quarta, 14 de novembro de 2018
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Limpadores de para-brisas invadem ruas de João Pessoa

Beto Pessoa / 25 de outubro de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Do Centro à Orla de João Pessoa, é possível encontrar limpadores de para-brisas, maior parte homens, de idade variada, que encontraram nos semáforos da cidade um meio de sobrevivência. Muitos costumam ser encarados com maus olhos por quem está dentro dos carros, sobretudo pela abordagem invasiva que espirra a solução de água e detergente sem o consentimento do condutor do veículo.

“A gente se assusta muitas vezes. Nem sempre a gente quer que eles limpem o para-brisa, muitas vezes nem está sujo”, disse a condutora Elisabeth Dantas, 48 anos, que trabalha no Centro de João Pessoa.

Do outro lado do para-brisas, homens que precisam voltar para casa com alguns trocados que garantam a comida na mesa. É o caso de Clércio Caetano, de 28 anos. Há oito anos, ele trabalha em um dos semáforos do Parque Solon de Lucena, no Centro de João Pessoa. Morador de Bayeux, na Grande João Pessoa, ele chega ao seu ponto às 6h. Volta para casa às 15h, onde o esperam esposa e quatro filhos.

“Já trabalhei como assistente de cozinha e serviços gerais. Mas eles não dão emprego para quem não tem estudo, mesmo conhecendo o trabalho, é difícil ter oportunidade. E preciso comer. Tem muita gente que critica, já chegaram até a puxar revólver para mim. Mas não mexo em nada de ninguém, estou aqui trabalhando, infelizmente é o que posso fazer para ganhar dinheiro. Tem muita gente que faz confusão, mas também tem gente boa, que nos ajuda”, disse Clércio Caetano, que estudou até a 2ª série do Ensino Fundamental.

Clércio é um dos mais antigos nos semáforos do Centro de João Pessoa, mas há também quem chegou agora e optou por tirar dali o necessário para não enveredar por outros caminhos. É o caso de Thiago da Silva, 18 anos. Ele também vive na cidade de Bayeux, Grande João Pessoa, e limpa para-brisas há 7 meses no Parque Solon de Lucena. A partir das 6h está no semáforo, volta para casa no final da tarde e à noite cursa o 8º ano do Ensino Fundamental.

O jovem explica que o dia a dia nas ruas nem sempre é fácil, por isso muitas vezes eles adotam estratégias que soam por demais invasivas.

“Às vezes a gente já chega colocando água no para-brisa porque muita gente só dá uns trocados se a gente fizer. Mas é só água e sabão, não vai danificar o carro. Se a pessoa pedir para não colocarmos, não colocamos. Não precisa confusão. A gente está aqui tentando ganhar a vida, enquanto não aparece nada melhor. Próximo ano meu pai está tentando conseguir um emprego para mim no interior. Aí não vou precisar mais lavar carro”, disse Thiago da Silva.

A assessoria de imprensa da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) da Prefeitura de João Pessoa (PMJP) informou que não tem gerência sobre as pessoas que trabalham limpando para-brisas nos semáforos da cidade. A assessoria informou também que não há dados ou estimativas das mesmas.

A reportagem do CORREIO também entrou em contato com a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Humano (Sedh), que também disse não ter gerência ou dados sobre estas pessoas.

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