domingo, 18 de agosto de 2019
Cidades
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Migrante brasileiro encontra vida dura no exterior

Ellyka Gomes / 21 de abril de 2019
Foto: Arquivo pessoal
A maioria dos brasileiros que decidiram morar no exterior foi “às cegas” e sem perspectiva de emprego. Hoje, 78% trabalham formalmente em uma empresa, 13% têm seu próprio negócio e 10% estão na informalidade. A pesquisa foi realizada pela Talenses Group - empresa de recrutamento - com 231 brasileiros que trabalham no exterior. Mas não se engane. Deixar tudo para trás e tentar a vida lá fora não é tão fácil quanto parece.

Especialistas ouvidos pelo jornal CORREIO ressaltaram que conseguir um emprego formal no exterior requer, no mínimo, qualificação e fluência no idioma. “Os países abertos para imigrantes buscam profissionais produtivos, dispostos, proativos e inteligentes para desenvolver a economia nacional”, destacou o consultor do Conselho de Regulamentação de Imigração do Canadá e cofundador da Canada Intercambio, Ed Santos.

Para ter uma ideia, segundo Santos, no ano passado, mais de três milhões de pessoas se inscreveram no programa de migração para o Canadá - considerado um dos países mais abertos para receber estrangeiros. Dessas, apenas 164 mil, isto é, 5,47% conseguiram o visto de residente permanente pelo programa Classe Econômica. Os brasileiros foram responsáveis por 0,76% desse universo, ou seja, 1.284 pessoas.

A jornalista paraibana Renata Vasconcelos, de 33 anos, que mora no Canadá desde 2015, conhece bem esse processo. “Imigrar não é fácil... Pelo contrário, é um processo longo e estressante”, frisou.

“Além de provar que você tem qualificação profissional para permanecer no país, você precisa ter força de vontade para conseguir passar por outros obstáculos, como diferenças culturais, saudade da família, amigos e comida”, desabafou.

Inicialmente, a paraibana só iria ficar em Montreal durante seis meses, para uma temporada de cursos de idiomas (inglês e francês). Mas Renata se encantou com o lugar, principalmente, com o sentimento de segurança, e decidiu ficar de vez no Canadá.

“É libertadora a sensação de andar na rua sozinha com o seu celular na mão e não ter medo de ser assaltada ou pegar um ônibus durante a madrugada e não acontecer nada com você”, comentou. Depois que terminou os cursos de idiomas, Renata começou a estudar Tecnologia da Informação (TI) para permanecer no Canadá com o visto de estudante. A decisão por mudar de profissão foi muito mais baseada na necessidade do que por afinidade com a nova área.

“Na época eu não falava francês, então as opções de curso eram bastante restritas. Escolhi Tecnologia da Informação por ser uma profissão em demanda e que paga bem aqui”, destacou. Enquanto estudava, Renata tentou várias vezes trabalhar na Starbucks - maior rede de cafeterias do mundo. A empresa é famosa por contratar profissionais sem exigir experiência. Mas ela nunca foi chamada nem mesmo para uma entrevista.

Quando terminou o curso de TI, a jovem se candidatou para uma vaga de emprego na indústria de games. Ela passou por testes, entrevistas, treinamentos e, finalmente, foi contratada. Há um ano, Renata trabalha testando jogos e aplicativos. “O processo de contratação foi bem difícil. Mas, na minha opinião, um profissional qualificado tem mais chances de ser contratado do que alguém que busca um subemprego. Porque é muito mais gente sem experiência e qualificação tentando um emprego, ou seja, a concorrência é muito maior”, destacou a paraibana.

"Todos os países impõem diferentes limitações e exigências para aceitar um imigrante. Pessoas sem qualificação profissional, sem inglês, com idade avançada (depois dos 30 anos) ou portador de alguma doença terão maior dificuldade em conquistar sua nova residência", disse Ed Santos.

Entre o sonho de viajar e injustiças

Bernadete de Oliveira, de 61 anos, deixou a Paraíba para morar em Lisboa, em Portugal, pouco tempo depois que saiu sua aposentadoria. “Estava cansada de tanta injustiça social... Queria viver em paz”, destacou.

Diferentes ensejos motivam os brasileiros a deixar a terra natal para tentar a vida no exterior. Ainda que muitos tenham vontade de sair do Brasil em busca de uma oportunidade de trabalho, é o sonho de viajar e conhecer novas culturas que motivaria a maioria a deixar o país. Pelo menos foi o que apontou uma pesquisa realizada pela Talenses Group, com mais de 1.200 pessoas.

Diante da pergunta “o que mais o motivaria a sair do país hoje?”, 35% dos entrevistados afirmaram que seria o sonho de viajar e conhecer novas culturas. Esse desejo foi citado mais vezes que a crise e o alto nível de desemprego (26%) e até mesmo a falta de perspectiva de crescimento profissional (23%). “Desde criança, tinha vontade de ‘voar’, descobrir o mundo, conhecer outros lugares, aprender idiomas e morar, nem que fosse por um tempo, em outro país. Era um grande sonho”, revelou a jornalista paraibana Lays Rodrigues, de 28 anos, que hoje vive em Madri, na Espanha.

Ela foi a primeira vez para lá em 2015, aos 24 anos, para um intercâmbio. Duas semanas foram suficientes para Lays se encantar com o lugar. “Ainda fiz um mochilão pela Europa, porém notava que nenhum outro local me agradava tanto como Madri. Estava apaixonada pela cidade. Além de ter uma arquitetura incrível, ela oferece um leque de atividades culturais, gastronômicas... E você tem a oportunidade de conhece pessoas de várias partes do mundo”, relatou.

Lays voltou para João Pessoa, mas não se adaptou mais. Decidiu, então, retornar para a Espanha, onde mora desde 2016. Atualmente estuda Turismo e trabalha na recepção de um hostel. “Com a vida no exterior aprendi a ser independente, a me conhecer mais, a lutar pelos meus sonhos, e principalmente a ser forte. Além disso, como existem pessoas de várias partes do mundo, aprendi muito sobre outras culturas, e isso é algo que não ensina em escola nenhuma”, finalizou.

"Todos os países impõem diferentes limitações e exigências para aceitar um imigrante. Pessoas sem qualificação profissional, sem inglês, com idade avançada (depois dos 30 anos) ou portador de alguma doença terão maior dificuldade em conquistar sua nova residência", contou Paulo.

Requisitos

Os profissionais que atuam outros países precisam preencher requisitos básicos, como o domínio do idioma inglês e forte conhecimento técnico em sua área de atuação. Mas também ter bem desenvolvidas as habilidades comportamentais básicas para essa mudança, como comunicação, habilidade de relacionamento, iniciativa, além de versatilidade. Trabalhar com diversas culturas em países desconhecidos pode exigir muito dos profissionais

Enquete no Portal Correio

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Experiência vivida nos Estados Unidos

“Lá não tem assalto... Os preços dos produtos são mais justos... O transporte público funciona de verdade... Eu vou ter uma melhor qualidade de vida”. Esses foram só alguns dos pensamentos que pipocaram na minha cabeça nos preparativos para meu intercâmbio de um ano nos Estados Unidos, em 2016. E, de fato, eu vivencie tudo isso! Eu só não estava preparada para sentir falta da farofa de cuscuz, do pão francês quentinho, de ouvir as pessoas falando português na rua, do calor e das praias de águas mornas.

Nesse processo de amadurecimento pessoal, percebi que estamos tão saturados dos problemas do Brasil, da injustiça social, do sistema que não funciona, que deixamos de focar no que temos de especial na nossa terra. Lá no Hemisfério Norte, os meses de fevereiro e março são bem frios. E não é só porque é inverno. É que não tem Carnaval, não tem samba, frevo, maracatu... Junho até que é mais animado. O verão começa dar o ar de sua graça, e as pessoas estão mais sorridentes por causa do sol. Mas não tem forró, comidas de milho, Campina Grande ali pertinho para curtir o São João.

É claro que não dá para viver apenas de festejos. Na verdade, depois que você volta para o Brasil, fica ainda mais difícil de conviver com as injustiças sociais. Perceber que se os impostos fossem aplicados como deveriam, teríamos educação básica de qualidade. Pobres e ricos estudando em escolas públicas, como nos EUA. Teríamos bibliotecas nos bairros, e nem precisava ter sistema de Wi-Fi. Bastava ter livros, e uma cultura de incentivo à leitura. Os problemas são muitos, e a lista longa para citar.

Os norte-americanos me ensinaram uma importante lição: abrace a comunidade em que vive e faça dela um lugar melhor. Para eles, o país também está longe de ser o ideal, afinal, lá também tem pobreza e mendigos nas ruas. Mas eles sabem ser fraternos com os seus (e nem contam com a forte influência da religião para isso).

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