domingo, 09 de maio de 2021

Meio Ambiente
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Anzol circular pode salvar vida de tartarugas marinhas

Lucilene Meireles / 04 de dezembro de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Um modelo de anzol para pesca criado por técnicos do Projeto Tamar há cerca de dez anos poderia ser a ‘tábua de salvação’ para as tartarugas que são vítimas frequentes dos anzóis convencionais. Porém, a resistência dos pescadores e o número cada vez maior de mortes levaram o Governo Federal a adotar uma medida rígida quanto à pesca em alto mar. O uso obrigatório do anzol circular em toda a costa brasileira entrou em vigor em 1º de novembro. Quem descumprir vai responder por crime ambiental e poderá pagar multa.

Para a bióloga Rita Mascarenhas, que está à frente da ONG Guajiru, de proteção às tartarugas marinhas, a obrigatoriedade é um avanço. “A gente tem que começar a fazer pressão para que também seja adotado aqui, seja por algum incentivo governamental para fomentar a troca ou realmente a venda por um preço mais simbólico para que os pescadores possam colaborar com isso”, afirmou.

Nos locais onde foi implantado, segundo ela, houve uma redução gigantesca de morte de tartarugas por conta do anzol. Já na Paraíba, a bióloga disse desconhecer se o anzol circular é utilizado. “O Projeto Tamar dá anzóis para os pescadores e recolhem os antigos, que a gente chama anzol ‘jota’”, observou.

O secretário adjunto de Pesca do município de Cabedelo, Luiz Carlos de Albuquerque Silva, também concorda com o uso do anzol circular. Ele relatou que, há cerca de dez anos, já se usava, mas em caráter experimental. “Foi constatado que o uso desse tipo de anzol experimental diminuía muito as mortes de tartarugas. Infelizmente, a estrutura pesqueira hoje em Cabedelo é inexistente. O terminal pesqueiro está desabilitado, não tem serventia. Só algumas embarcações pequenas desembarcam no porto”, constatou.

Ele lembrou que entre 1999 e 2002, a Paraíba era uma grande exportadora de atum. “Mas, isso acabou e não houve interesse do Governo Gederal de renovar as parcerias para a pesca oceânica. Por vários erros, desde a constituição do projeto, temos aí um elefante branco”, lamentou.

Tambaú

Os pescadores que atuam na Praia da Tambaú, em João Pessoa, afirmaram que não pescam de espinhel, mas garantiram que, se fosse preciso, mudariam o tipo de anzol, principalmente porque nos locais onde foi adotado o modelo circular, a pesca melhorou.

“Fui pescador por mais de 50 anos. Passava oito dias no mar, a 80 quilômetros da costa. Hoje trabalho só na confecção de redes, mas se ainda estivesse na ativa, trocaria o anzol para salvar a vida das tartarugas e pegar mais peixes”, afirmou o pescador aposentado José Gomes de Menezes.

Os demais pescadores afirmaram que a mudança traria benefícios para todos. Um deles disse que foi comandante de um navio de pesca industrial e chegou a estudar na Espanha, aprendendo muito sobre o assunto. “O espinhel é um náilon comprido que vai a 50 milhas náuticas e, ao longo da linha pode ter mil anzóis. É isso que representa o perigo”, explicou. “Muitas tartarugas morreram quando eu ainda pescava, e foram 12 anos. Esse novo modelo evita as mortes e não atrapalha a pescaria”, garantiu.

Anzol circular

É mais largo, mais fechado, mais redondo do que o convencional. O detalhe mais importante é que a parte do gancho fica para dentro. Caso a tartaruga morda, o anzol não vai espetar a boca ou o esôfago. Assim, há mais chance de retirar o anzol sem causar ferimento, segundo informou a bióloga Rita Mascarenhas.

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