sábado, 08 de maio de 2021

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Especialistas dizem que seca é ‘negócio político’

Ainoã Geminiano / 15 de julho de 2018
Foto: Antônio Ronaldo
Na opinião de estudiosos do clima, a seca é um fenômeno natural - assim como a chuva, que não pode ser combatida. O que se pode e deve ser feito é criar meios para as pessoas conviverem com a escassez de água, sem morrer de fome e ficar sem trabalhar. Porém, na avaliação de cientistas políticos, ainda é forte a mentalidade de gestores que querem manter o povo na miséria, em consequência da seca, para ter com que comprar com favores ou captar votos com promessas, em época de eleição. O resultado disso é que 74,5% dos municípios do Nordeste não têm plano de contingência ou prevenção aos efeitos da seca, segundo o IBGE. Os números da pesquisa foram divulgados esta semana pelo Correio.

O agricultor Manoel Messias dos Santos, hoje com 54 anos de idade, foi criado na zona rural da cidade de Patos, onde vive até hoje. No sítio onde mora, tem uma cisterna de 16 mil litros, construída há quatro anos pelo Governo Federal. Há muito tempo, os agricultores da região lutam pela construção de poços artesianos e já recorreram à prefeitura e os governos Estadual e Federal, mas não obtiveram resposta.

“A prefeitura diz que não tem dinheiro, já fomos a várias reuniões desse orçamento democrático do Estado e até agora nada”, contou Messias. Para ele, os moradores sequer pensam em outras políticas mais avançadas. A urgência é por água.

Para o cientista político, Jaldes Menezes, embora já se veja alguma mudança na mentalidade política, esse processo ainda é lento e há muitos políticos de mentalidade atrasada, que usa a carência das pessoas para fins eleitorais. Por isso, em meio à necessidade, as pessoas se tornam presas fáceis dessa mentalidade de chantagem política, mesmo sabendo que estão sendo enganados.

Existem alternativas. Como um estudioso de fenômenos como a seca,  Luis Carlos Molion, PhD em meteorologia, pós-doutor em Hidrologia de Florestas também se dedicou a estudar alternativas de convivência com a falta de chuva. Em suas palestras, costuma citar o exemplo clássico do estado da Califórnia, que fica na região mais seca dos Estados Unidos e tem uma média de 220 mm de chuva, por ano. Apesar da seca, o estado é o maior produtor de frutas e hortaliças do EUA e um dos maiores do mundo.

“Aqui no Brasil, nos temos o Rio Tocantins, que joga no mar 12 milhões metros cúbicos de água, por segundo, sem nenhum aproveitamento. A vazão do São Francisco, apontado como solução para o Nordeste, hoje deve estar em 500 mil metros cúbicos. Isso mostra que, se houvesse gestão e vontade política, o Nordeste poderia ser a região mais rica do Brasil”, disse Molion.

Para ele, o Nordeste brasileiro tem duas grandes vocações. A primeira é de geração de energia solar, através do sistema heliotérmico, mais eficiente que os já conhecidos painéis solares. A segunda é a fruticultura, com agroindústria de transformação, fabricação de sucos, geléias e outros derivados das frutas. “As formas de fazer isso são amplamente conhecidas e acessíveis a qualquer governo. O problema é que o povo na miséria e analfabeto é mais fácil de ser enganado”, disse.

Estiagem severa a cada 18 anos

Molion tem mais de 120 artigos publicados em livros e revistas científicas nacionais e internacionais. Algumas dessas publicações falam sobre o Ciclo Nodal, que prevê, entre outras coisas, a ocorrências de uma seca severa na região Nordeste a cada 18 anos, período em que a lua completa seu ciclo de maior e menor inclinação, em relação à Linha do Equador.

“Existem muitas e vagas explicações sobre o que provoca o fenômeno El Niño. Eu fico com o entendimento de que ele é provocado por uma força externa, que pra mim é a força gravitacional da lua. Fiz um estudo com dados desde o ano de 1885 e toda vez que a lua está no seu mínimo (menor inclinação em relação à linha do Equador) acontece um El Niño muito forte. E nos quatro anos que antecedem esse momento, as chuvas vão ficando escassas. Esse El Niño forte aconteceu entre 2014 e 2016, quando tivemos essa seca severa. A tendência é que, nos próximos 10 anos, vamos ter chuvas com normalidade e períodos até acima da média”, explicou.

Para Molion, de acordo com o Ciclo Nodal, a previsão é que a próxima grande seca no Nordeste aconteça em 3034, com as chuvas começando a ficar escassas já em 2030.

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