sexta, 26 de fevereiro de 2021

Entrevista
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Os pobres não têm como pressionar pela Educação

Luiz Carlos Sousa / 04 de junho de 2017
Foto: Rafael Passos
Dos direitos assegurados pela Constituição ao povo, talvez o mais debatido no Brasil seja a Educação.  O País já perdeu inúmeras oportunidades de reformar o ensino e oferecer escola de qualidade aos cidadãos. Para a professora Vera Esther Ireland, a escola pública teve qualidade até quando foi freqüentada pela elite. Com o capitalismo entrando na educação, as classes mais poderosas correram para a escola privada e a pública sobrou para os pobres, que antes não freqüentavam escola alguma e não têm poder de pressão para reclamar por melhores condições de acesso ao conhecimento. Hoje a reclamação contra a má qualidade é unânime e mesmo quando há uma iniciativa para tentar melhorar, o processo acaba sendo alvo de críticas, como foi o caso da reforma do ensino médio. Nessa conversa com o Correio, a professora Vera Ireland, hoje aposentada da UFPB, fala sobre o processo em busca da melhoria na educação e de como o Brasil perde oportunidades para evoluir na área.

 

- Por que o Brasil ainda não conseguiu dar o salto qualitativo na Educação que todos buscam?

- Até certa época só contava classe média para ir para a escola pública. Abaixo da classe média não ia para a escola e pronto. Quando se fala para mim em educação brasileira, se está falando em educação pública. Então, até quando a classe média freqüentou a escola pública as expensas de quem estava abaixo da classe média e não freqüentava escola alguma, a escola ia bem, a educação ia bem.

 

- Tinha qualidade?

- Olha grandes nomes, hoje idosos, do País inteiro, estudaram em escola pública. Aqui na Paraíba o Liceu Paraibano, em João Pessoa e o Estadual da Prata em Campina Grande são berços de grandes nomes.

 

- O que houve que inverteu os valores?

- À medida que a classe popular começou a entrar para a escola pública – os próprios professores de classe média, o aparato escolar – não sabia o que fazer mais, perdeu o rumo. Depois, com o capitalismo ficando mais guloso, começou a aparecer escola particular para a classe média. É claro que escola particular sempre existiu, mas para a elite da elite – zelosa de sua condição de elite mandava os filhos para os colégios de padres, se fossem meninos e para os de freira se fossem meninas.

 

- Mas a proporção era mínima?

- Exatamente. À medida que o capitalismo guloso começou a investir, para seu próprio lucro, em educação, ele foi atraindo a classe média. E quem ficou na escola pública?  O pobre.

 

- E qual é o problema?

- Pobre não tem poder de pressão. Aí a escola pública desceu ladeira abaixo porque não havia mais quem fizesse pressão pela qualidade. Fui subsecretária de Educação de João Pessoa e conheci todas as escolas municipais da época. Nunca vou me esquecer do dia em que cheguei numa escola e descobri que ela só tinha uma torneira. Como é que ia dar água para a meninada?

 

- Um “bico” de água?

- Fui ficando escandalizada. Chegava sem avisar e aquele monte de pessoas pobres, pobres, pobres tudo do lado de fora. Perguntava por que eles estavam ali? A resposta: a gente recebeu recado para ir buscar as crianças na hora do intervalo. Mas por que tirar a criança da escola? Porque faltou água. Mas na casa dos meninos também não vai haver água. Faltou luz? Tem água e tem luz, mas faltou merenda. E a população só ia fazer o que a escola mandasse, não tinha nenhum poder de pressão. E isso contribuiu demais para que a escola pública fosse se deteriorando chegando a um ponto insuportável.

 

- Um longo processo?

- Isso não aconteceu ontem, antes de ontem. Tem uma história que contribuiu para que as escolas brasileiras – para atender os milhões de pobres e não os poucos da elite – foi sendo descuidada e não havia que tivesse poder para pressionar.

 

- Ao governo não caberia uma posição crítica em relação a essa deteriorização da escola pública?

- O governo foi sensível até 1964. Todos os que lutavam por uma educação de qualidade – Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Celso Furtado, entre outros, foram presos, exilados. Tem uma frase dita pelo Darcy Ribeiro, já idoso, que não esqueço: “Eu perdi todas as batalhas que travei, mas me sinto muito feliz por não estar ao lado que quem ganhou”.

 

- As escolas demoraram a chegar ao Brasil?

- O Brasil só começou a ter escolas depois que a monarquia, com o imperador português, veio para o Brasil em 1908. Não tinha nada até então, ele precisou criar aqui escolas, institutos de ensino superior para atender à elite que veio junto. Não é que não houvesse ninguém letrado no País. Havia os altamente escolarizados, filhos de uma elite que ia estudar em Coimbra, fora, o que ocorre até hoje. A escolarização inicial no Brasil começou com os jesuítas, que foram expulsos em 1549. Cabral aportou aqui em 1500. Então todo o processo de construção democrática, de construção de uma escolarização para o povo foi só se atrasando.

 

- E isso trouxe sequelas até os dias de hoje...

- Quando um houve um movimento na década de 50 para se começar a pensar essas questões houve o golpe de estado no Brasil, que impediu. Ficou mais de 20 anos no poder. Agora, recentemente, se começou de novo a fazer um País que atendesse a enorme população que sempre foi esquecida e o que aconteceu? Outro golpe de estado. É muito difícil construir a democracia no Brasil.

 

- Sem democracia há educação de qualidade?

- Sem democracia não há educação de qualidade, não há saúde de qualidade. Com esse capitalismo financeiro, sob o qual a gente vive, que só quer saber de lucro, é impossível construir um País. O nosso modelo – os Estados Unidos – um dos países mais ricos do mundo também tem a maior pobreza. Também tem o maior nível de pobreza. E é esse País que a gente copia.

 

- Diante de tantos desafios como acompanhar o desenvolvimento tecnológico que faz da inovação e do conhecimento suas principais ferramentas?

- Isso me lembra uma experiência emocionante que completou 25 anos. Nós como professores da UFPB, em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil criamos o Projeto Escola Zé Peão – que um dia desses foi homenageado pelo Congresso dos Estados Unidos, pela Unesco. É uma referência que recebeu muitos prêmios nacionais e internacionais. Uma coisa urgente que a gente percebeu que precisava ajudar os trabalhadores era na compreensão do contracheque. Eles não sabiam ler o contracheque e se soubessem não entendiam.

 

- Isso há 25 anos?

- Isso. Hoje, eu rio. O meu contracheque é eletrônico e para eu entender o que está ali – tem coisa que não entendo – tenho que dominar um mínimo de informática. Então, veja a Era do Conhecimento, é uma era de conhecimento para poucos. Desafio qualquer adulto desse País, de minha idade, que não pergunte para os filhos ou netos como se faz para resolver uma questão no celular. Os sites do banco: é um inferno e de vez em quando mudam, o que dá um trabalho danado até entender. Agora se há essa dificuldade para a gente, de certa idade, imagine para grande massa de trabalhador, que não tem escolarização como a nossa.

 



 

- Os exemplos estão aí basta ir a um caixa eletrônico em dia de pagamento...

- Esses dias estava num caixa com meu marido quando chegou um senhor, com ares de trabalhador, sorteou pelo olhar e foi falar com meu marido e disse: o senhor pode me ajudar aqui no caixa? Eu preciso tirar meu salário e não sei como. E aí ele deu o cartão e a senha para o meu marido. Eu disse para ele: o senhor não pode dar a senha para ninguém. E ele disse: não serve para nada, eu até sei ler essas letras, mas não entendo essa máquina. Então, sempre tenho que dar minha senha para alguém que, intuitivamente, eu acho que não é um ladrão, porque não consigo usar essa máquina. Veja o caso do saque móvel, que muita gente não sabe o que é.

- Muda muito rápido...

- E a velocidade da mudança é excludente, também. É importantíssima, não vai parar, mas também é excludente. Temos um tipo de capitalismo que descobre mil formas para manter parte da população, na exclusão, fora do sistema.

 

- Caminhamos para trocar a escrita por outra linguagem como o filme por causa da facilidade que os dispositivos atuais permitem?

- Todo mundo reclama do “analfabetismo” dos jovens se comunicando pela internet, da forma como eles escrevem nas postagens. Costumo dizer que a língua portuguesa está em fase de transição. Ela é originária do Latim e o Latim se transformou em dez línguas – as chamadas românicas. A língua falada se modifica ao longo dos anos e os jovens, principalmente, estão provocando uma modificação na língua. Está havendo uma simplificação que, por um lado, os jovens perdem o contato com a beleza da língua trabalhada, processada, pensada, refletida, “gramatizada”, mas se você for ao dicionário para checar uma palavra – não estou falando no Google – o que antes era proibido, hoje está lá, não é mais errada. O que os jovens estão fazendo é avançar no processo de modificação da língua portuguesa e a gente não pode prever como a língua estará daqui a alguns anos.

 

- Uma ameaça ao livro?

- Não. Isso pra mim não significa que o livro está perdendo espaço para a TV, para o celular. Não está. Desde que a internet foi inventada decretaram o fim do livro e ele está aí resistindo.

 

- Como a senhora avalia a reforma que o governo federal aprovou e pretende implantar?

- Essas reformas (todas que estão passando no Congresso) são absolutamente antipopulares. Está havendo uma destruição do nosso País. Essas reformas são um ataque à Nação, com repercussões hoje imensuráveis. Ao longo dos anos é que iremos ver o buraco.Elas são um retrocesso muito grande. O governo está executando um programa, que não foi o escolhido pelas urnas. Mas não perco a esperança. Um País é maior que o seu governo.

 

- Mas, quanto a reforma do ensino médio?

- eu sou contra qualquer reforma educacional feita de afogadilho. Como não atribuo legitimidade a este governo pós Dilma Rousseff, é natural, pra mim, que eu olhe suas propostas de leis com bastante desconfiança. O ensino médio precisa ser pensado com calma.

 

A Educação profissionalizante pode desempenhar um papel determinante na melhoria da Educação como um todo?

- Não é a educação profissionalizante que desempenharia algum papel para a melhoria da qualidade da educação em geral... Eu creio que até o termo "educação profissionalizante" mostra um equívoco. Por exemplo: o Ensino Superior, seja oferecido por Universidades ou por instituições que até certo tempo não muito remoto eram chamadas de Faculdades, são instituições que oferecem diploma para se exercer uma profissão. Mas nem por isso são chamadas de instituições de "educação profissionalizante". A gente já pode ver aí um viés ideológico, isto é, O termo "profissionalizante" é pra pobre. Um exemplo claro disso foi o retumbante fracasso do Parecer 45/72 do então Conselho Federal de Educação (hoje Conselho Nacional de Educação), emitido logo após a Reforma Educacional de 1971 (Lei Federal 5.693/71, promulgada durante o período da ditadura militar. O Parecer 45/72 detalhava a profissionalização no então chamado Ensino de 2º Grau (hoje Ensino Médio). Essa parte da lei 5693, regulamentada pelo Parecer 45 do CFE, "não pegou", como se diz. No Brasil temos isso: uma lei pega ou não pega. O que é preciso haver formação de pessoas para que possam trabalhar, e bem, nas diferentes esferas da cadeia produtiva, isso com certeza. Mas esse é um problema que o Brasil ainda não conseguiu equacionar a contento.

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