sábado, 20 de outubro de 2018
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Nome fundamental do samba, Dona Ivone Lara morre aos 97 anos

André Luiz Maia / 18 de abril de 2018
Foto: GUTO COSTA/ DIVULGAÇÃO
Uma das pedras basilares do samba se foi. Dona Ivone Lara faleceu aos 97 anos, deixando um currículo invejável e contribuição inestimável ao gênero musical que se consagrou nos morros e comunidades cariocas. Não veio do morro, mas também precisou batalhar bastante para alcançar o status de prestígio atual.

Filha do mecânico de bicicletas João e da costureira Emerentina, Yvonne Lara da Costa nasceu no bairro do Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, em família humilde, mas desde sempre ligada à música. Sua mãe tinha uma bela voz e a utilizava ranchos de samba para cantar. O pai também fazia o mesmo, já que era violonista de sete cordas autodidata.

Aos seis anos, já era órfã de pai e mãe, indo assim morar com o tio, que a introduz ao mundo da música definitivamente. Amos depois, enquanto exercia a função de assistente social com especialidade em terapia ocupacional, também arranjava tempo para o samba, consagrando-se na escola de samba Império Serrano.

Por conta do machismo, ela precisou romper barreiras para ter seu talento como compositora reconhecido. Depois de ter muitos de seus sambas assinados por Mestre Fuleiro, seu primo e principal parceiro artístico, veio a oportunidade de integrar a ala de compositores da Império Serrano, feito inédito para uma mulher (confira a trajetória na linha do tempo ao lado). É dela a coautoria de "Os cinco bailes da história do Rio", ao lado de Silas de Oliveira e Bacalhau.

O primeiro registro fonográfico, Sambão 70, viria muitos anos depois, tardio como seu contemporâneo Cartola. A aclamação viria, no entanto, com Samba, Minha Verdade, Samba, Minha Raiz (1978, EMI), considerado um dos mais importantes discos do gênero até hoje.

O sucesso com o grande público, fora do círculo do samba, veio quando Maria Bethânia convida Gal Costa para gravar "Sonho meu", registrado no LP Álibi, de 1978. A composição de Dona Ivone Lara chegou a ganhar o prêmio Sharp de Melhor Música, um privilégio para poucos na música popular brasileira.

Com isso, se tornou uma das compositoras mais requisitadas, tendo suas canções gravadas por artistas como Clara Nunes, Roberto Ribeiro, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paula Toller, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Mariene de Castro, Roberta Sá, Marisa Monte, Dorina, dentre outros.

Em 2015, seu trabalho foi homenageado pelo projeto Sambabook, que reuniu boa parte desses intérpretes e novas adições como Adriana Calcanhotto, Criolo, Diogo Nogueira e Elba Ramalho para cantarem algumas de suas canções. No ano seguinte, o Governo Federal concedeu a ela a maior honraria conferida a um artista, a Ordem do Mérito Cultural, representando o samba como um todo, já que naquele ano o gênero completava 100 anos de existência.

Seus familiares relatam que até o último momento, Dona Ivone Lara se concentrava em registrar novas composições em um caderninho. Estima-se que cerca de 40 músicas inéditas estejam completas, guardadas em sua casa. Sinal de que não deixaremos de ouvir tão cedo o produto da mente imaginativa de um dos ícones da música genuinamente brasileira.

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