quarta, 19 de dezembro de 2018
Cidades
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Falta de saneamento atinge principalmente mulheres

Lucilene Meireles / 30 de outubro de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
“Aqui, a gente vê fezes no meio da rua, não tem rede de esgoto e tudo vai parar na frente das casas ou jogamos na maré. Isso interfere na vida da gente, desestimula, afeta a saúde e até a vontade de fazer as coisas dentro de casa”. O depoimento é de Maria Francisca de Oliveira, 50 anos, dona de casa que não sabe ler, não tem emprego fixo, nem esperança de ver melhoria na Comunidade do S, bairro do Roger, em João Pessoa, onde mora. Ela está entre 27 milhões de outras mulheres que sofrem o impacto da falta de saneamento no País.

Na Paraíba, a universalização do saneamento, tiraria da pobreza 25,1 mulheres em cada grupo de mil pessoas, segundo o estudo inédito do Instituto Trata Brasil “O Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira”. O levantamento mostra que o investimento em saneamento básico tiraria imediatamente 630 mil mulheres da pobreza. Por outro lado, sem saneamento, elas ficam doentes, acamadas por doenças associadas ao problema, como vômito e diarreia. Perdem tempo e, as que têm um emprego, podem ter prejuízos econômicos em razão da ausência no trabalho.

De acordo com a análise, a falta de saneamento básico tem impactos negativos para toda a sociedade, e essa condição reforça a desigualdade de gênero no Brasil. Maria da Penha Trajano, de 43 anos, sabe muito bem como a soma de todos os fatores, como doenças e falta de água, atrapalham sua vida. “Essa situação incomoda porque é água de esgoto escorrendo o tempo todo. Somos pessoas de baixa renda, com poucos recursos, e isso deixa todo mundo doente. Quem trabalha ou estuda, tem que faltar. Eu, além das tarefas de casa, tenho um marido acamado e preciso estar sempre bem”, constatou.

O economista Fernando Garcia de Freitas, responsável pela pesquisa, lembrou que quando há falta de água em casa ou quando alguém da família adoece em decorrência da falta de saneamento, em geral a rotina das mulheres é mais afetada. Segundo ele, o impacto desses problemas no tempo produtivo delas é 10% maior que o dos homens. “Temos um retrato evidente de como a falta de água e esgoto impacta a criança, a jovem, a trabalhadora, mãe e a idosa, impedindo a melhoria de vida e aprofundando as desigualdades”.

Dupla jornada feminina

A pesquisa mostra ainda que a falta de saneamento tem um forte peso na rotina de dupla jornada enfrentada pela maior parte das mulheres no país. “No Brasil, é a mulher que cuida dos afazeres domésticos. É ela quem cozinha e é quem se ausenta do trabalho para levar o filho no posto de saúde. Portanto, a falta de saneamento afeta diretamente a sua vida em diversas esferas, com impactos inclusive na sua mobilidade socioeconômica”, avaliou Teresa Vernaglia, presidente da BRK Ambiental.

“São informações impactantes dada a importância da autonomia financeira para a igualdade de gênero e para o empoderamento da mulher, previstos no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 da Agenda 2030 da ONU”, afirmou.

E acrescentou. “Parte da transformação dessa realidade depende de investimentos e do compromisso das empresas com a universalização de água e esgoto”, completou Teresa.

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