terça, 16 de julho de 2019
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Fortaleza padece com falta de recursos para manutenção

Ellyka Gomes / 03 de fevereiro de 2019
Foto: Rizemberg Felipe
Um patrimônio histórico esquecido pelo poder público. Essa é a ótica que o visitante tem ao chegar à Fortaleza de Santa Catarina, localizada em Cabedelo – cidade da Região Metropolitana de João Pessoa. Um dos mais belos monumentos da Paraíba é mantido com recursos da bilheteria e do aluguel para eventos particulares. A reportagem do jornal CORREIO visitou o local, para entender porque esse importante centro cultural e turístico não recebe recursos públicos para manutenção e preservação.

O descaso começa ainda no trajeto. São poucas as placas turísticas que indicam como chegar ao local. As vias de acesso também não são das melhores. Depois que o motorista deixa a BR-230 e entra nas ruas de paralelepípedos, são constantes buracos e desníveis provocados pelo peso dos caminhões. É que a Fortaleza fica ao lado dos Terminais de Distribuição de Cabedelo (Tecab) – empresa privada que armazena combustíveis derivados de petróleo e biocombustíveis.

A Fortaleza de Santa Catarina também não conta com amplo estacionamento. Na verdade, os carros e os ônibus de turismo “brigam” com os caminhões por um espaço nos acostamentos das ruas do entorno. “As pessoas chegam aqui e dizem que o local está mal conservado, mas nós fazemos o que podemos com os recursos que temos”, desabafou o diretor da Fundação Fortaleza de Santa Catarina, Osvaldo Carvalho.

Segundo o gestor, a Fortaleza não recebe nenhum recurso público, embora o imóvel tenha sido tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Cultural (Iphan) em 1938. A Fundação Fortaleza de Santa Catarina é a responsável pela administração do monumento desde 1992. A entidade é composta por 18 membros, dos quais, apenas seis residem em Cabedelo. As despesas da Fortaleza somam, em média, R$ 15 mil por mês.

Mas essa quantia só dá para fazer o básico... Capinação, pagar energia, água, o pessoal da limpeza e os guias. Embora estes últimos trabalhem como voluntários, a Fundação paga para cada um cerca de R$ 300 por mês, como uma forma de ajuda de custo. O pessoal que ajuda na limpeza também não recebe salário fixo. “Eu não posso cobrar de nenhum deles horário para chegar. Quem perde é o visitante que, às vezes, não encontra um banheiro limpinho”, comentou Carvalho.

A arrecadação mensal da bilheteria é de R$ 4 mil. Esse valor só melhora no mês de janeiro, quando o número de visitante dobra. A receita da Fortaleza é complementada com o aluguel de eventos particulares, como casamentos e formaturas. “Quando aparece uma cerimônia, eu já reservo o dinheiro para uma melhoria, mas ano passado quase não teve procura”. No dia em que a reportagem visitou o local, as pedras da frente do monumento estavam sendo lavadas com uma mangueira de jardim.

E é dessa forma que a manutenção da Fortaleza vem sendo realizada: de forma improvisada e por moradores locais, que recebem alguns trocados da Fundação para realizar benfeitorias. Quem visita o local não sabe das condições financeiras de como a Fortaleza vem sendo administrada. “A Fortaleza é linda, mas parece que foi esquecida. Já que não recebe recursos públicos, poderiam ao menos aumentar o valor da bilheteria para ajudar nos custos”, comentou Cintia Wagner, turista de Porto Alegre.

Justificativas são contraditórias



A reportagem procurou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Cultural (Iphan) para saber se a Fortaleza de Santa Catarina recebe recursos da entidade, uma vez que o imóvel foi tombado pelo Instituto há mais de 80 anos. No entanto, a nota da assessoria não esclareceu o questionamento. O Iphan informou que administra a Fortaleza, em parceria com a Fundação Fortaleza de Santa Catarina, com os recursos das visitações turísticas.

“Temos estabelecido diálogo com a Companhia Docas e o Governo do Estado no sentido da elaboração e execução de projeto paisagístico de requalificação e reabilitação de toda a área de entorno e espaços livres, objetivando a preservação de sua ambiência”, diz a nota. No entanto, o diretor da Fundação Fortaleza de Santa Catarina, Osvaldo Carvalho, afirmou que os representantes do Iphan dificilmente aparecem.

“Não quero causar mal estar, mas é muito raro alguém do Iphan nos contatarem. Eu mando ofício falando da capinação, por exemplo, mas dificilmente recebo um retorno”, comentou.

Questionamos o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Estado da Paraíba (Iphaep) do porque a Fortaleza nunca ter sido tombada como patrimônio estadual, uma outra forma de tentar manter o monumento.

A diretora executiva do Iphaep, Cassandra Figueiredo, esclareceu que, quando um bem é tombado em nível nacional, não se pode fazer um tombamento na esfera anterior. Sobre os buracos e desníveis nas ruas, o secretário de Planejamento de Cabedelo, Rodrigo Martins, disse que há uma obra em execução que prevê a requalificação das vias do entorno portuário, que irá contemplar a rua principal da Fortaleza.

“Aquela área é delicada e só poderá ser feita com a presença de arqueólogos, segundo determinação do Iphan”, esclareceu. A obra está orçada em R$ 6 milhões.

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