sexta, 19 de julho de 2019
João Pessoa
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Ambulantes protestam contra ação da Sedurb na Lagoa

Aline Martins/Katiana Ramos / 24 de abril de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
Pelo menos 160 ambulantes que vendem frutas e verduras no entorno do Parque da Lagoa, no Centro de João Pessoa, tiveram os carrinhos recolhidos no início da manhã dessa terça-feira (23) e foram impedidos de se instalar nas vias públicas. Por meio de uma ação pontual, as equipes da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb) identificaram que esses ambulantes estavam trabalhando para comerciantes que possuem boxes no Mercado Central.

De acordo com o secretário da Sedurb, Zennedy Bezerra, um dos galpões do Mercado Central estava servindo apenas como depósito para guardar os carrinhos que os ambulantes utilizavam para vender frutas nas ruas do Centro da cidade. “Transformaram simplesmente o galpão em um espaço de depósito. No galpão 1 praticamente todos os boxes estão fechados. Isso já foi constatado por mim, pessoalmente. Nesta quarta-feira (24), nós temos 482 ambulantes só no Centro. Desses, 150 são de Bayeux e Santa Rita”, disse.

De acordo com o secretário, os permissionários dos boxes foram notificados e caso não regularizem a situação poderão perder os boxes. O mesmo foi constatado no Centro Comercial de Passagem (CCP), que fica no Parque da Lagoa. Segundo foi apurado pela Sedurb, há situações de aluguel e até de venda de boxes. “O pessoal que está nas ruas já retornou para os boxes. O pessoal que alugou já foi notificado. Estou aguardando o prazo da notificação. Se não retornarem, faremos o processo de retomada desses boxes e discutir com quem mais necessita, inclusive os ambulantes que estão nas ruas e querem trabalhar dignamente”, frisou o secretário, acrescentando que os demais ambulantes devem relocados.

"Começamos a perceber que havia fornecedores terceirizando esse comércio ambulante de forma precária e semi escrava. Ontem (terça-feira) fui ao Mercado e nós retiramos 160 carros. Nossa ação não foi contra os ambulantes, mas contra quem estava nessa situação", falou o secretário da Sedurb, Zennedy Bezerra.

Uma manhã de protesto



O dia dessa terça foi marcado por um protesto realizado por ambulantes que trabalham no Centro de João Pessoa. Logo cedo, algumas vias públicas que dão acesso ao Parque da Lagoa foram bloqueadas com a queima de pneus e o trânsito precisou ser desviado. Por volta das 10h30, dezenas deles ocuparam a Câmara Municipal de Vereadores para solicitar uma audiência com os vereadores. Além disso, os trabalhadores também buscavam apresentar as reivindicações como a devolução dos carrinhos que foram retirados dos boxes do Mercado Central pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb) durante a madrugada, sem a prévia comunicação aos proprietários, até que a Prefeitura Municipal de João Pessoa tome providências do que será feito com os ambulantes.

A ambulante Maria Ivanise Marinho, 58 anos, vende frutas desde os 6 anos de idade no Mercado Central. Ela teve dois carrinhos utilizados para o comércio de jacas levados pela Sedurb-JP durante a ação que ocorreu na madrugada. “Tiraram as mercadorias, arrebentaram as correntes e jogaram tudo no chão. A minha sobrinha e um colega dela foram na minha casa me pegar porque tinham pego meus dois carros que estavam guardados no boxe. Imagine você com hipertensão e diabetes passando por essa situação?”, comentou. Assim como a ambulante, outros relataram essa ação. “A Guarda Municipal foi me empurrando e pegou o meu carro de banana. Eram cinco pessoas contra apenas uma. Não tinha nem como reagir e eles ainda me empurraram”, afirmou o ambulante Alex Soares, 31 anos.

De acordo com Alex Soares disse que há três anos trabalha com a venda de banana. “Eu pago aluguel, sou casado e tenho dois filhos para cuidar. Todo dia eu invisto R$ 250 ou R$ 300 de banana para tirar o meu sustento. Não temos emprego e o jeito é se virar vendendo frutas”, contou.

Já Marilene Dias trabalha com a venda de roupas há três anos. A rua, segundo ela, é a sua única forma de sobrevivência. “Trabalhava como serviços gerais em um shopping da cidade, mas fiquei desempregada. Decidi ir para a rua e vender mercadorias. Vendo para mim. Tenho que pagar aluguel, o local onde ficam as mercadorias e o carrinho para levar. Nós somos trabalhadores e queremos só trabalhar. Pago R$ 300 de aluguel e ainda ajudo uma neta e um filho que está desempregado. É bem difícil essa situação”, relatou Marilene.

Associação reclama que ação surpreendeu vendedores



A presidente da Associação dos Ambulantes de Eventos da Grande João Pessoa (Ameg-JP), Márcia Medeiros, informou que havia uma reunião agendada para a manhã dessa terça , na sede da Sedurb-JP, em Água Fria, com o secretário Zennedy Bezerra, com a Associação e alguns ambulantes, mas a gestão municipal teria agido antes da reunião. Ela explicou que o prazo da recomendação do Ministério Público para que a Prefeitura retirasse os ambulantes da rua teria terminado na segunda-feira, mas nada havia sido decido por parte da Prefeitura. “Não foi declarado nada. A meia-noite o pessoal foi surpreendido com polícia, secretário e Guarda Municipal. Algumas pessoas foram agredidas, levaram alguns carrinhos e quebraram outros. Só ficaram as correntes. Jogaram as mercadorias no chão. Ficamos muitos surpreso com essa atitude porque era uma coisa que já vinha sendo dialogada. A gente achava que iria ser organizado de alguma outra forma e não assim. Estamos surpresos, porém unidos”, frisou.

Márcia Medeiros explicou que a Ameg-JP já deu para a Prefeitura algumas sugestões de onde os ambulantes poderiam ficar, mas nada ficou acordado. “Já levamos para a Prefeitura as nossas discussões, as nossas estratégias como a Rua Santos Dumont, que a gente vem discutindo como uma grande oportunidade para os ambulantes, ou uma padronização dos ambulantes nessas calçadas maiores ou mesmo ficar nesse Shopping Lagoa, pois vemos como uma boa opção para as pessoas que vendem roupas e acessórios. Já na questão dos meninos que vendem frutas, conversamos com o secretário, de que eles poderiam ficar em algumas esquinas da cidade, pensamos na Rua Treze de Maio (ao lado da Caixa), por exemplo. Sabemos que da calçada do Hiper até a Cattan não comporta frutas e verduras e já até tínhamos discutido isso com o nosso povo, mas a Prefeitura tinha deixado tudo muito livre e por isso as coisas tomaram esse rumo”, afirmou.

Ainda de acordo com a presidente da Associação, a Sedurb-JP levou dois caminhões cheios de carrinhos utilizados para a venda de frutas.

De acordo com Márcia Medeiros, devido a ação da Prefeitura, os ambulantes desistiram de participar da reunião agendada na manhã de ontem. Em seguida, os ambulantes seguiram em caminhada até a Câmara de Vereadores de João Pessoa.

Segundo o vice-presidente da Ameg-JP, Josemar Muniz, a ideia, na Câmara, era conversar com alguns vereadores para falar as reivindicações da categoria.

482 é o número de ambulantes que trabalham nas calçadas da área central de João Pessoa, segundo contagem realizada pela Secretaria de Desenvolvimento Urbano da Capital.

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