sábado, 20 de julho de 2019
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Imóveis tombados sofrem com ação do tempo em JP

Katiana Ramos / 26 de maio de 2019
Foto: Nalva Figueiredo
Casarões que são registros vivos das transformações urbanas de João Pessoa, mas que estão esquecidos e pouco a pouco se degradam com a ação do tempo. Assim são os imóveis localizados na Rua das Trincheiras e Avenida João Machado, que ainda integram o perímetro de delimitação do Centro Histórico da Capital. Poucos são os que ainda possuem moradores e mais raro ainda é encontrar uma unidade preservada.

Com a degradação dos casarões, morre a cada dia também a memória do crescimento da Capital paraibana rumo a zona Sul da cidade. De acordo com o arquiteto e superintendente do Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Paraíba, Raglan Gondim, a Rua das Trincheiras simboliza as primeiras manifestações de bairros populares na expansão urbana da Capital, inclusive com relação ao acesso em direção a Pernambuco.

Mesmo em meio ao cinza do asfalto e aos barulhos causados pelo fluxo intenso de veículos, as casas ainda chamam a atenção de quem passa pelas Trincheiras e pela Avenida João Machado, como Miguel Cordeiro, que trabalha como caseiro em um dos imóveis. Morando e trabalhando em um dos poucos casarões da Rua das Trincheiras ainda bem conservados, ele relata a tristeza de ver outras dezenas de imóveis em estado de abandono. “É muito triste essa degradação porque a gente sabe que aqui era muito bonito no passado. Agora, eu acho que as pessoas não têm interesse em recuperar. Você vê tudo ai, se acabando”, lamentou o caseiro.

Raglan Gondim lembra que a riqueza patrimonial ainda existente nos imóveis localizados entre a Rua das Trincheiras, Avenida João Machado e algumas ruas do bairro de Jaguaribe, faz um verdadeiro passeio pelos estilos arquitetônicos que marcaram cada época do crescimento urbano de João Pessoa. “Nós encontramos um ecletismo muito grande. Desde Art Déco ao modernismo. É um verdadeiro catálogo. Mas infelizmente está se acabando com o tempo, principalmente porque 95% dos imóveis são de particulares, muitos ainda naquele processo doloroso de inventário”, explicou.

"É o primeiro eixo em direção à região Sul da cidade e também à cidade de Olinda. Na Rua das Trincheiras nós temos uma verdadeira aula de arquitetura, porque ainda existem imóveis de praticamente todos os períodos da urbanização de João Pessoa, desde o período colonial, passando pelo império até o modernismo." - Raglan Gondim, arquiteto e superintendente Iphan na Paraíba

Fluxo de veículos degrada



A Rua das Trincheiras é tombada pelo Decreto Estadual Nº.7819/79 e entre as principais causas da degradação dos imóveis e da via foi o aumento no fluxo de veículos que passam por esse corredor. Na opinião do superintendente do Iphan, Raglan Gondim, aliado ao impacto do trânsito na via, o fato da maior parte dos imóveis pertencerem a particulares dificulta as ações de preservação. “Não é mais uma avenida vital para a cidade e se tornou cada vez mais um corredor de veículos, o que deixa a avenida muito degradada”, acrescentou.

Esmeralda Ferreira acompanha por duas décadas as transformações urbanas nas Trincheiras. Moradora de um dos casarões localizados na via, ela conta que, apesar do barulho do trânsito e da quase inexistência de vizinhos, o local é tranquilo e bom para morar. “Aqui é muito tranquilo, calmo. Moro aqui porque trabalho como caseira. Mas, já me apeguei à casa, ao lugar. Aqui é muito bom, nem parece que estamos no Centro”, revelou.

Na Avenida João Machado a beleza dos casarões também chama a atenção de quem transita pelo local e a mistura dos imóveis históricos com construções mais atuais simbolizam a transformação urbana da cidade que crescia rumo à orla. O contraste encanta até quem passa apressado pela avenida. “Sempre que passo aqui fico admirado com esses casarões. Não entendo porque as pessoas deixam se acabar assim, porque isso é a história da nossa cidade”, comentou o estudante Luis Borges.

Raglan Gondim explica que as construções históricas da João Machado foram construídas no mesmo momento histórico de casarões erguidos na Avenida Monsenhor Walfredo Leal e Odon Bezerra, no bairro de Tambiá. Ele lembra que a maior parte dos imóveis, localizados em terrenos amplos, eram as chácaras das famílias mais tradicionais da época.

“Essas vias foram formadas por antigas chácaras que circulavam o centro de João Pessoa, quando a cidade crescia em direção à praia e indo para o eixo Sul/Sudeste. Foi a primeira mancha de expansão dessas chácaras, quase todas no estilo neocolonial. É o momento que o veículo e a iluminação elétrica chegam a cidade, em um processo de transformação da cidade rural para a modernidade”, disse o superintendente.

Prefeitura tem projeto



Com o intuito de incentivar os proprietários de imóveis tombados a fazerem a restauração das estruturas, a Coordenadoria do Patrimônio Cultural de João Pessoa (Copac) tem um projeto que isenta (total ou parcialmente) os proprietários das unidades do pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e da Taxa de Coleta de Resíduos (TCR).

De acordo com o coordenador da Copac, Cássio Andrade, o benefício está garantido por uma lei municipal, que está em fase de regulamentação. Contudo, ele adiantou que a comissão que avalia as propostas dos interessados já está formada. “O proprietário de um imóvel tombado pelo patrimônio histórico que tiver interesse em restaurar a estrutura apresenta o projeto à Copac. A proposta será analisada pela comissão que também vai avaliar e dar uma parecer sobre o percentual de isenção do IPTU e da TCR. Essa é uma forma da Prefeitura incentivar os donos dos imóveis particulares a recuperar as estruturas”, disse.

 

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