domingo, 29 de novembro de 2020

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Idosos enfrentam filas de espera em abrigos e escondem solidão do abandono

Bruna Vieira / 09 de março de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Chegar à velhice se torna mais difícil quando não se tem um lar. As casas de repouso para idosos estão lotadas e a fila de espera é imensa. Na Vila Vicentina Júlia Freire, em João Pessoa, são mais de 200 pessoas aguardando uma vaga. Existem 44 instituições de acolhimento na Paraíba, nenhuma é pública. Alguns deles sequer recebem visitas.

A Vila Vicentina está com 66 idosos (20% de outras cidades). Destas, 60 contribuem com 70% dos proventos (R$ 616,00). “Na Grande João Pessoa, a demanda é de 650 pessoas esperando vagas. Nossa maior fonte de renda vem dos proventos dos idosos. São 70%, o que dá R$ 616,00 da aposentadoria. Temos 34 funcionários, além das despesas com alimentação, energia e água. Recebemos medicamentos da Gemax e Cedmex, mas, nunca tem. E a maioria toma medicamentos e temos que arcar ou pedir ajuda aos familiares”, ressaltou o presidente, Marcelo Paulino de Melo.

Mas, é possível aprender a ser feliz acolhido. Como é dona Maria Alice Celani. Ela veio por vontade própria há oito anos. “Meu irmão ficou viúvo com 10 filhos. Deixei o noivado e criei eles. Quando envelheci, eles cuidaram de mim. Mas, não me adaptei. Não gosto de ficar em um apartamento sem fazer nada, só assistindo TV. Fico de agonia. Aqui eu costuro, ajudo na cozinha. Meu cantinho é aqui, é uma família, sou feliz”, contou a senhora de 85 anos, que se tornou vice-presidente da Vila Vicentina.

Nem tudo são flores. Nem todas as histórias são felizes. Marcelo Paulino de Melo contou que um ex-herói de guerra que viveu no lugar, foi maltratado pela própria família. “Ele foi resgatado. Chegou ao Hospital Militar com desidratação grave, anemia profunda e sinais visíveis de maus tratos. Passou um ano e quatro meses aqui e morreu em função de seqüela, infecção renal”, narrou.Pelo menos seis pessoas vieram por via judicial, que é quando há maus tratos, abandono ou exploração financeira. Quase a metade dos acolhidos na Vila Vicentina sequer recebem visitas.

Sem vagas. A Casa da Divina Misericórdia, que atende apenas mulheres, está com a capacidade máxima: 32. A fila de espera tem 90 nomes. “Eles chegam aqui por três esferas: a família solicita a vaga, por encaminhamento da justiça e vítimas de maus tratos ou abandono ”, explicou a coordenadora geral, Maura Francisca Arruda.

Na Associação Promocional do Ancião Dr. João Meira de Menezes, no Cristo, há 63 idosos. A fila de espera tem mais de 100 pessoas. “ Alguns não tem família, estão com Alzheimer. Toda a renda é de doação e dos 70% dos proventos dos idosos. ”, disse a secretária Maria da Penha Leite.

Na Instituição Espírita Nosso Lar, são 43 vagas. “Não temos vaga agora, mas estamos construindo dois apartamentos. “Só recebemos se houver um familiar responsável. destacou o diretor, laélcio Josias de Sousa.

Em campina grande

Casas clandestinas são investigadas

Em Campina Grande a situação não é muito diferente da Capital. Além da busca incessante por um abrigo que receba o idoso com boas condições estruturais e de higiene, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal investiga casas clandestinas que se apropriam da aposentadoria e até dos documentos dos idosos para receber benefícios governamentais.

“Esse número pode ser muito maior. Na verdade não há uma política de valorização dos idosos aqui no município, nem por parte do poder público nem da iniciativa privada que, aliás, é que administra todos os abrigos que temos conhecimento. E ainda há o problema da clandestinidade. Sobram maus tratos e falta transparência”, avaliou o presidente da comissão, vereador Napoleão Maracajá.

Napoleão ressaltou que o idoso não tem nenhuma garantia de direito. “Principalmente do ponto de vista da saúde. Não há se quer geriatra que atenda nos hospitais públicos da cidade”. O parlamentar disse ainda que a comissão está protocolando denúncias junto ao Ministério Público, mas que é difícil fiscalizar os casos de abuso por conta do grande número de abrigos clandestinos.

Visitas. “Na visita que fizemos à Casa ‘Irene Modesto Conserva’, o bairro Jardim Paulistano, em outubro do ano passado, flagramos até idoso sem dente almoçando pescoço de galinha. A verdade é que nesses lugares não existe transparência em relação a como as aposentadorias são administradas. Em geral as casas são superlotadas e com poucos funcionários”, disse Napoleão Macarajá, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Campina Grande.

Leia mais no Jornal Correio da Paraíba.

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