quarta, 17 de julho de 2019
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Manguezais são ameaçados por poluição e degradação do homem

Aline Martins / 13 de julho de 2019
Foto: Assuero Lima
O mangue, considerado um ecossistema costeiro de transição entre os ambientes terrestre e marinho (água doce e salgada) e característico de regiões tropicais e subtropicais, sofre com as fortes pressões das atividades antrópicas. A poluição, a supressão com aterro, a retirada da vegetação pela especulação imobiliária e a instalação de empreendimentos comerciais/industriais/agrícolas como a carcinicultura/piscicultura, no estuário do Rio Paraíba, por exemplo, são alguns dos principais problemas recorrentes na Região Metropolitana de João Pessoa. Pela sua importância da vida marinha, a fauna também está ameaçada.

No Rio Jaguaribe, na parte que passa no bairro dos Ipês, na Capital, os resíduos domésticos, que deveriam ter tido um destino correto, acabaram parando nas margens do manancial. Nesse local é perceptível a presença de colchões, garrafas de plástico e isopor. Falta educação ambiental por parte da população, mas também ações efetivas do poder público. O que se observa é que após a dragagem do rio, o material retirado em vez de ser recolhido, acaba sendo abandonado nas margens, prejudicando o desenvolvimento das matas ciliares que são responsáveis pela proteção dos rios. Quando a chuva aparece, todo o lixo retirado retorna para as águas. “Esse lixo deveria ser colocado para reciclar. A gente aproveita tudo, o plástico e o isopor, por exemplo, podem ser usado no artesanato. Eu como artesão sei como é importante e sem contar que não estaria indo para os nossos rios”, comentou a artesã Lucila Pereira Goes.

No entorno de rios e mangues há inúmeras moradias subnormais, revelando a ocupação sem planejamento da população e ausência de fiscalização por parte do poder público. O mestre em Geografia, especialista em Análise Ambiental e professor do Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Rogério Silva Bezerra, informou que, embora as atividades habitacionais agridam os manguezais com resíduos e outras situações existe algo mais grave. “A maior ameaça é a supressão com aterro e retirada da vegetação pela especulação imobiliária e construção de grandes objetos como fazendas de camarão, armazéns e instalação de grandes empreendimentos industriais/comercial. A recepção de efluente (esgoto) e resíduos também é um grave problema, particularmente para os humanos, por conta da contaminação com metais pesados e patógenos. Mas esses últimos impactos são recuperáveis, já a supressão é bem mais complicada de desfazer”, afirmou.

Nas cidades que compõem a Grande João Pessoa, o mestre em Geografia informou que os manguezais recebem o impacto de parte das atividades realizadas na área litorânea. “Isso muda bastante no tempo e no espaço. Diria que a falta de tratamento do esgoto da Região Metropolitana liberado nos rios locais, a especulação imobiliária e a instalação de empreendimentos comerciais/industriais/agrícolas (carcinicultura/piscicultura) no estuário do Rio Paraíba, são os problemas principais”, frisou. Quanto à qualidade das águas, o especialista destacou outras gravidades: esgoto bruto, em especial das indústrias; depósitos de combustíveis; e resíduos sólidos lançados nos rios que encalham nos manguezais e ilhas.

Para o professor, há inúmeros impactos causados nos manguezais. “Há áreas mais rurais em que as fazendas de camarão/peixe são o maior problema. Estas fazendas estão localizadas em Cabedelo, Santa Rita e Lucena. A supressão do mangue ou seu uso para habitação e empreendimentos econômicos ocorre de Santa Rita a Cabedelo. Em Cabedelo o que tenho visto é um avanço assombroso dos impactos. Muitas atividades econômicas novas surgindo e grande quantidade de esgoto e resíduos que escoam de toda metropolitana e se depositam na desembocadura do Rio Paraíba. O crescimento econômico da Região Metropolitana tem multiplicado os impactos em Cabedelo. Isso está colocando em ameaça o rico patrimônio ambiental do município”, revelou.

De acordo com o mestre em Geografia, a supressão de vegetação e de áreas, com aterramento e/ou construção de grandes empreendimentos são impactos graves nos manguezais. “Essas ações que são mais ‘definitivas’ eliminam toda fauna e flora. Têm um impacto mais profundo, mas a contaminação permanente com patógenos, metais pesados e outros resíduos, podem se tornar um grave problema dependendo do tipo de microrganismo que se espalhar e do nível de acúmulo e do tipo de substância, etc. Não sabemos ainda qual é o nível de saturação de esgoto que o manguezal e todo estuário é capaz de suportar, ou seja, quando de esgoto pode depurar sem se asfixiar o ecossistema”, afirmou, destacando que para os humanos o problema se torna mais grave, pois os ambientes ficam impróprios para as atividades e o contato. As populações ribeirinhas (pescadores, marisqueiras, etc.) sofrem com a contaminação de seus ambientes de trabalho e vida.

Importância do manguezal para o meio ambiente

De acordo com o mestre em Geografia, o mangue é considerado o berçário da vida marinha. “É uma zona de contato e depósito entre o continente e o oceano, por isso, é um local de grande diversidade e bastante rico em nutrientes. Após os processos de urbanização, a concentração populacional no litoral brasileiro e a ausência de políticas de saneamento e tratamento de esgoto os manguezais e todo o estuário passaram a cumprir também a função de depurador do esgoto e receptor de resíduos sólidos metropolitanos, com impactos preocupantes nas áreas”, comentou.

Comprometimento da fauna nos manguezais

Em relação à poluição e aos riscos para os animais, Rogério Silva Bezerra destacou que nos últimos anos houve maior visibilidade dos problemas causados pelo plástico acumulado e no caso na Paraíba, na desembocadura do Rio Paraíba. “Peixes e outros animais maiores como tartarugas e botos confundem pedaços do plástico com alimento e acabam morrendo esse material acumulado em seu organismo. No manguezal, o esgoto, em geral, serve como nutrição e por vezes aumenta as populações, já que a disponibilidade de alimento também aumentou. Mas quando tratamos de materiais pesados como combustíveis - como os que são depositados em Cabedelo, quando chegam a natureza provocam morte e desaparecimento de caranguejos e demais espécies. Isso já foi registrado em lagoas e áreas próximas a manguezais próximas ao Porto, por exemplo”, revelou. Rogério Silva Bezerra é um dos pesquisadores que trabalham com as questões ambientais e relacionadas aos manguezais no Estado.

Areia é inimiga do manguezal, diz engenheiro

Para o engenheiro civil Antônio Augusto de Almeida, os principais problemas recorrentes nos mangues são os resíduos sólidos, o assoreamento e as moradias construídas no entorno. “A areia é a inimiga número um do mangue. Teve areia no mangue, ele deixa de ser mangue porque muitos animais têm como habitat deles aquela lama lisa. Aquela lama de matéria orgânica finíssima e se começa a chegar areia, cobrir aquilo, então, digamos assim, isso deteriora totalmente o habitat da maioria dos indivíduos do manguezal”, afirmou, destacando que em João Pessoa houve uma redução deve problema na última década por conta da pavimentação de ruas, enquanto nos municípios vizinhos ainda sofrem com ruas desreguladas e sem saneamento, facilitando o escoamento para os rios. “No riacho, como é o caso do Rio do Meio, em Bayeux, carreia uma quantidade enorme de areia, material que assoreia o rio e o riacho”, frisou.

Fala-destaque: Rogério Silva Bezerra – professor e mestre em Geografia – fala sobre possíveis soluções

“Acredito que as saídas são já bastante conhecidas: maior regulação no licenciamento ambiental e planejamento do uso dos espaços urbanos; precisamos de um gigantesco investimento em tratamento de esgoto e lixo, para limpar nossos rios e permitir uma zona estuarina também limpa; e investimento em políticas de habitação e trabalho para as populações de baixa renda que ocupam, muitas vezes por falta de opção, as margens dos rios paraibanos”

Cagepa diz que as residências precisam ter fossas sépticas

Em relação aos resíduos domésticos que vão parar nos rios e consequentemente no mangue, a Companhia de Água e Esgoto da Paraíba (Cagepa) informou, por meio da assessoria de imprensa, que nesses casos específicos, por conta das residências não estarem interligadas com a rede de esgotos, porque ainda não dispõem de sistema de esgotamento sanitário, “os moradores precisam se utilizar de fossas sépticas. O despejo de dejetos diretamente nos leitos dos rios se caracteriza crime ambiental, que deve ser fiscalizado e, se for o caso, punido pelos órgãos de controle ambiental. Os esgotos coletados pela Cagepa através de suas redes são devidamente tratados e devolvidos ao meio ambiente”, consta a nota.

Semam informou que tem feito ações

Por meio da assessoria de imprensa, a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam) informou que tem o projeto plantio urbano. Neste ano, o órgão deve plantar e distribuir 45 mil mudas de árvores nativas. No ano passado foram plantadas 40 mil mudas. Em 2017, a Secretaria  fez o plantio de 53.760 mudas de árvores nativas em áreas de mata ciliar (perto dos rios), parques e áreas de proteção permanente, praças, canteiros de ruas e avenidas, escolas, Centros de Referência em Educação Infantil (Crei) e condomínios. “No período 2013 a 2016 foram plantadas 123.427 mil mudas. Além das ações de replantio e recuperação de áreas degradadas, a Semam também vem agindo – embora saneamento e esgotamento sejam de responsabilidade do Governo do Estado, da Cagepa – para acabar com o problema dos esgotos por toda a cidade”, informa a nota.

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