sábado, 21 de julho de 2018
João Pessoa
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Casa do Artesão Paraibano fio revitalizada, mas está abandonada

Aline Martins / 07 de junho de 2018
Foto: Assuero Lima
Cerca de R$ 880 mil foram investidos pelo Governo do Estado na revitalização da Casa do Artesão Paraibano, que fica localizada na Rua Maciel Pinheiro, no bairro do Varadouro, em João Pessoa. No entanto, passados quase quatro anos após a inauguração (4 de julho de 2014) a Casa nunca foi entregue aos artesãos e hoje está em uma situação deplorável – infiltrações, sujeira, portas e janelas quebradas, telhado tomado por cupins e mato. Quem olha para o local lamenta o dinheiro público investido jogado na lata do lixo. O que falta de cuidado e manutenção com o prédio sobra de tristeza em quem convive do artesanato.

“Queremos vê a Casa viva porque por dentro ela está morta”, “A Casa está agonizando”. Essas são algumas lamentações de artesãos ouvidos pela reportagem do Jornal Correio da Paraíba. No útlimo mês de abril, quatro boxes na área externa foram arrombados.

Dentro da Casa do Artesão Paraibano há salas para administração e exposição, hall de convivência, além de 16 boxes para artesãos, mas que nunca foram ocupados. Na área externa há 44 boxes, mas apenas alguns artesãos abrem os espaços, porque ainda não desistiram do artesanato.

Há 35 anos a artesã Maria Adelaide Cavalcanti, 65 anos, ocupa um box na Casa e presenciou inúmeras transformações. “Vi do sucesso ao fracasso. Tudo isso por conta da gestão e da direção que não valoriza. A gente não tem o apoio de nenhuma das partes”, reclamou, comentando que a reforma do local era necessária, porém foi feita inadequadamente.

Em abril deste ano, a artesã teve o boxe arrombado e várias peças furtadas. “Há mais de um ano que não abro. Fiquei desestimulada. Hoje faço as peças em casa e só venho aqui para vê como estão as coisas e queimar as peças”, ressaltou. Ela reclamou de perseguição. “Faz 18 edições que vou a Feneart, em Pernambuco, só que esse ano é a primeira vez que fico de fora só porque reclamei dos problemas da Casa”, lamentou.

A artesã apontou falhas na reforma da Casa do Artesão. “Eles modificaram tudo. Onde não tinha banheiro eles colocaram, onde não tinha cantina eles botaram. Tinha três sótãos e retiraram todos. Colocaram um telhado inadequado. Quando chove, a água invade. As portas foram maquiadas. Fizeram arranjos e o cupim comeu tudo”, frisou Maria Adelaide.

Essa triste realidade também é comentada pelo artesão João Fernandes da Silva, 55 anos, que nos últimos 16 anos dedica a vida ao artesanato. “Fico triste. Choro todas as vezes que olho como está a Casa. Antigamente aqui era cheio de turista. Abria de manhã e só fechava à noite. Era tanto turista que a gente nem conseguia passar aqui. Hoje não chega um ônibus ou van com turista. Estamos abandonados”, relatou.

Os artesãos também reclamaram da ausência da diretora da Casa. “Toda semana ela quebra um membro do corpo ou morre alguém da família e nunca aprece aqui”, falou Maria Adelaide.

O presidente da Associação dos Trabalhadores em Artesanato da Casa do Artesão Paraibano, Arnaldo Pereira da Silva, lamentou o abandono do local por parte do Governo do Estado, através da Secretaria do Turismo e Desenvolvimento Econômico. Ele disse que a diretora da Casa diz que quer fazer algo pelo local, mas que não tem aval da Secretaria. No entanto, como não podem contar com o apoio da gestão, os próprios artesãos se reuniram para fazer a manutenção do local.

“Estamos pintando os boxes, fazendo uns desenhos com os pontos turísticos da cidade, vamos organizar o estacionamento apenas para artesãos, clientes e turistas porque há muitas pessoas que ficam utilizando o local como estacionamento público”, disse. Arnaldo contou ainda a triste realidade de vivida pelos artesãos da Casa, pois falta a valorização do artesanato. Antigamente o local era cheio de turistas e hoje quase não se vê nenhum.

Diretora defende investimento

Segundo a diretora da Casa do Artesão Paraibano, Monjana Gonçalves, o local não pode funcionar para o artesanato. “Ela funciona apenas a diretoria. Os problemas causados pelas chuvas, não é da ordem da Secretaria de Estado, não é culpa do governo. O governo investiu aqui quase R$ 900 mil”, disse, destacando que as águas das chuvas que escorrem das ruas próximas deságuam no local. No entanto, os próprios artesãos relataram que o abandono ocorre há anos, independente de período chuvoso.

Para a diretora, o dinheiro usado na reforma não foi desperdiçado. “O governo do Estado fez o papel bem feito porque há 30 anos é que realmente a Casa foi abandonada”, afirmou, acrescentando que é sozinha para dar conta da função de diretoria.

“Eu não sou onipotente, onisciente e tão pouco onipresente. Isso é função divina. Eu não posso estar aqui 24 horas com os problemas rolando”, afirmou.

Monjana disse que está de licença porque torceu o pé. “São 20 dias de fisioterapia e aí eu faço e venho para cá. Mas eu não admito que pessoas malignas que queiram inflamar. A gente precisa ter um coração voltado para o bem. A Casa tem problema, tem. O Brasil tem problema, tem, mas a gente precisa procurar pessoas boas, de princípios morais e de boa formação para ajudar. Só que tem pessoas que não querem ajudar”, comentou a diretora ao ser questionada sobre as reclamações dos artesãos.

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