quinta, 24 de janeiro de 2019
João Pessoa
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População ignora poluição do Sanhauá e consome pescado contaminado

Lucilene Meireles / 21 de julho de 2018
Foto: Assuero Lima
À primeira vista, o Rio Sanhauá, que fica entre os municípios de João Pessoa e Bayeux, na Região Metropolitana da Capital, é de beleza ímpar, com o verde da vegetação espelhado nas águas sob a ponte, cercado por casinhas e barcos de pesca. Mas, olhando de perto, o que parece um cenário paradisíaco clama por socorro. As águas estão poluídas com lixo de toda espécie – embalagens plásticas, peças de veículos, pneus, papelão. Como se isso não bastasse, a população ribeirinha despeja os esgotos diretamente no rio, matando peixes e outras espécies que vivem no ambiente. Um especialista da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) afirmou que existe solução, mas vai demorar décadas para a recuperação. Já para a saúde, as consequências são graves, desde doenças de pele ao risco de desenvolver câncer.

Do alto de seus 90 anos de idade, a aposentada Jovita Soares dos Santos tem o rio como quintal de casa, e é nele que descarta todo o esgoto, junto com as demais famílias que vivem às margens do Sanhauá. Ela lamentou a situação, mas justifica que não tem outra saída. “Quando vim para cá, há 20 anos, havia uma areia branquinha e tinha até placas avisando que era proibido colocar lixo. A gente tomava banho. Parecia uma praia. Hoje, vejo essa imundície e sinto nojo, mas infelizmente, a gente não tem onde ligar o esgoto. O único jeito é jogar no rio”, admitiu a idosa.

Ciente de que a poluição pode afetar a saúde, ela faz o possível para os dois bisnetos ficarem longe de água, mas às vezes, eles escapam, na tentativa de pegar pequenos caranguejos, e acabam tendo contato com a poluição. Um deles desenvolveu alergia e passa por tratamento. Os filhos da dona de casa Andreza Rodrigues, 23, chegam a tomar banho nas águas poluídas. “Quando procuro as crianças, estão lá no rio. A gente sabe que é sujo, que tem lixo e esgoto”, disse ela, que mora no local desde que nasceu. “É uma pena, mas eu acho que não tem jeito de recuperar o rio. Teria que sair todo mundo daqui”, disse.

Antes e depois da poluição

 “Aqui já teve muito peixe, camarão, mas hoje em dia não tem mais. Ainda catam marisco, mas não é mais como antes. A cidade vai crescendo e a poluição aumentando junto. Eu acho que não tem mais jeito”. A declaração é do restaurador de móveis José Fernandes de Oliveira, de 73 anos, que mora ao lado da ponte desde que nasceu.

A opinião dele é a mesma do pescador José Serafim Inácio que, apesar de ter apenas 64 anos, aparenta muito mais idade por conta do longo tempo de exposição ao sol. Ele relatou que tem sérios problemas de pele e acredita que tem relação com o contato com a água. Foram quatro meses internado para fazer um tratamento. Mesmo assim, ainda se arrisca na pesca.

“Eu como o peixe que pego aqui. Tem bagre, tilápia. Não acredito que o peixe absorva polução. Semana passada, peguei quase 50 kg com a cheia da chuva. Dei uma parte, comi outra e o resto, vendi”, contou. Segundo o pescador, quem joga lixo no rio é a população, mas também existem as indústrias. “Já vi restos de produtos das fábricas e até móveis grandes, geladeira, sofá”, acrescentou.

Outro pescador que lamentou a situação foi Carlos Antônio Bento da Silva, de 59 anos. “Isso é um viveiro que está morrendo um pouquinho todo dia”, constatou, olhando para o lixo no mangue, quintal de sua casa.

Especialista prevê décadas para recuperar manancial

“Acho que tem como recuperar, mas o povo tem que se educar”. Sem nenhum conhecimento acadêmico, o vigilante Clóvis Soares, de 59 anos, que mora na beira do rio, acertou em cheio sobre o que é possível fazer para resolver o problema, segundo o professor do Departamento de Sistemática e Ecologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Tarcísio Cordeiro.

“Existe uma forma de recuperar, mas é um trabalho de uma geração para vermos o fundo do rio de novo. Teria que remover a população da área de maré. Enquanto estiverem ali, não tem como recolher esgoto”, observou.

Ele destacou que, além da poluição gerada pela população, tem outros fatores, como as indústrias, postos de combustíveis, lava a jato, residências e, a solução depende de um trabalho maior, colocando equipes na rua, vendo onde e se é possível drenar o esgoto.

“Todas as administrações pisaram na bola. Até pensam em resolver, mas quando vêem o tamanho do serviço, desanimam. Não se resolve numa gestão. São séculos fazendo errado, e não dá para fazer da noite para o dia” - Tarcísio Cordeiro, professor do Departamento de Sistemática e Ecologia da UFPB.


Poluição pode causar câncer

O especialista ressaltou que a poluição do rio traz sérias consequências à saúde da população. “As condições de saúde vão para baixo e as pessoas podem desenvolver um câncer, dependendo da poluição. É uma condição do terceiro mundo. Os produtos dissolvidos ali, como remédios, hormônios que vêm, por exemplo, da urina das mulheres que tomam anticoncepcional, vão para o rio. Meninos e meninas sendo expostos a essas substâncias podem ter consequências”, sentenciou.

Além de tudo isso, a poluição causa outros problemas de saúde como diarreia, infecções e dermatites. “O dia que a gente vai poder olhar o fundo do rio vai demorar. A água hoje tem pouco oxigênio. O rio é vida, é útil para a espécie humana. com a poluição, há menos vida, menos produção. Com a água poluída, não dá para molhar uma horta, quanto mais consumir para comida, banho. Perdeu a serventia”, constatou.

Semam diz que realiza mapeamento das nascentes

A Divisão de Estudos e Pesquisas da Secretaria de Meio Ambiente de João Pessoa (Semam) está fazendo um mapeamento das condições das nascentes de rios que estão no território de João Pessoa. O estudo vai nortear as ações que deverão acontecer.

O trabalho já foi feito na nascente do Rio do Cabelo, no bairro de Mangabeira, com o replantio de árvores nativas e limpeza. O trabalho acontece em parceria com outras secretarias do município, como a Emlur.

Em relação a derramamento de esgotos, a Semam informou que a Divisão de Fiscalização tem uma ação cotidiana, embora não possua estrutura, como equipamentos e homens para mapear onde tem esgoto clandestino, que seria papel da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra).

A Semam esclareceu que pode notificar e multar quando a Seinfra constata que existem pontos de ligação clandestina. No caso de esgoto lançado diretamente no rio, a Semam não costuma receber denúncia, conforme a assessoria de comunicação.

Sudema vai enviar técnicos

A Superintendência de Administração do Meio Ambiente (Sudema) informou que tem um trabalho de educação ambiental em várias localidades, mas se comprometeu a enviar técnicos até a localidade para verificar a situação e definir as providências que podem ser tomadas.

Cagepa

A Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa) informou que em áreas de ocupação irregular, não tem como regularizar a rede de esgotamento sanitário. Mesmo assim, vai verificar se há rede de esgoto na área.

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