sábado, 19 de setembro de 2020

Cidades
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Grupos radicais islâmicos fortalecidos pelo desemprego

Luiz Carlos Sousa / 06 de novembro de 2016
Foto: Rafael Passos
A intolerância religiosa no mundo hoje ganhou cores dramáticas. A fuga em massa de sírios para a Europa é só uma amostra do problema, que atinge vários países, geralmente pobres. Para Gerson Brandão, brasileiro que coordena a ajuda humanitária na ONU, e que veio a João pessoa a convite do Grupo Videlicet Religiões, da UFPB, é preciso um esforço conjunto de governos e sociedade para mostrar que é possível na diversidade a convivência em comum. Nessa conversa com o Correio da Paraíba, ele fala dos esforços da ONU para combater a intolerância religiosa e para ajudar as populações atingidas por ela, mas ao mesmo tempo, reconhece que é difícil para um jovem desempregado resistir aos apelos dos grupos radicais, até porque eles não têm opção de emprego. Há regiões no mundo onde o desemprego entre adultos de 18 a 30 anos chega a 90% e os 10% restantes são subempregados.

- Quais as consequências hoje da intolerância religiosa no mundo?

- Para citar um primeiro exemplo: a Síria, nós temos hoje que metade da população síria teve que sair de casa em função de um conflito inicialmente religioso, de regência entre xiitas e sunitas e depois entre sunitas e salafis.

- E acabou gerando essa crise de refugiados?

Uma questão política, depois religiosa e cinco anos depois falamos que metade da população da Síria teve que sair de casa. Então, é um exemplo de como em tão pouco tempo a intolerância religiosa conseguiu destruir um País.

- Já não se fala mais nem em País...

- Exatamente, pedaços de territórios administrados por grupos diferentes, que têm interesses diferentes. E olhando o problema nós vemos como a crise síria desestabilizou toda uma região e como a falta de estabilidade nessa região criou uma nova guerra fria podemos assim dizer.

- Entre as maiores potências novamente?

- Entre Estados Unidos e Rússia, discussões no Conselho de Segurança da ONU que não aconteciam nos últimos 40 anos, um nível de tensão que não tínhamos visto. Além da questão da consequência humanitária em si, o aumento da intransigência.

- Há dados sobre a intransigência?

- Há um relatório que diz que hoje em dia temos em torno de um terço da população mundial, que vive em países onde a intolerância religiosa é uma prática, onde o não reconhecimento da diversidade religiosa é uma regra.

- Por que a religião está sempre tão ligada à política gerando conflitos?

- Poder. No final, religião é poder. Se olharmos no passado – esse é um terreno que ando com cuidado porque não sou especialista na área -, mas se pensarmos nas Cruzadas dos católicos contra os mouros e a chegada dos missionários muçulmanos na África, tinha sempre a questão do poder.

- E logicamente economia?

- Acesso aos territórios por questão de comércio e a chegada ao poder através da religião. A fé une e a religião separa. E como a fé une, pessoas utilizam a fé para manipular uma população e chegar ao poder. E hoje o que vemos nos grupos, quer seja o Estado Islâmico – que prefiro chamar de Daesh – Al Qaeda, Boka Horan, Hezbolah, Talibã - a agenda é sempre a mesma: religião para chegar ao poder.

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- Uma catapulta para lançarem-se ao poder?

- Um trampolim para chegar ao poder e o poder para oprimir as minorias. No Irã, na questão da Caxemira entre a Índia e o Paquistão, Israel e Palestina, o conflito no Sri Lanka há dois anos dos budistas contra os indús, a questão da Birmânia.

- As Américas são clamas em relação a essa questão?

- Cuba é considerado um dos países que não reconhece a diversidade religiosa. Karl Marx disse que a religião era o “ópio do povo”, então, as práticas religiosas não são reconhecidas em Cuba e são condenadas e perseguidas pelo Estado. Mas é verdade que há problemas maiores em outros continentes.

- E o Brasil?

- A gente vê uma tendência preocupante e essa mistura de religião e Estado e da laicidade do Estado sendo questionada pela presença de grupos religiosos envolvidos na política.

- A bancada evangélica no Congresso é forte, há crucifixos nos tribunais...

- É laicidade à brasileira. Nós somos um Estado laico, mas o preâmbulo da Constituição fala de Deus. E as cruzes que estão nos tribunais – talvez até mais por uma questão cultural do que religiosa. Mas existe sim essa tendência de envolvimento da religião dentro da política e algo que considero hoje em dia o questionamento do Estado laico.

-E é algo que chama a atenção no mundo...

- É uma tendência preocupante porque em outros lugares do mundo quando vemos a religião sendo utilizada como trampolim político para busca do poder, depois o que vimos foram perseguições a minorias. E quando falamos em perseguições a minorias falamos dessa crise humanitária sem precedentes que vivemos hoje em dia. São 65 milhões de pessoas que saíram de suas casas e a grande maioria por razões relacionadas com a perseguição religiosa.

- O senhor acredita que chegaremos ao respeito pleno à diversidade religiosa no Brasil e no mundo?

- No Brasil vejo uma tendência que é preocupante. Há poucos dias estava no Rio discutindo esse tema “Consequências Humanitárias da Intolerância” e estudava casos de religiões de matrizes africanas, de candoblecistas que eram atacados por grupos evangélicos, apesar da vigência de leis que consideram a intolerância religiosa um crime, apesar da existência de entidades que lutam pelo respeito aos direitos humanos, pela igualdade racial, pela diversidade religiosa.

- Como o Estado tem reagido.

- A resposta é tímida, apesar de iniciativas como decretação do dia 21 de Janeiro como o Dia da Igualdade ou estabelecimento de secretarias de Igualdade Racial em alguns Estados, secretarias de Direitos humanos em outros. Mas a tensão existe e não diria com todos os evangélicos, porque o que a gente vê no Brasil nos últimos anos é a mesma coisa que a gente vê no mundo: uma interpretação particular de um livro sagrado quer seja a Bíblia quer seja o Al Corão, e os indivíduos, através dessa interpretação participar ou peculiar impõem a realidade deles de mundo e acabam por arregimentar pessoas que seguem essa mesma visão particular. E o fanatismo vem através disso. Só precisa de um líder carismático que imponha a visão dele.

- Como a ONU está encarando o problema?

- De várias maneiras. Primeiro a questão da resposta, porque hoje em dia a vítima da intolerância religiosa tem que ser assistida. A resposta da ONU vai em duas frentes com a resposta humanitária. Há uma urgência em ajudar as pessoas que saíram de casa sem nada com a roupa do corpo. Tudo que é relacionado à assistência alimentar, cuidados básicos de saúde, assistência às mulheres que são vítimas de violência sexual – no Norte do Iraque conhecemos histórias de mulheres cujos corpos viraram brinquedos de guerra e elas foram vítimas de estupros múltiplos, além de assistência psicológica às crianças e Educação.

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- O senhor falou em duas frentes. Qual a segunda?

- A prevenção. O secretário geral Ban Ki-moon tem a intolerância religiosa na agenda dele para discutir com chefes de Estado de países que consideramos de risco para conter o aumento da intolerância.

- E meio cíclico, não?

- nós vimos na década de 1940 com a ascensão de Adolf Hitler a perseguição aos judeus, que podemos dizer que foi o primeiro grande caso de intolerância religiosa, que, no final, motivou a criação da ONU e agora temos esse novo ciclo com a situação da Síria e a questão dos refugiados.

- Como a sociedade pode ajudar, como se engajar nessa luta, porque da parte dos políticos parece que não há vontade de solucionar o problema?

- São três problemas do meu modo de ver. Primeiro, a crise econômica, sobretudo na Europa, com essa questão da competição e a imagem do refugiado que chega para tomar meu trabalho e utilizar os poucos recursos que tenho. Depois, a questão política que explora esse medo da população com o desconhecido. O refugiado é desconhecido e, infelizmente, estigmatizado pela associação errada que se faz entre Islã e o terrorismo.

- Daí o crescimento da direita?

- Quem imaginaria um candidato a Presidência dos Estados Unidos com uma agenda racista, machista como Donald Trump chegaria aonde chegou? E depois, uma outra questão, a falta de compromisso com os acordos internacionais. Existe a convenção dos refugiados, que a maioria dos países europeus assinou se comprometendo a acolher pessoas que fogem de suas casas, não porque elas querem, mas porque são obrigadas.  E até então só estamos tratando das consequências.

- E quais as causas?

- Por que as pessoas são obrigadas a saírem de seu País de origem? Porque há cinco anos existe um conflito na Síria, porque há 34 anos existe um conflito no Afeganistão. Qual a causa? E qual o papel dos estados membro das Nações Unidas na resolução deles? Tem que haver um compromisso com as resoluções com os acordos e tratados e hoje em dia, infelizmente, esse compromisso não é tão forte.

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- O senhor acredita que a tolerância humana uns com os outros prevalecerá?

- A esperança é a última que morre né? Mas dentro das discussões na organização, o que motivou a transformação da Liga das Nações na Organização das Nações Unidas? Foi a Segunda Guerra Mundial e o compromisso de isso nunca mais vai acontecer. Infelizmente voltou a acontecer na Europa com a Iugoslávia. E dissemos: isso nunca mais vai acontecer. E voltou a acontecer em vários outros lugares.

- Os jovens estão sem opção?

- É a questão fundamentalmente econômica. Há regiões onde o desemprego entre os jovens de 18 a 30 anos de idade chega aos 90%. E a única opção que eles têm é o fundamentalismo. O único lugar onde eles vão ser alguém, onde vão ter a oportunidade de ganhar algo é se juntando a esses grupos radicais. Vão controlar territórios, impor taxas, controlar tráfico de drogas.

- E onde está Deus?

- É a incoerência desses grupos. E a questão de misturar estado e religião, quando dizemos que a fé é pura os homens não são. Existe colada uma agenda pseudo-religiosa que termina por arregimentar pessoas que não têm como razão religiosa. E há estudos nossos na África que confirmam que a razão maior desses jovens que se juntam a esses grupos não é religiosa. Eles não fazem por ideologia, mas por necessidade.

- Sem falar que esses grupos têm acesso às populações locais, dominam os dialetos...

- Sem falar que muitas vezes eles têm recursos que as organizações humanitárias não têm. Eles têm acesso à população através da linguagem, do conhecimento das regiões, que as organizações não têm. E como trabalhamos em territórios cuja presença do Estado é muito fraca é difícil contrabalançar com o poder dos grupos radicais, fundamentalistas. O papel da ONU passa também por fortalecer o Estado, porque onde não há estado há caos e onde há caos há aproveitadores. E esses grupos são grupos aproveitadores. Onde não há o Estado vira terra de ninguém e em terra de ninguém quem manda é o mais forte. E o mais forte é aquele que tem armas. E o mais forte termina por oprimir o mais fraco. E a intolerância religiosa é um veículo de opressão e por isso a importância de promover a diversidade de entender que podemos ser diferentes, mas viver juntos.

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