terça, 26 de janeiro de 2021

João Pessoa
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Horta urbana pode substituir o mato no bairro dos Bancários

Katiana Ramos / 29 de janeiro de 2017
Foto: Nalva Figueiredo
O que há dois anos era um espaço sem serventia, sujeito a ser mais um ‘depósito’ improvisado para lixo e abrigo para insetos peçonhentos, virou terra fértil para plantação de tomate, abóbora e hortaliças diversas. A ideia da horta comunitária foi iniciada por um grupo de moradores da Rua Bancário Waldemar Mesquita Accioly, conhecida como ‘Três Ruas’, no bairro dos Bancários, em João Pessoa. Contudo, recentemente, o sistema de irrigação da horta foi roubado e os moradores terão que recomeçar o projeto.

A iniciativa realizada pelos moradores dos Bancários é um exemplo de que os terrenos públicos poderiam abrigar hortas comunitárias e beneficiar a população, como acontece em alguns países da Europa e também no Brasil, a exemplo de um projeto no município de Sete Lagoas, em Minas Gerais, que existe há mais de 30 anos.

Pós-doutor em Arquitetura e Urbanismo e professor da área na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Geovany Silva aponta caminhos para transformar terrenos inutilizados, sejam públicos ou particulares, em espaços para o cultivo de hortas urbanas. Segundo ele, o envolvimento da comunidade em projetos deste tipo poderia ocorrer nas escolas, associação de moradores, entidades beneficentes, entre outras organizações que atuam no bem estar comum.

“O incentivo pode acontecer de diversas formas, desde a capacitação de atores ou gestores de hortas comunitárias, insumos e equipamentos, matéria-prima, e acompanhamento das ações. O segundo passo é a organização da comercialização e uso do produto, que podem contar com uma rede de mercados, feiras, ou mesmo instituições públicas como compradores ou facilitadores para o mercado produtivo”, sugeriu o pesquisador.

Geovany Silva lembra que as hortas podem ser implantadas em quintais, varandas e telhados, os ‘tetos verdes’.

Falta de apoio é um obstáculo  

Desde que decidiram começar a horta nas ‘Três Ruas’, o participantes do PlantAção não tiveram incentivo do poder público e retiram do próprio bolso a verba para manter o projeto.

A arquiteta e pesquisadora do tema, Lídia Pereira, lembrou que se houvesse apoio dos órgãos governamentais a projetos desse tipo, a comunidade interessada poderia ter uma assistência técnica mais adequada para o manejo do solo e das culturas.

A professora universitária acrescentou ainda que as hortas urbanas proporcionam melhor qualidade de vida para os moradores do entorno onde foram implantadas, além de incentivar o reaproveitamento de resíduos orgânicos.

“O cultivo em áreas urbanas permite a utilização de resíduos em forma de compostagem, como uma alternativa promissora para a disposição destes, possibilita a ampliação da permeabilidade do solo, contribuí para a redução dos volumes de escoamento por meio de infiltração de águas pluviais e promove um maior contato do homem com a natureza”, destacou.

Lei existe há 23 anos. A lei municipal Nº7.469 autoriza a Prefeitura da capital a firmar um contrato, na modalidade de comodato, com os proprietários de terrenos que queiram disponibilizar o espaço para a implantação de hortas comunitárias, por parte da prefeitura. A norma prevê, inclusive, um desconto de 50% no Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) para os proprietários dos terrenos. No entanto, a iniciativa permanece apenas no papel.



Terapia contra o estresse

A dona de casa Dinalva Carneiro precisava de um motivo para sair de casa para se distrair e ocupar o tempo livre. Já o estudante Jonathan Soares buscava conhecimento para cuidar melhor das plantas que mantem no quintal. Os dois estão entre os dez usuários da permacultura, uma das atividades holísticas realizadas no Centro de Práticas Integrativas Canto da Harmonia, no Valentina Figueiredo, em João Pessoa.

O contato direto com a natureza no cultivo de uma horta comunitária é a ferramenta terapêutica para combater o estresse e outros problemas que interferem na saúde emocional dos adeptos à permacultura. “O envolvimento com a natureza, trabalhando com a terra e exercitando a paciência com o cuidar das plantas, estão entre os objetivos da permacultura. Tudo isso, visando o bem estar como um todo dos usuários. Além disso, também há uma melhora nas relações sociais de grupo”, explicou o coordenador de permacultura do Centro, Paulo Ricardo Caetano.

Há apenas três semanas na terapia, Dinalva Carneiro já sente os benefícios de colocar as mãos e os pés na terra fresca. “Está me ajudando a ser mais ativa, ter calma. Sempre gostei muito de jardinagem, tenho planta em casa e, elas passam uma energia muito boa pra gente”, revelou.

Já Jonathan Soares, que estuda Ciências Biológicas, vê na permacultura mais uma oportunidade de aprendizado e complementação para a área que escolheu atuar. “Tenho milho, acerola, feijão no meu quintal. É muito bom aprender as técnicas que a gente vê aqui, saber reutilizar material reciclável e também os orgânicos”, acrescentou o jovem.

Permacultura

A terapia holística de permacultura acontece no Centro de Práticas Integrativas do Valentina e também no Centro Equilíbrio do Ser, no bairro dos Bancários. Para participar, os usuários precisam ir em um dos locais, passar por uma triagem com um psicólogo e ser encaminhado para a prática, que acontece uma vez por semana. No caso do Centro do Valentina, os usuários e a comunidade podem entregar garrafas pets e papelão no local e receber mudas de plantas.

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