terça, 19 de janeiro de 2021

Meio Ambiente
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Rio Gramame: Falta de laboratórios atrapalha pesquisas

Bruna Vieira / 12 de fevereiro de 2017
Foto: Assuero Lima
Após um ano de estudos sobre a poluição no rio Gramame, para a professora Ilda Toscano, do Departamento de Química da UFPB, coordena a pesquisa, a disponibilidade de laboratórios interfere nas ações dos pesquisadores. Em setembro do ano passado, houve uma mortandade de peixes na Ponte dos Arcos, em Mituaçu, mas, não foi possível examinar os animais.

“Alguns colegas já fizeram ensaios ecotoxicológicos com microorganismo e dizem que a coloração na água não é tóxica.O problema é que a água passa, se não for analisado logo, os resultados não são confiáveis. Os efluentes têm muito composto orgânico que quebra quando cai na água e consome o oxigênio do rio. Às vezes, o peixe morre não por conta da toxicidade e sim pela falta de oxigênio. Esse problema é recorrente e a gente vem detectando desde 2007.É muito difícil detectar qualquer resíduo nos peixes, porque a gente não tem laboratório que faz isso aqui perto. A ideia é ter laboratórios creditados pela Anvisa aqui. Isso é caro. O mais perto é em Recife, que faz em água, mas, talvez só comecem a fazer análise em abril. Vamos procurar outro. Na UFPB, fazemos análises simples, de agrotóxico e metais terceirizamos. Coletamos água e sedimento para análise físico e química, em pontos profundos vamos adquirir um coletor específico”, justificou Ilda Toscano.

Selo de proteção

O Fórum Permanente de Proteção do Gramame está elaborando o Selo de Proteção do Gramame, que certificará as empresas com boas práticas ambientais e que não tenham registro de procedimento irregular no Gramame. O procurador do MPF, José Godoy, informou que as inscrições foram prorrogadas para que estudantes da rede pública e privada da Grande João Pessoa e mata sul possam se inscrever. A premiação chega até R$ 3 mil. “Os alunos iriam enviar as propostas de arte para ter uma aproximação com a rede estadual, notamos a necessidade que a população tome consciência para que o rio seja revitalizado. A consciência ambiental cresce no Brasil, mas, há muito o que avançar. As pessoas dão relevância ao assunto, a própria indústria quer ter a imagem de preservação ambiental”, disse.

Godoy explicou que para receber o selo, as empresas devem estar ambientalmente regularizadas e fazer uma ação a mais, “Seja revitalizando ou recuperando a mata ciliar, tem que apresentar trabalhos relevantes. O edital será lançado esta semana. Houve avanços em algumas questões, empresas instalaram filtros, mas, precisa avançar na qualidade da água e depende muito das nascentes e mata ciliar. A maioria estão degradadas, o que compromete no futuro. A mais importante represa é de lâmina, não junta grande quantidade, a gente confia que vai ter água sempre e pode ter um problema tão grave quanto São Paulo teve”, apontou o procurador.

 Ocupação

No dia 23 do próximo mês, durante a Semana da Água, está programada a 7ª ocupação do rio Gramame, por coletivos ambientais, com um cortejo ambiental até à praia.

 Agricultura

Três equipes compõem o estudo. Uma delas analisa o uso e ocupação do solo. “Que tipo de cultivo é feito no local. Há muito bambu, abacaxi está crescendo e no reservatório a cana chega na beira d’água. Algumas áreas são de invasão. O objetivo é detectar se está tendo agricultura, desmatamento ou qualquer tipo de atividade dentro da área de preservação, medindo a mata ciliar, que praticamente não existe e se as nascentes estão sendo preservadas”, destacou Ilda.

 Monitoramento

A ONG SOS Mata Altântica monitora a qualidade da água do Gramame mensalmente. Em 25 análises nos três pontos acompanhados, nenhum apresentou característica Ótima ou Boa. Em 66,67% o estado é regular e em 33,33% é ruim. Já nos exames realizados pela UFPB, de 22 pontos, apenas dois estavam Regular, 17 Boa e três Ótima.

Bário em alta

Apesar de ter sido detectado Amônia e Fósforo em desacordo em alguns pontos de coleta, de maneira geral, o Bário foi o elemento que se destacou na concentração. Segundo dados da pesquisa, isso requer um estudo mais amplo sobre a composição química do solo ao longo do leito dos rios e avaliar as atividades humanas que poderiam estar aumentando a concentração do metal nos sedimentos. Hemerson Magalhães, coordenador do Ceatox informou que esse elemento é raro em mananciais e águas naturais. “As atividades humanas podem introduzi-lo no meio ambiente, como perfuração de poços, produção de fogos de artifício, pigmentos, vidros e defensivos agrícolas”, destacou.

Elementos em desacordo em alguns pontos de coleta

Bário: de elevada toxicidade, o contato ou a ingestão pode causar vômito, diarréia, dor abdominal, elevação da pressão sanguínea, por vasoconstrição, alterações, alterações no sistema nervoso e distúrbios hidroeletrolíticos. Se associado ao Cálcio e Magnésio em altos níveis podem causar infarto do miocárdio.

Amônia (NH3): tóxico bastante restritivo à vida dos peixes

Fósforo total: quando ingerido em excesso e de forma crônica, causa formigamento, dormência, alterações de sensibilidade para frio, calor e pressão, hipertensão, confusão mental, formação de cristais de fosfato que podem bloquear artérias, levando a arteriosclerose, derrames, ataque cardíaco, má circulação sanguínea e sensação de peso nas pernas.

(Fonte: Ceatox)

Semam recebe denúncias

A Secretaria de Meio Ambiente de João Pessoa atua no Gramame com o plantio de árvores nativas para recuperação da mata ciliar e fiscalização. As denúncias de crimes ambientais podem ser feitas através do 0800 281 9208 ou 3218 9208. A Divisão de Estudos e Pesquisas (Diep) da Semam, conta com biólogo, geógrafo e engenheiro ambiental que monitoram os rios de João Pessoa. Com base nesse monitoramento e em parceria com equipe de arborização, promove ações de recuperação da mata ciliar, informando a Emlur sobre a necessidade de limpeza da área. Nas fiscalizações são observados aspectos, como a qualidade, mata, resíduos irregulares e rede coletora. Todo o trabalho feito pelas equipes de fiscais da Semam tem enfoque educativo, explicando às pessoas sobre a legislação ambiental, necessidade de preservar, consequências do desmatamento e despejo de lixo próximos ao rio e qualidade de vida da população”, informou a assessoria de imprensa.

 Sem contato

A reportagem do Jornal Correio entrou em contato com a Sociedade Paraibana de Infectologia para falar sobre as implicações da poluição para a saúde da população ribeirinha, doenças de veiculação hídrica e arboviroses, mas, não quis comentar o assunto.

 

 

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