quarta, 22 de maio de 2019
Entrevista
Compartilhar:

Entrevista: reitor do IFPB fala sobre os desafios

Katiana Ramos / 26 de novembro de 2017
Foto: Rafael Passos
Referência na formação tecnológica, o Instituto Federal da Paraíba (IFPB) possui 21 campi no Estado, oferecendo turmas de ensino médio integrado, técnico, superior e avançando também na área de pós-graduação e Educação a Distância (Ead). O reitor da instituição, Cícero Nicácio Lopes, falou sobre os desafios de manter uma formação de qualidade aos estudantes e ainda como prepará-los para o mercado de trabalho e a inserção na pesquisa acadêmica.

O IFPB trouxe para João Pessoa a 41ª Reunião dos Dirigentes da Rede Federal de Educação Científica e Tecnológica (Reditec 2017). Como o senhor avalia esta edição do evento? - Acredito que nós conseguimos despertar um sentimento de boa acolhida, de humanização. As pessoas, de um modo geral, externaram esse sentimento. Além disso, discutimos temas importantes relacionados à educação no País, como a conferência sobre o PNE, sob o comando do professor Luis Fernando Dourado. Ele problematizou os temas que estão inseridos no escopo de atuação da competência da rede federal e dialogou extraindo trechos que estão consignadas no plano e afetam diretamente a nossa área de competência. A Reditec favoreceu essa troca sobre as nossas práticas, metodologias, graduações, cursos técnicos e ensino médio

Dentro desse contexto de trocas de experiências, como o IFPB trabalha a preparação dos alunos para o ingresso no mercado?

- Nosso grande foco é a gente oferecer ao nosso estudante uma base humanística e uma tecnológica. Não é a velha discussão do caráter dual ou dicotômico, do tecnicismo e humanismo, como se fossem duas vertentes distantes. É a gente estabelecer um procedimento de confluência, de aproximação dessas duas correntes. Ou seja, a partir de uma base humanística, nós oferecermos aos nossos estudantes condições teóricas para que ele ao sair da instituição tenha uma formação sólida que o conceda aptidão para que ele se posicione com criticidade, numa perspectiva analítica diante dos fenômenos sociais. Tudo isso à base humanística suscita no estudante.

Qual a importância de se trabalhar essa integração entre ensino técnico e humanização dos futuros profi ssionais?

- A gente não quer aquela velha tese do “estudante apertador de parafuso”. A tecnologia é preparar com solidez, habilidade e competência para que o estudante acesse a empregabilidade com preparação e reconhecimento por parte do meio produtivo, do mundo do trabalho. Quando você tem o diálogo entre as duas bases – humanística e tecnológica - ai é o nosso ponto central. Então, queremos que esse estudante saia daqui como um cidadão com consciência de politização.

Com a expansão dos campi, como o instituto tem trabalhado com os estudantes os pilares do ensino, pesquisa, extensão e inovação?

- Nós experimentamos um processo de expansão muito consistente, passando a ser uma instituição multicampi e pluricurricular. Esses dois elementos dão uma dimensão da nossa nova identidade. Multicampi, porque nós penetramos no interior e, ao mesmo tempo, estamos com uma formação pluricurricular, trabalhando nas múltiplas modalidades de ensino (tencnológico e educação a distância, que é uma ferramenta de inclusão). Quando o instituto ganhou essa nova identidade passou a atuar nessa tríade – ensino, pesquisa e extensão – e mais uma, que é a inovação, com essa capacidade criativa e empreendedora dos nossos estudantes em desenvolver protótipos, dispositivos.

De que maneira isso tem se refletido na qualidade do ensino ofertado pelo IFPB?

- O instituto se desenvolveu com essa dinâmica para que os estudantes pudessem trabalhar com pesquisas mais aplicadas e com os ensinamentos teóricos e decodificados em sala de aula que possam dialogar com praticidade para que esses ensinamentos resultem em efeitos práticos para a sociedade.

Ainda sobre essa expansão do IFPB para o interior do Estado, como está a assistência aos alunos mais carentes?

- 81% dos alunos do IFPB têm renda familiar abaixo de um salário mínimo e meio e o instituto assiste a esses meninos cujos pais pagam impostos com muito sacrifício, tirando da terra o sustento, uma vez que a maioria é filho de lavrado. Então, o instituto oferece vale alimentação, auxílio moradia, auxílio transporte para os que precisam. Tudo, por meio de uma triagem feita pela assistência social, para que esses alunos possam continuar os estudos. Todos os campi contam com essa assistência. O mais importante de tudo isso é o mecanismo de fixação do estudante. Se ele estuda os dois turnos e não tem condições de pagar pelas refeições ou ir e vir de casa todos os dias, como ele vai continuar? Tem gente que acha que isso é despesa. Mas, para nós, é investimento.

Há também assistência aos estudantes que se interessam pela pesquisa acadêmica?

- Os alunos também ganham bolsas de incentivo para participar de projetos de pesquisa. Esse aluno desenvolve suas habilidades para conceber essa pesquisa ou em projetos de extensão em comunidades. Você desperta a sensibilidade social e o compromisso deles com os excluídos e o talento desses estudantes junto com a sensibilidade resulta em produções científica cujo resultado é essencialmente melhorar as condições de vida do País.

E com relação ao esporte?

- Nós temos os jogos dos estudantes da rede dos institutos federais. Temos as competições locais, regionais e nacional e muitos alunos se destacam nessas competições. Têm exemplos de atletas de origem pobre, da zona rural, que estão se destacando até nacionalmente.

Em meio aos cortes no orçamento que as instituições de ensino superior tem sofrido, como está o andamento das obras dos novos campi do IFPB?

- Temos cinco grandes obras em andamento: Santa Rita, Itabaiana, Esperança, Catolé do Rocha e Itaporanga. Cada instituto tem aproximadamente 200 estudantes. Por enquanto, as unidades estão funcionando em sedes provisórias cedidas pelas prefeituras desses municípios, mas as obras não pararam. Isso é muito positivo porque são recursos da população. Uma obra parada é deprimente porque são recursos públicos jogados fora.

Aqui na Paraíba temos uma unidade nova, que está com edital lançado para expansão em Santa Luzia. Como são escolhidos os cursos para as unidades do interior?

- Os cursos são escolhidos de acordo com os arranjos produtivos locais para a gente formar uma mão de obra que preferencialmente possa atuar no seu território. A pós-graduação e, mais recentemente, a área de inovação são novos desafios para os institutos federais.

Como o IFPB tem se preparado para isso?

- Temos a pró-reitoria de pesquisa, inovação e pós-graduação. Então, cada diretoria acadêmica dialoga com os campi e gerencia grupos de pesquisa em todas as unidades que integram o instituto. Como esses dois elementos são novos, temos cursos de especialização, mestrado em engenharia elétrica e de doutorado que está sendo preparado. A nossa essência é o ensino técnico, que a gente faz bem feito. Mas, estamos penetrando também nessa área de pós-graduação.

 Há expectativa para a criação de novos cursos de pós-graduação?

- O instituto vai oferecer, a partir do segundo semestre do ano que vem, um mestrado em Educação Profissional, que funcionará em rede e o instituto em João Pessoa será um dos polos. Temos um mestrado em Propriedade Intelectual que vai ser sediado em Campina Grande e temos um mestrado na área de Agroindústria, no campus de Sousa, no Sertão.

E as ações para promover os trabalhos em inovação?

- O instituto concorreu a uma chamada pública e foi contemplado com um pólo da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial). Dos 41 institutos que concorreram, apenas cinco tinham condições e o nosso foi um deles. A Embrapii vai investir em laboratórios, capacitação dos estudantes e preparação do ambiente e vai receber em troca o protótipo desenvolvido pelos estudantes para melhorar a empresa solicitante da demanda. Esse é um mecanismo através do qual o IFPB vai ter uma conexão com o setor produtivo para melhorar a competitividade das indústrias brasileiras. Então, ganha o estudante, que tem o talento valorizado; a indústria, que recebe o protótipo desenvolvido; e, consequentemente, a indústria contribui com o desenvolvimento do País e a empregabilidade.

Relacionadas