consumir esses produtos, prefiro pagar mais caro a saber que um animal foi explorado para que eu consumisse algo que eu quero”, concluiu chefe de cozinha Adriana Barcelos.

É preciso acompanhamento



Apesar de todos os benefícios do veganismo, para manter uma dieta rica, é importante ser acompanhado por um profissional. A jornalista Michelle Raeder por exemplo, procurou orientação de um nutricionista desde que se tornou ovolactovegetariana e, depois, vegana. Atualmente, segue um plano alimentar feito especialmente para suas necessidades e que tem todos os nutrientes que precisa.

Para ela, é um erro aderir ao veganismo sem orientação. “Cheguei a ficar três meses fazendo a dieta vegana da minha cabeça. Isso foi péssimo, pois fiquei fraca, meu cabelo e minhas unhas ficaram fracos, me sentia com muito sono e sempre cansada. É muito importante ter o acompanhamento de um profissional”, recomendou.

É o que também afirma a nutricionista clínica e esportiva Heloísa Espínola. “No veganismo, existem prós e contras. A alimentação vegetariana tem coisas boas como excluir o colesterol de origem animal, ajuda a manter as taxas equilibradas. Já os triglicerídeos podem aumentar, de acordo com a quantidade de carboidratos que a pessoa ingere”, alertou.

Por outro lado, segundo ela, se a dieta não for balanceada, levando em conta a quantidade de proteínas, vai haver perda de massa muscular.

“É preciso ser acompanhado por um nutricionista. Se fizer por conta própria, vai haver carência nutricional”. Uma delas é a de vitamina B12, o que pode interferir no funcionamento do sistema nervoso. Ela explicou que o ferro presente em outros alimentos pode não ser absorvido e ser necessária uma suplementação. “O melhor ferro é o da carne”, frisou.

A nutricionista afirmou, porém, que é possível manter uma dieta rica sendo vegano, mas pode haver necessidade de suplementação, além de repetir os exames a cada seis meses. Se for atleta, é preciso complementar com proteína vegetal.

“Tem que observar idade, sexo, se pratica atividade física. Se for criança, pode afetar o crescimento. Por isso a dieta precisa acompanhada mais de perto”, explicou.

Mudança foi por amor aos animais



A chefe de cozinha e bióloga Adriana Barcelos contou que seu pensamento ao se tornar vegana foi, primeiramente, pela causa animal, mas atualmente, a causa ambiental tem maior impacto. Assim como Michelle, ao adotar o veganismo, ela percebeu melhoria no bem-estar corporal e mental, diminuição de doenças, melhoria da imunidade e economia financeira.

Diferente do que muitos pensam, ela afirma que ser vegano não é fazer uma mudança radical.

“Adotei o veganismo pela causa animal, já que não faz sentido eu amar os meus animais de estimação e permitir que sejam feitas atrocidades com outros animais não domesticados. Pouca gente sabe, mas porcos são mais inteligentes que cães e têm QI de uma criança de 3 anos de idade”, observou.

Ela lembrou que, além de não consumir produtos de origem animal ou testados neles, os veganos não adotam quaisquer outras práticas que explorem animais, como andar a cavalo, por exemplo. “Por isso não consumo mel, leite, ovo, queijo, carne, couro, lã, seda ou qualquer produto oriundo de sofrimento animal”, afirmou.

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