segunda, 21 de setembro de 2020

Cidades
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Garotas plus size na luta contra a ‘gordofobia’

Lucilene Meireles / 17 de outubro de 2016
Foto: Nalva Figueiredo
Estar fora do que é tido como padrão faz com que algumas pessoas se sintam excluídas e isso pode acontecer, por exemplo, com quem está acima do peso. É duro ser chamado de gordo ou rotulado como incapaz por conta disso. Achou pouco? Pois é, as dificuldades não param por aí. Quem é plus size sofre até para encontrar roupas no tamanho ideal. E aprender a lidar com o preconceito nem sempre é uma barreira que se consegue vencer. Pouco se fala sobre o assunto, mas um grupo de estudantes de Direito, da UFPB, decidiu colocar o tema ‘gordofobia’ em debate, com ações como a produção de um documentário e uma página na internet. A meta é falar sobre preconceito e contribuir para empoderar mulheres gordas, mostrando que elas são tão capazes quanto as demais.

A ideia faz parte de um trabalho da disciplina ‘Direito dos Grupos Socialmente Vulneráveis’, do terceiro período do curso. Lorena Dutra, uma das integrantes, explicou que, a partir da escolha do grupo de mulheres gordas, com idade, classe social e autoestima variadas, a intenção é tratar das vulnerabilidades delas no que tange ao viés estético. “Tentamos comprovar as diversas maneiras pelas quais a imposição de um padrão estético magro, alto e esbelto afeta as mulheres gordas, fazendo com que o excesso de peso seja visto pela sociedade como um sinal de desleixo, descuido pessoal, quando na verdade, pode estar atrelado a inúmeros fatores, como genético, hormonal”, observou.

A gordofobia, segundo ela, pode ser percebida na moda excludente, quando as lojas de departamento, por exemplo, não comportam números acima do GG, e as poucas que ofertam o produto não fazem propagandas voltadas a esse público. Também se percebe a gordofobia, conforme Lorena, nas propagandas, novelas, filmes, séries, onde raramente uma mulher gorda será retratada com naturalidade.

“A gordura é sempre vista como um impasse na carreira, na vida amorosa, nas relações de emprego, principalmente cargos que lidam com a aparência como secretárias, repórter, advogados, modelos, atrizes. A questão da visibilidade do tema é importantíssima, porque outros tipos de ‘fobia’ já são encaradas por parte da sociedade como algo presente no cotidiano, como o racismo, a homofobia, mas o mesmo não se aplica à gordofobia”. Para ela, reportagens que tratem do tema e o próprio blog (GGlamurosas) podem ser o início de uma discussão maior.

“Muitos ainda não se dão conta de ações gordofóbicas que praticam, como dizer ‘seu rosto é lindo’ para uma mulher gorda, ou ‘vi uma dieta ontem no jornal’, como se essas mulheres não pudessem ser belas e gordas ao mesmo tempo, ou ainda que a gordura estivesse atrelada somente ao fato de elas não terem saúde. Nem mesmo no âmbito jurídico encontramos muitos artigos sobre o tema, o que revela uma grande lacuna” - Lorena Dutra, estudante de Direito da UFPB.

O que é gordofobia?

É a desqualificação e a inferiorização de pessoas gordas, a partir da ideia de que essa característica as incapacita, as invalida e as enfeia, sentimento este que pode estar seguido de atos de violência física, verbal, moral ou psíquica.

Movimento contra a gordofobia

A motivação em debater o tema vem do fato de que, embora grave, o assunto recebe pouquíssimo apoio dos movimentos sociais, enquanto a cobrança em seguir um padrão estético ideal, através da moda e da mídia, afeta as mulheres de forma significativa. “Isso tudo corrobora para uma autodepreciação e para a perda da autoestima, influenciando de forma direta no bem estar dessas mulheres”, afirmou Lorena Dutra.

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Por outro lado, ela destacou que as mulheres do recém-criado movimento contra a gordofobia, que realizou dois encontros, são ‘bem resolvidas’ e encontraram seu próprio jeito de lidar com o preconceito da sociedade. No quesito autoestima, elas não se mostram tão afetadas com o próprio excesso de peso.

A designer de moda, Maluh Vinagre, 24, é prova disso. Ela garante ter descoberto o segredo para não se abater com o que os outros pensam e dizem. “É preciso se aceitar primeiro”, enfatizou. Colecionadora dos títulos ‘A Mais Bela Gordinha da Paraíba’ e Miss Paraíba Plus Size, ela vai tentar mais um em novembro, no Rio de Janeiro, o Miss Plus Size Nacional.

Com 1,73 de altura e manequim 50, Maluh diz que o preconceito vem desde a infância, na escola e passa, entre outros percalços, pela dificuldade de encontrar roupas: “Durante muito tempo, comprava tecido e mandava a costureira fazer as peças que eu gostava. Hoje, há duas lojas apenas em João Pessoa especializadas em plus size, mas muitas gordinhas não têm condições de comprar e se escondem atrás de um pano feio. Isso atrapalha a autoestima”, analisou. Ela garante, porém, que nada disso a deixou baixar a cabeça.

“A gordofobia está dentro de quem quer sofrer e ficar com a mágoa. Sou gordinha desde criança e meus pais sempre ensinaram que isso não deveria me afetar. A gente sabe que, por mais que muitas gordinhas digam que não há problema, muitas não se aceitam e é esse o grande segredo para vencer o preconceito e a gordofobia: se aceitar” - Maluh Vinagre, designer de moda.

Documentário

O depoimento da Miss Plus Size, Maluh Vinagre faz parte do documentário das estudantes que será lançado dia 20, no Centro de Ciências Jurídicas (CCJ), da UFPB. Duas youtubers, uma do canal "QueSeDani" e outra do canal Thereza Andrada, também estarão no vídeo.  “Acho que o debate é muito válido. Criamos até um movimento plus size no Whatsapp, onde conversamos, nos apoiamos e nos sentimos melhores com a troca de experiências no final do dia”, contou a modelo.

Além dos relatos das garotas plus size, o documentário trará o depoimento de uma professora de Direito Civil, que vai falar sobre o padrão estético imposto pela mídia. Um professor de Direito Penal vai falar sobre a tipificação do crime de praticar gordofobia; uma professora de Psicologia Jurídica vai falar sobre os impactos na autoestima dessas mulheres; e uma nutricionista vai falar sobre os inúmeros fatores que podem levar ao sobrepeso, além da alimentação.

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Foi o número de acessos na página www.gglamurosas.wordpress.com, criada no domingo (9).

Sobre o blog

Algumas mulheres enviaram depoimentos e dois deles foram postados. A página, de acordo com o grupo de estudantes, tem o intuito de divulgar relatos escritos, os vídeos sobre ‘gordofobia’ que as youtubers postarem no canal delas, onde o blog também será divulgado. No blog, há sugestões de livros, filmes e séries com protagonistas gordas ou que tratem do preconceito contra elas, além de postagens diárias que incentivam a desconstrução de um padrão estético de beleza.

Em um evento realizado semana passada com as meninas plus size, um grupo de estudantes de Psicologia realizou uma dinâmica de auto-reconhecimento e autoestima com elas. “É sempre importante a ajuda psicológica pra que elas criem mecanismos de defesa contra o preconceito e possam ouvir sobre a valorização de todos os formatos de corpos. É mais um auto-reconhecimento do que autoajuda”, disse a estudante Lorena Dutra.

Análise do grupo

“Creio que a gordofobia realmente existe e pode afetar essas mulheres no aspecto de autoconfiança, fazendo com que elas mesmas assimilem o padrão imposto pela mídia como algo correto, um ideal a ser alcançado”, observou Lorena Dutra. Para ela, a questão afeta as mulheres gordas de modo particular, porque impede que elas sejam reconhecidas como mulheres passíveis de viverem suas vidas e exercerem qualquer ato da vida civil como as demais.

Na Paraíba, o Movimento Plus Size é o primeiro que busca dar representatividade às mulheres gordas, e a situação não é diferente no resto do Brasil. “Acredito que o problema requer intervenções mais profundas do que aquelas que efetivamente estamos realizando, pois o padrão estético imposto pela mídia não se resolverá de um dia para outro”, comentou. Na opinião da estudante, propagandas mostrando mulheres de todo tipo corporal, novelas protagonizadas por mulheres gordas, filmes e séries mostrando-as como mulheres comuns contribuiriam para um novo olhar em relação às mulheres gordas por parte da sociedade.

Programação

Evento - II Caminhada Plus Size (em prol do Outubro Rosa e Novembro Azul)

Quando - 30 de outubro

Horário - 8h

Local - Parque Solon de Lucena

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