domingo, 25 de outubro de 2020

Cidades
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Internet e empoderamento mudam ‘cara’ da prostituição

Rammom Monte / 02 de junho de 2017
Foto: Nalva Figueiredo
Considerada uma das profissões mais antigas do mundo, a prostituição ainda é bastante vigente nos dias atuais e vai se remodelando de acordo com as mudanças na sociedade. Nesta sexta-feira (2), comemora-se o Dia Internacional das Prostitutas. Tendo que lidar com preconceitos e insegurança, as profissionais do sexo vêm reformulando a forma de trabalhar e como se apresentam para a sociedade. Para algumas, a ‘vergonha’ já foi deixada de lado e hoje, o exercício é motivo de orgulho. Outras, ainda preferem o anonimato e têm na internet uma grande aliada neste processo.

Uma das mudanças notadas na profissão foi a diminuição no número de casas do ramo, os conhecidos cabarés. Locais notadamente conhecidos pelos seus bordeis, as ruas da Areia e Maciel Pinheiro, em João Pessoa, hoje abrigaram poucos estabelecimentos do gênero. Segundo a coordenadora geral da Associação das Prostitutas da Paraíba (Apros), Luza Maria, esta ligação pode ter a ver com o empoderamento das profissionais do sexo.

“Eu não sei exatamente o porquê (do número de cabarés ter diminuído). Naquele tempo existia muita coisa. Quando a gente começou em 2001, a gente fazia um trabalho na Grande João Pessoa em quase 50 casas, hoje a gente tem 20 e poucas. E nestas casas, a maioria as meninas moravam dentro das casas, o chamado cabaré. Se não tem mulher morando na casa, é um ponto de encontro. E hoje a gente vê que tem poucas casas e estas poucas, as mulheres não moram. As meninas querem autonomia, liberdade, elas não querem ficar presas em uma casa onde o dono diz se ela pode sair ou não. A maioria vem de outros estados ou municípios, chega aqui aluga uma casa, se divide, e vão trabalhar. Algumas por telefone, internet, outras em casas, avenidas, casas. Acabou esta concentração. Algum tempo atrás a gente nem via direito mulheres nas ruas, hoje a gente vê que algumas praças e avenidas estão ocupadas por elas. Estão se mostrando mais. Você estando na rua, você tem liberdade. É empoderamento, ter conhecimento, você saber que tem o direito de ir e vir, sair com quem você quiser, prestar o serviço que você quiser. Isto é empoderamento mesmo, elas estão mais decididas”, explicou.

Apesar da auto-aceitação de algumas, o preconceito ainda é muito forte com as prostitutas. Segundo Luza, isto se reflete até no fato de não se assumir profissional do sexo.

“Primeiro, a nossa maior dificuldade é a identidade. A gente vê que a maioria das prostitutas não se apresenta como profissional do sexo e isso já é uma resistência. Para a gente organizar um movimento para a gente lutar, tem que está organizada e nem todas se unem. A gente tem hoje 324 associadas na instituição, nem todas participam das atividades na instituição. As nossas atividades são realizadas dentro das zonas, porque se não, não acontece. Além das prostitutas, a gente sabe que tem a sociedade. Machista, patriarcal, toda esta história, que discrimina e não entende o nosso trabalho como um trabalho e esta é uma dificuldade, porque a maioria das prostitutas têm esta dificuldade de se identificar por conta do preconceito. O preconceito está dentro de nós, a gente ainda não se desligou disto. Infelizmente”, disse.

Há 30 anos no ramo e a frente da Apros desde seu surgimento, em 2001, Luza disse que também passou por esta fase de esconder a sua verdadeira profissão.

“Eu levei muito tempo para me identificar. Até um tempo atrás eu preferia dizer que eu era doméstica, faxineira, qualquer outra profissão, menos prostituta, porque eu tinha vergonha, mas até entender que eu não sou criminosa, que o que eu faço é legal, que eu não estou infringindo a lei. Hoje eu digo em qualquer lugar que eu sou prostituta, e daí? As pessoas têm que me respeitar como cidadã, porque eu sou prostituta mas não deixo de ser cidadã. Eu pago meus impostos como qualquer outra pessoa. E isto, as prostitutas ainda precisam ter este entendimento. É uma dificuldade que a gente vem tendo, mas acreditamos que vamos avançar. Aliás, o movimento no geral, já teve grandes avanços. Muitas conquistas”, relatou.

Meio de vida e sustento para a família

Erimar Moreira da Silva. 51 anos. 35 anos na profissão. Rotina: faz ponto no Pavilhão do Chá, Centro de João Pessoa, de segunda-feira a sábado pela manhã. Tem filhos e mora com um companheiro. Todos sabem da sua profissão. Vergonha? Não. A prostituição é sua forma de se sustentar. Prefere a rua aos cabarés. Sente-se mais livre e segura, além de ser melhor financeiramente. Planeja parar, mas ainda não sabe quando. Sentiu que a internet e as garotas mais novas ‘roubaram’ um pouco de sua clientela, mas garante que ainda há clientes fieis e que preferem uma “coroa”. Sua mensagem: “Para quem tem preconceito, tire. Porque é uma vida gostosa. A gente vive nesta vida, é sofrida, mas a gente tem muita experiência na vida. Para as prostitutas, eu desejo que elas batalhem e vençam na vida”.

 

Jucineire Madalena de Oliveira, 45 anos, sendo 31 na profissão. Rotina: trabalha no Pavilhão do Chá de segunda a sexta-feira, sempre pelas manhãs. Nascida na cidade de Imaculada, Sertão da Paraíba. Começou no ramo após sair de casa depois de ter sido violentada sexualmente pelo seu irmão mais velho. Analfabeta, enxerga na prostituição a forma de “ganhar o seu pão de cada dia”. Vergonha? Também não. Orgulha-se de, mesmo com todas as adversidades, conseguiu se sustentar e criar dois filhos com o dinheiro arrecadado nas ruas. Diz que não tem vocação para cabaré. Prefere as ruas. Começou a estudar e já aprendeu a escrever o próprio nome. Diz que quer se aperfeiçoar cada vez mais. Mensagem: “Para todas nós que somos profissionais do sexo, que use preservativo, porque o negócio está feio. Todas se previnam como eu, tenho 45 anos e nunca fiquei doente”.

Prostitutas de luxo e internet como escudo

De um lado, há aquela prostituição das ruas, dos cabarés, dos Centros das cidades, do rosto exposto. De outro, há outro nicho. As chamadas prostitutas de luxo, ou acompanhantes executivas, como algumas preferem ser chamadas. Anonimato, corpos em forma, preços mais altos e sites como os “pontos de prostituição” são a marca destas segundas.

É o caso de Estefany Jones (nome com qual se apresenta em um site de prostituição). Com 20 anos, a jovem, que prefere não se revelar a verdadeira identidade, entrou no ramo há alguns meses, com o interesse de ganhar dinheiro mais rápido, como ela mesmo diz.

Universitária do curso de Engenharia Ambiental, em uma faculdade particular de João Pessoa, Estefany afirmou que usa o dinheiro como profissional do sexo para poder pagar a faculdade. Segundo ela, assim que terminar o curso, deixará a prostituição de lado. Ela afirma que a família não sabe o seu exercício, mas garante que não teria problema caso fosse “descoberta”.

Estefany disse que foi ela mesma quem procurou o site em busca do emprego. O seu programa custa R$ 200 por duas horas e ela não trabalha aos domingos. Não quis revelar o quanto ganha por mês.

Segundo ela, se não fosse a internet, ela não estaria no ramo, já que conta com o anonimato do meio virtual. Não se diz orgulhosa, mas afirma que também não é triste. Se por um lado ela tem o anonimato da rede, por outro ela tem que conviver com a insegurança, já que não sabe se o suposto cliente poderá fazer algum mal a ela. “Simplesmente confio no cliente”, diz.

Apesar de não querer se identificar e assumir a sua profissão, Estefany deixou uma mensagem para o Dia Internacional das Prostitutas: “Eu queria que o mundo abrisse mais a cabeça, a mente, porque nem tudo é tão errado quanto parece”.

Associação cuida dos interesses das prostitutas

Fundada em 2001, a Apros tem sede no Centro de João Pessoa e faz um trabalho interessante com as prostitutas da Paraíba. Capitaneada por Luza Maria, a instituição fornece cursos, oficinas, testes rápidos contra o HIV, entre outras ações. Na semana que se comemora o Dia Internacional das Prostitutas, a associação promoveu alguns cursos, como um de capacitação

“A ideia é empoderar as prostitutas para ter conhecimento dos seus direitos. A gente realiza esta atividade na Grande João Pessoa e também em Mamanguape, Sapé e Itabaiana. E outras ações também, como oficinas, teatro, rodas de conversa, e em outros municípios, Patos, Cajazeiras e Campina Grande”, explicou Luza.

Nesta sexta-feira (2) e nos dias e anos que se seguirão, as ‘Luzas, ‘Erimares’, ‘Jucineires’, ‘Marias’, ‘Estefanys’ e ‘Genis’ possam ser mais respeitadas e, parodiando Chico Buarque, "que se saiba que elas não são feitas para apanhar".

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