segunda, 21 de maio de 2018
Entrevista
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Entrevista: Cirurgião alerta para o “golpe do emagrecimento”

Luiz Carlos Sousa / 03 de setembro de 2017
Foto: Rafael Passos

O cirurgião Augusto de Almeida Júnior, presidente do Capítulo Paraibano da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) alerta para falsas promessas de emagrecimento rápido e sem esforço, o que está sendo prometido por alguns médicos. Ele diz que as cirurgias padronizadas são aquelas pesquisadas e aprovadas cientificamente, e que não adianta acreditar no “conto do emagrecimento”. Ao Correio Entrevista, pela RCTV Correio Web, Augusto de Almeida Júnior diz que o crescimento da obesidade se transformou num problema mundial, e que o Brasil e vice-campeão, ficando atrás dos Estados Unidos. Para ele, a alimentação rica em calorias, rápida, e a falta de exercícios físicos são as principais causas da obesidade, que hoje é um portal de doenças, com cerca de 70 delas já conhecidas e catalogadas, inclusive depressão e ansiedade.



- O aumento do número de cirurgias bariátricas deve-se ao crescimento dramático da obesidade?

- Esse é um tema que preocupa o mundo, principalmente os países das Américas. O Brasil é vice-campeão mundial em obesidade, perdemos para os Estados Unidos que nos ensinaram a comer errado.

- Por conta dos alimentos rápidos e calóricos?

 - Rápido, calórico e industrializado. E da forma como eles comem. Eles não param para fazer uma refeição como fazíamos há 40 anos: hora do almoço era uma reunião de família. Hoje não existe mais.

- Há muitas doenças que se manifestam por causa da obesidade?

- Temos quase setenta doenças decorrentes da obesidade. Digamos que a obesidade seria um portal, com as doenças se alojando ali.

 

- Quais são as principais?

- Primeira coisa que desenvolve: problemas nas articulações. No mínimo. Aí vêm as hérnias de disco, as artropatias, as discopatias, como problemas iniciais. Aí surgem as causas orgânicas mais fortes, como o diabetes tipo II.

- Aliás, o diabetes é um dos problemas mais pesquisados no mundo atualmente...

- É uma das doenças que mais se estuda, inclusive, se estuda uma cirurgia que possa ser feita em um diabético tipo II que não seja tão obeso. E outra doença grave que pode ser causada pelo excesso de peso é a hipertensão arterial.

-Essa relação com o peso é facilmente diagnosticada?

- Se vê isso bem quando a pessoa ou perde peso por causa de um tratamento clínico, nutricional, por atividade física ou cirúrgico. Perdeu peso, a pressão melhora e o diabetes – que é uma doença crônica. E o controle da glicemia pela cirurgia é uma realidade e temos resultados excelentes em relação a isso.

- O paciente é diabético, mas o Índice de Massa Corporal (IMC) dele ainda não recomenda a bariátrica, mesmo assim, ele pode se submeter à cirurgia?

- Como todas as grandes descobertas, o acaso foi determinante. Se começou a fazer um grande número de cirurgias bariátricas no mundo. E o que aconteceu? Não só a perda de peso, mas determinadas técnicas controlavam, quase que de imediato, os níveis de glicemia no diabético tipo II. Observou-se que o paciente, além de emagrecer controlava a glicemia, a hipertensão, a apneia do sono.



- A melhora foi geral?

- Os pacientes melhoravam de uma enormidade de doenças. E em relação à diabetes, que é uma grande preocupação, houve um momento em que se começou a pesquisar muito: como vou operar? Porque na cirurgia bariátrica há técnicas que são mais apropriadas para o paciente metabólico, ou seja, o diabético, com aumento de colesterol, triglicerídeos, acido úrico e técnicas que têm menos ação. São duas técnicas que são bem empregadas hoje.

-Quais são?

- O “bypass”, que é a cirurgia mais tradicional, onde se mexe no estômago e no intestino. E há também o “sleeve”, que transforma o estômago em um tubinho e não mexe no intestino.

- Como se dá a escolha por uma das técnicas?

- Se analisa o perfil do paciente para estudar as doenças que ele porta e enquadra não no que se gosta mais de fazer, mas no que trará, provavelmente, melhor resultado para ele.

-A técnica é cirurgia, mas o exame clínico é fundamental?

- A gente tem que conhecer o paciente que vai se submeter a uma cirurgia bariátrica, profundamente. Por isso que a bariátrica sem uma equipe multidisciplinar é falha. É como um time de futebol. Se não estiver bem treinado, o time pode até ganhar, mas joga feio e vai perder em breve. Minha equipe tem quase 18 anos. Poucas mudanças ocorreram e foram mais ajustes.

- A bariátrica não permite improvisações?

- A cirurgia em si não permite improvisos, a não ser a de urgência, que, às vezes, o cirurgião, de fato, tem que improvisar. Mas a cirurgia eletiva, que foi programada, não admite que se esteja no centro cirúrgico fazendo testes. Se entra na cirurgia sabendo qual é o plano de voo. Só que a bariátrica ainda tem algo a mais: além da parte técnica, tem que ter também o conjunto, porque a gente está lidando com uma doença multifatorial, onde há certa de 70 doenças catalogadas decorrentes da obesidade.

- Quando a bariátrica é indicada sob pena do paciente que não a fizer, venha a morrer?

- Há parâmetros. E eles vão mudando com o passar do tempo. Hoje a gente ainda trabalha em cima do Índice de Massa Corporal (IMC), que vejo como método falho por ser uma equação dada pelo peso dividido pela altura ao quadrado. Se a pessoa tem um IMC entre 25 e 30, tem sobrepeso. Se tem entre 30 3 35, tem obesidade grau I. Entre 35 e 40, obesidade severa. Se tem acima de 40, tem obesidade grau III ou mórbida. E há uma subdivisão, os super obesos, aqueles pacientes com o IMC acima de 50. São aqueles que andam de carrinhos eletrônicos e cada vez gastam menos energia.



-O que influencia mais como causa da obesidade?

- É um conjunto de variáveis. Do meu consultório para cá (Sistema Correio) são três quilômetros. Se eu morasse num País onde houvesse segurança eu viria a pé, o que seria extremamente saudável. Mas não tenho condições de andar a pé nem 300 metros por medo da violência. Então são questões que vão se juntando.

- Por exemplo?

- Você não tem condições de ter mais uma cozinheira em casa, que faça uma comida saudável, passa no supermercado e compra comida pronta ou vai num self-service e come o que tiver, algo preparado para que se olhe, se encante e faça um prato grande. E quando você está mais avexado ainda, come um sanduíche, um big alguma coisa. E tome caloria. Então, esse conjunto é o que trouxe a obesidade. Além da falta de atividade física, que eu coloco como o primeiro item: se alguém faz atividade física, emagrece.

- O que parece é que a equação não fecha?

- É porque nós precisamos viver em equilíbrio. Se esse equilíbrio não é estável, se queima mais do que ganha, se perde e vice-versa. Isso, inclusive, no paciente que se submeteu à cirurgia bariátrica. Por isso que há exemplos: fulano fez cirurgia bariátrica e engordou. Por quê? Porque ele desequilibrou o organismo novamente. Voltou a comer nem que seja feito um pinto – devagarzinho – e não gastou as calorias. Ele não entendeu o processo. Daí a importância da equipe multidisciplinar para fazer o paciente ter conhecimento de tudo isso. Não adianta fazer a cirurgia e deixar para lá.

- Mas quando ela é indicada?

- A partir do IMC de 35, que é a obesidade severa com pelo menos um problema de saúde relacionado à obesidade, inclusive depressão e infertilidade, que podem ser desencadeadas pela obesidade.

- E a ansiedade que leva muita gente a comer quase que desesperadamente?

- Eu digo que a maior cauda para engordar é a ansiedade. Engorda tanto que, muitas vezes, se trata, clinicamente, a obesidade com ansiolíticos, antidepressivos. São medicações usadas para diminuir o ritmo da pessoa, diminuir a ação, para tirar a ansiedade. Por isso fazer atividade física com frequência é importante. Porque parece que você desintoxica, joga fora um pouco da ansiedade. E com o IMC acima de 40, em todas as situações.

- Como o senhor descreve a bariátrica?

- É uma cirurgia muito bem padronizada e o que é padronizado, normalmente, tem bons resultados. Todas as formas que se inventar no mundo para alguém perder peso pode se vender a preço de ouro que quem tem excesso de peso, diabetes e hipertensão, vai comprar, até mesmo algo inverídico ou apresentado sem pesquisa científica alguma.

- É a promessa de se emagrecer sem esforço?

- Há um mercado muito grande, pernicioso, muita gente com má fé, muitos tratamentos sem comprovação científica sendo jogado aí nas redes sociais para vender o emagrecimento. E é tão grande que dentro da própria cirurgia temos isso. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) padroniza a cirurgia.



- Inclusive ás técnicas?

- Temos quatro técnicas padronizadas que são permitidas no Brasil, duas em desuso, mas podem ser utilizadas. E há cirurgião, que sequer é da SBCBM, e acha de reviver cirurgias, que foram testadas há mais de 50 anos, e que não são mais realizadas hoje.

- Há denúncias de médicos utilizando técnicas que não estão aprovadas ainda...

- Isso realmente existe. Dentro da cirurgia, algumas pessoas estão buscando técnicas que não existem mais, e as apresentam como novas ou fazem cirurgias que não fazem parte do rol. E o interessante é que os que mais caem nesse conto são pessoas intelectualizadas. Se eu lhe prometer emagrecimento você comendo muito, eu sou o melhor cirurgião do mundo. Se isso existisse o mundo inteiro estaria fazendo. E eles cobram caro e não fazem por convênios nem por filantropia.

- Há recomendação em relação à idade, ou jovens e idosos podem se submeter à bariátrica?

- A cirurgia hoje pode ser feita, normalmente, nos pacientes com idade entre 16 anos e 64 anos. Esse é o protocolo básico, mas já operei paciente com 75 anos. E se uma pessoa com 13 anos de idade apresentar o quadro que tem como única saída uma cirurgia precoce, se pode operar. O ideal é que a pessoa termine a adolescência. Se eu for operar um paciente com 16 anos, tenho que abrir um protocolo diferente.

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