segunda, 23 de novembro de 2020

João Pessoa
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“Só um milagre salva Campina Grande”

Aline Martins / 02 de setembro de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
“Só um milagre salva campina Grande de um grande colapso de água”, afirmou o presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Arthur Cunha Lima, durante o seminário ‘A Crise Hídrica no Semiárido Paraibano’, aberto ontem (01), no Centro Cultural Ariano Suassuna, na sede do TCE, em João Pessoa. A programação termina hoje e todas as soluções de enfrentamento da crise hídrica na Paraíba apontadas serão colocadas em um relatório e cobradas aos gestores.

Ele disse que, mesmo com garantias de que há recursos para a perfuração de poços, açudagem, carros-pipa e demais possíveis soluções de enfrentamento a seca e até mesmo a conclusão das obras da transposição do Rio São Francisco em dezembro, ainda há dúvidas de onde retirar a água para abastecer essas cidades se não chover até o final do ano.

Tem água, por exemplo, em Gramame/Mamuaba (Litoral) e Areia (Brejo) para a retirada, mas fica a dúvida de como levar e onde guardar. “A obra termina, mas as águas só chegam seis meses depois. E Campina sofrerá um colapso d’água até dezembro, se não chover”, disse.

De acordo com o conselheiro Arthur Cunha Lima, é necessário apontar soluções imediatas porque a crise já existe. Ele ressaltou que, em 2013, durante um evento, técnicos relataram que havia má gestão das águas na Paraíba. “Chegou o Boqueirão a menos de 8% da sua capacidade com todos os agrotóxicos, com toda salinidade da água, com todo o aumento de cidades a serem abastecidas por ela. Chegou num momento que não teve mais o que traçar de metas, é necessário soluções e rápidas”, disse. O presidente do TCE revelou que representantes dos Tribunais de Contas dos Estados do País se reuniram com o presidente do Brasil para cobrar soluções para a seca. “O conselheiro Fábio Túlio cobrou do presidente da República soluções, especialmente para Campina Grande pela falta de água que é o grande calo da Paraíba”, frisou.

A transposição vai aliviar a sede e fixar o homem do campo, mas será necessário esperar como o Rio São Francisco vai reagir diante da retirada da água. Segundo Arthur Cunha Lima há muito que ser feito e disse que se assusta com a perspectiva até o fim deste ano e também da demora que essa água chegará a quem realmente precisa – em torno de seis meses.

Em auditorias realizadas pelo TCE mostram que as margens do rio estão contaminadas por esgotos ao longo do caminho que passam pelas cidades. A localização da Paraíba, por exemplo, por estar assentada em uma rocha cristalina – onde não há significativo acúmulo de água, o clima quente, onde há mais evaporação das águas do que do consumo dela, já são fatores que aceleram o problema hídrico. Até mesmo a perfuração de poços fica impossível, mas garante que de onde for possível tirar água vai cobrar.

Chuva pouca. Nos próximos três meses, de acordo com o pesquisador do Grupo de Mudanças Climáticas do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lincoln Muniz Alves, a previsão é de pouca chuva conforme mostram os estudos.

Para dois pesquisadores que se apresentaram ontem no seminário, ocorre um aumento da temperatura nos últimos anos e consequentemente também o crescimento da quantidade de eventos extremos – longos períodos de seca ou de chuvas intensas nessas regiões. É necessário que as autoridades pensem nas políticas públicas diante desse novo cenário. “Deve considerar esse o aumento da freqüência dos eventos extremos seja ele como estamos discutindo de escassez de chuva como também excesso de chuva porque o Nordeste não é só anos com pouca chuva ou sem chuva, tem anos também com muitas chuvas”, afirmou o pesquisador do Grupo de Mudanças Climáticas do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Lincoln Muniz Alves.

Não há, segundo ele, como precisar com confiabilidade se no próximo será de seca, mas adiantou que estudos mostram que nos próximos três meses chove pouco. “Considerando por si só um período de pouca chuva em todas as regiões principalmente no semiárido. Normalmente nesse período chove com totais abaixo dos 200 mm e as previsões, considerando as características dos oceanos que tem um fator importante na modulação do clima, indica que não deve a ver uma mudança dessas características climatológicas, ou seja, para os próximos três meses deve permanecer ainda esse cenário de pouca chuva em todas as regiões do semiárido do Nordeste”, disse, acrescentando que também tem como dizer o quanto de chuva será necessário para encher todos os reservatórios, pois cada um tem características geográficas, tamanhos e solos diferentes.

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