sábado, 28 de novembro de 2020

Habitação
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A casa do medo: famílias se desfazem de imóveis para fugir da criminalidade

Bruna Vieira / 14 de fevereiro de 2016
Foto: Assuero Lima
É o sonho da casa própria se realizando para milhares de famílias. Mas, dependendo do lugar, pode se tornar um pesadelo. Segundo a Cehap, o número de processos por venda ilegal é grande, embora a quantidade que tramita na Caixa não passe de 0,07%. Há pessoas que vêem nas moradias uma chance de ganhar um dinheiro fácil, já que as parcelas mensais são irrisórias e o repasse vale a pena. No Residencial Jardim Veneza, uma das pessoas que anunciou a venda do próprio apartamento revelou que quase todos já foram repassados. O motivo alegado por ela é que “melhoraram de vida”.

Quem quer vender mascara a insegurança no bairro. Mas, moradores revelam que o medo também espanta pessoas dos residenciais populares. Há famílias que realmente precisam das casas, mas se viram em locais dominados pela bandidagem. E fazem a ‘escolha de Sofia’: ou ficam e se sujeitam às ‘regras do crime’ ou deixam o sonho para trás e tentam repassar o imóvel. Para os gestores de segurança, o crime se instala nesses locais por falta de estrutura e planejamento urbano.

Na Caixa



  • 174 ocorrências de venda, cessão, aluguel ou abandono de imóvel


  • 166 em investigação


  • 8 improcedentes




Deixando o sonho de lado

Em um anúncio na internet, o vendedor pede R$ 50 mil por um apartamento no Conjunto Vieira Diniz, mas por telefone, informa que fecha negócio com R$ 45 mil. É o irmão do dono que negocia. Ele diz que o irmão arrumou um emprego fora e quer vender para ir embora. “A documentação está em ordem. Talvez não dê para transferir porque tem umas parcelas para quitar. Mas, fazse um contrato em cartório. Não tem risco. Os vizinhos são tranquilos. A maioria trabalha no comércio e nas indústrias e até meia-noite o pessoal está voltando do trabalho e é tranquilo”, disse o negociador.

Já no Residencial Jardim Veneza, outro mais barato é oferecido. A proprietária informou que aceita R$ 28 mil. “São 10 anos para quitar. Vai fazer três. O comprador paga as parcelas que faltam. É barato, R$ 25. Não tem perigo a Caixa tomar, porque o contrato prova a compra. Ao final dos 10 anos, a pró- pria pessoa transfere, nem precisa de mim mais. Eu vou mudar porque consegui uma casa, é maior, a família cresce e dá para fazer festas. Mas, garanto que é seguro. Já foi perigoso, não é mais, tem policiamento”, argumentou.

Carro de entrada. Ainda no Vieira Diniz, outro proprietário quer repassar o imóvel. Este recebe até carro de entrada. “O valor é R$ 55 mil. Se o carro for do meu agrado, a gente negocia o restante. A pessoa não vai pagar as parcelas por vencer. É pouco mais que R$ 30. Não faço nem questão, eu mesmo pago. A transferência só no final dos 10 anos. Mesmo tendo dinheiro, a Caixa não aceita quitar”, explicou o homem.

“Mas, se for apanhar o apartamento, nós vamos ao cartório fazer contrato de compra e venda. Não tem como eu desaparecer, porque meus dados estarão lá. Não gosto de enrolada. Não tem problema em vender. Só estou vendendo porque comprei uma casa maior bem próximo, no Cidade Verde e quero o dinheiro para investir. Eu gostei demais de lá, minha esposa adorava”, afirmou o dono.

Opção

Segundo o vendedor, o apartamento encontra-se alugado e caso o comprador desejar manter o inquilino, o valor cobrado é de R$ 350,00. “Se quiser morar ela sai. Duas pessoas se interessaram, mas a proposta deles não dava para mim. Para conseguir receber foi muita briga, não vou entregar de graça”, disse.

Leia a reportagem completa no jornal Correio da Paraíba

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