sábado, 08 de maio de 2021

João Pessoa
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Bicicleta libertou 11 mil do combustível durante greve

Beto Pessoa / 03 de junho de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
A técnica administrativa Shara Medeiros tem 38 anos. Semana passada, durante a greve dos caminhoneiros, enquanto boa parte da população sofria com a falta de combustível e transporte público, ela ia e vinha do trabalho sem maiores complicações. Isso porque há dois anos ela faz parte das 11 mil pessoas de João Pessoa que utilizam a bicicleta como meio de transporte.

Todos os dias, Shara percorre 20 quilômetros (km) sobre duas rodas, saindo do bairro do José Américo, Zona  Sul de João Pessoa, para o Cabo Branco, Zona Leste da cidade. Ela optou por este transporte pela inviabilidade de ônibus na região que mora. Bom para a saúde, melhor ainda para o bolso, já que não precisa se preocupar com o crescente preço da gasolina.

“A greve dos caminhoneiros não me afetou em nada, foi até bom porque eram menos carros nas ruas. Decidi usar a bicicleta porque eu precisaria pegar dois ônibus para ir trabalhar: um do José Américo para o Terminal de Integração, no Varadouro, outro de lá para o Cabo Branco. Levaria mais de 1 hora num trajeto que, de bicicleta, levo em média 30 minutos”, disse.

Shara sai de casa por volta das 7h30. Pega a ciclovia da Avenida Hilton Souto Maior em direção a ciclorrota do bairro de Quadramares, de onde segue para o Cabo Branco. O trajeto nem sempre é tranquilo, não somente pelas falhas na infraestrutura viária, mas também pela falta de educação dos condutores de veículos automotores.

Mobilidade está na lei

A Lei 12.587/2012 diz que municípios acima de 20 mil habitantes devem elaborar um Plano de Mobilidade Urbana dentro do seu plano diretor. Isso quer dizer que, do ponto de vista legal, já existem instrumentos que desafoguem as estradas. O que falta mesmo são ações políticas eficazes.

Doutoranda em Planejamento Urbano pela Eindhoven University of Technology, na Holanda, com mestrado em Engenharia Urbana pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a professora e pesquisadora Aída Pontes disse que os números que envolvem a mobilidade urbana de João Pessoa e Campina Grande não são nada amigáveis para os que fogem dos veículos automotores.

“Hoje 70% das vias públicas são destinadas aos carros, mas só 30% da população está nestes carros. A Lei de Mobilidade Urbana é clara em relação a isso: pedestres e ciclistas precisam ser priorizados, mas se foi criada a cultura que as ruas pertencem aos carros. Isso precisa ser mudado”, destacou a pesquisadora.

Criação e manutenção de ciclovias seriam políticas importantes para mudar este cenário, mas é preciso mais, mostrando que o carro não pode reinar em soberano nas vias públicas, explica Aída.

“Você veja que hoje em dia, quem resolve se deslocar de bicicleta, sequer consegue encontrar onde estacionar. Enquanto isso, o preço da Zona Azul muitas vezes é mais barato que o preço da passagem de ônibus. Se o preço da Zona Azul acompanhasse o das passagens de ônibus, os motoristas iam sentir como é a vida de quem pega ônibus”, disse a pesquisadora, que destacou ainda a necessidade de novas pedagogias urbanas.

“Falta educação de base sobre mobilidade urbana. Na Holanda, as crianças aprendem na escola a andar de bicicleta, a responsabilidade no trânsito. No Brasil, se criamos uma faixa exclusiva para ônibus, como aconteceu na Avenida Pedro II, temos condutores de veículos indignados. Só que, geralmente o carro só carrega uma pessoa dentro, enquanto os ônibus carregam dezenas”, disse.

Neste desequilíbrio, é essencial prioridades políticas que respondam à legislação vigente. “As prefeituras cansam a gente, mas só insistindo se consegue promover mudanças”.

Somente JP e CG investem em alternativas

Dos 10 maiores municípios paraibanos, somente dois estão investindo na construção de ciclovias e ciclofaixas, aponta a pesquisadora Aída Pontes,  que, além de professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Unifacisa, é presidente do Laboratório de Rua (LabRua) e conselheira do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/PB).

A cidade de João Pessoa tem atualmente 54km de ciclovias, segundo informações da Semob-JP, extensão maior que a de cidades com população mais elevada, como Recife, Maceió e São Luís, segundo dados da pesquisa ‘Infraestrutura de Circulação’, organizada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike).

O volume, entretanto, está aquém das necessidades da população, explica a pesquisadora Aída Pontes. “Muitas cidades no mundo todo estão percebendo a necessidade de se priorizar pedestres e ciclistas. Londres cobra pedágio dos motoristas para circularem no Centro da cidade. Amsterdã tem políticas de incentivo ao uso de bicicletas em relação aos carros. Os gestores têm que perceber isso”, destacou.

Um dos mais importantes equipamentos de João Pessoa fica na Avenida Beira-Rio, onde há 5,28km de ciclovias ligando a região da praia ao Centro. O local recebeu R$ 6,7 milhões em investimentos.

Em Campina Grande, segundo a pesquisadora do LabRua, são 11km de ciclovias, Em resposta a reportagem, a Prefeitura Municipal informou que há 18 quilômetros de ciclofaixas na cidade. Ainda existe um projeto para que mais 20 quilômetros sejam colocados a disposição da população, mas não há previsão de quando serão instaladas.

As ciclovias estão na rua Gasparino Barreto, na Avenida Juscelino Kubitschek, no Cruzeiro; rua Senador Argemiro Figueiredo, no Distrito Industrial, e Açude Velho, no Centro.

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