terça, 13 de novembro de 2018
Meio Ambiente
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Rio Gramame: Moradores denunciam que água está envenenada por dejetos industriais

Bruna Vieira / 30 de setembro de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Na tarde da última quarta-feira, pescadores da comunidade de Mituaçu encontraram dezenas de peixes boiando e outros saltando para sobreviver na superfície das águas do Rio Gramame, em João Pessoa. A região abriga quase 70 mil habitantes. Os moradores e a Secretaria Municipal de Meio Ambiente acreditam que a morte tenha sido causada por envenenamento causado por dejetos industriais. A comunidade tem sofrido com a poluição do manancial de forma direta e indireta, pois, utiliza a água do rio para a agricultura e consome o que é pescado no local.

“Há 10 anos a ONG atua, em 2012 foi criada a campanha “O Rio Gramame quer viver em águas limpas” com inquérito civil público e ano passado o Fórum do Gramame, conduzido pelo Ministério Público Federal. Ações estão sendo feitas, mas, é um processo lento. Resultou em um relatório da Universidade Federal da Paraíba e um livro, do professor Tarcísio. No ano passado, pudemos ver o rio completamente azul em toda a sua extensão. Nosso sonho é a revitalização do rio. pesquisa já tem demais, precisamos de ação”, disse Ivanildo Santana, morador e gestor ambiental da ONG Viva Olho do Tempo.

Thiago Marques, gestor de mídias da ONG foi quem fez os primeiros registros da mortandade. “Os pescadores vieram nos chamar. Foi um susto. Ver várias espécies, algumas que a gente nunca tinha visto e nem sabe de onde veio. Saltando, querendo sair da água. Muito camarão. Não tinha cheiro, mas, a coloração da água estava mais esverdeada que o normal, nem dava pra ver o fundo do rio”, relatou.

Medo e desesperança. Um pescador que mora em Engenho Velho, lamenta a situação e aponta como crime. Com medo, ele não quis se identificar. “Morte natural não foi. Já vi várias vezes. Antes era possível tomar banho, a água era limpa, tinha 8 metros de fundura. Hoje tem 40 cm no trecho da Ponte dos Arcos quando a maré está cheia. Tivemos que ir pescar no Rio Jacoca, que ainda está puro. A poluição acabou o camarão daqui. A indústria chegou em 1970 e pouco a pouco foi afetando. Em 2010, deu uma enchente e tivemos a sensação de que levou embora toda a poluição, mas, não demorou em poluir de novo. Quem vivia da pesca teve que ir embora ou trabalhar em outra coisa. Já briguei tanto por causa desse rio, mas, não me arrependo porque é de onde tirava o sustento da minha família. Hoje tenho medo de represália de gente poderosa e até de outros pescadores que usavam carrapaticida para pegar crustáceos. É tanto combate perdido que a gente desencoraja”, disse.

Semam vai acionar Sudema

O chefe de fiscalização da Secretaria de Meio Ambiente de João Pessoa, Allison Cavalcanti, informou que técnicos irão até o local verificar o que aconteceu e que a causa mais provável é contaminação pela indústria. Porém, uma análise de água que possa identificar de onde partiu a fonte de contaminação só pode ser feita pela Sudema.

“Existe um processo no MPF que mostra que muito do que acontece no Gramame é provocado pelo Distrito Industrial. Algumas fábricas lançam efluente, resultado do processo industrial no rio. A gente vai até o local, faz uma análise do ponto onde foi verificado a morte dos peixes e chama a Sudema, que é o órgão que licencia e autoriza as indústrias a funcionarem. Cabe ao órgão licenciador, a obrigação de fiscalizar. Com a análise tem como identificar qual é a empresa, porque cada uma trabalha com determinado tipo de material. Se tem corante, a gente sabe que é têxtil e não de bebidas. Após a comprovação, ela é multada. Não cabe mais notificação, porque ela está desobedecendo uma série de recomendações que já foram dadas pelo licenciador”.

MPF investiga

A reportagem do Jornal Correio tentou contato com o procurador da República, José Godoy, pela assessoria de imprensa do Ministério Público Federal, mas ele disse que não se pronunciaria, mas que estava apurando o caso.

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