segunda, 23 de novembro de 2020

Habitação
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Mulher faz a calçada em rua de JP como sua casa; outros 130 estão na mesma situação

Katiana Ramos / 24 de setembro de 2016
Foto: ASSUERO LIMA
Com frases desencontradas de quem esqueceu de si mesma e das poucas lembranças de um passado incerto, “Dinha”, como é conhecida pelas equipes da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) de João Pessoa, está há mais de 20 anos nas calçadas da Rua João Amorim, no Centro da cidade. O amontoado de caixas com doações de roupas e alimentos e algumas garrafas com água são os únicos pertences da mulher que se apresenta à reportagem como Maria. Ela soma-se a, pelo menos, outras 130 pessoas em situação de rua na capital, segundo dados da Sedes.

Com roupas limpas, unhas pintadas e cabelo enfeitado com um lenço colorido, Maria diz que morou no município de Rio Tinto, Litoral Norte do Estado, e que tem familiares em Recife (PE). “Morei muito tempo em Rio Tinto. Depois morei em Cruz das Armas. Aí, vim para cá”, comenta.

Segundo comerciantes do endereço onde Maria vive, ela está sempre tranquila, fala pouco e quando perguntada sobre suas origens, relata situações desencontradas. “Às vezes, ela diz que é de Esperança (Brejo paraibano), outras vezes, diz que é de Recife. A gente não sabe. Ela vive aí, mas não pede dinheiro, nem comida. Algumas pessoas passam e doam alimento, roupa e dinheiro. Ela junta as moedas e compra lanche”, conta o ajudante de carga, Pedro Barbosa.

Para quem vê Maria diariamente e para as equipes de assistência do município, o passado dela, como a de muitos que vivem em situação de rua na capital, é um mistério. Questionada sobre a saudade de parentes ou a volta para casa, o olhar de Maria torna-se ainda mais vazio e ela sinaliza apenas negativamente com a cabeça.

Álcool e doença mental. A abordagem para assistência à população em situação de rua em João Pessoa é feita por equipes do Ruartes e do Consultório na Rua, ambos realizados pela Sedes. Contudo, as ações nem sempre são vistas com confiança pelos moradores de rua e o principal empecilho para as equipes é o uso de álcool e os distúrbios mentais, presente na maioria das pessoas que vive nessa situação.

“Podemos dizer que 90% das pessoas em situação de rua enfrentam problemas sérios com alcoolismo e há casos que acontece o uso de drogas ilícitas. Os distúrbios mentais também são muitos. Têm pessoas que já chegam nas ruas nessa situação ou adquirem algum problema mental ao longo do tempo, por conta do abandono”, explica Amparo dos Santos, coordenadora do Ruartes.

Ela lembra que, no caso das pessoas que vivem nas ruas e apresentam algum problema mental, a responsabilidade pelo cuidado cabe aos familiares. Contudo, a Sedes tenta fazer o acompanhamento médico e psicológico dos casos e encaminha os pacientes para locais de apoio, como as Casas de Acolhida, quando a família não é localizada. “Conseguimos vagas em locais para reabilitação e tratamento do vício, mas muitos não conseguem se desvencilhar das ruas e não aceitam o tratamento”, acrescenta a coordenadora do Ruartes.

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