quinta, 26 de novembro de 2020

Cidades
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Entidades somam qualidades e fazem um mundo diferente para crianças com câncer

Alyf Santos / 15 de agosto de 2016
Foto: Rafael Passos e Nalva Figueiredo
Um diagnóstico de câncer em um filho nunca é bem-vindo e acaba fazendo o ser humano viver um turbilhão de pensamentos negativos. Agora, imagine um diagnóstico de câncer associado a uma distância de mais de 400 quilômetros do hospital referência no tratamento, nenhum parente na cidade onde ele fica instalado e, na maioria das vezes, nenhuma condição financeira de se manter longe de casa?

Essa é a realidade de incontáveis pacientes paraibanos, que deixam suas cidades no interior do Estado para tratar a doença em João Pessoa. O sofrimento só não é maior porque há lugares especiais que acolhem muitos meninos e meninas que lutam contra o câncer, como é o caso da Casa da Criança com Câncer e da ONG Donos do Amanhã.

E, assim com pacientes e familiares são obrigados a enfrentar desafios diários para se manter de pé, os responsáveis pelas entidades também travam batalhas para fazer com que elas permaneçam com as portas abertas, pois vivem de doações, que nem sempre chegam.

Casa da Criança com Câncer

A Casa da Criança com Câncer começou sua missão atendendo seis crianças. Hoje são mais de 82. E manter esse atendimento custa caro. São, pelo menos, R$ 25 mil por mês para manter as equipes multidiciplinares, enfermeiros, fisioterapeutas e outras especialidades de suporte ao tratamento. Além disso, há também os encargos sociais, que não são dispensados. São dez funcionários que trabalham com a ajuda de 30 voluntários.

Segundo a direção da casa, atualmente a entidade não registra nenhum tipo de dívida. Entretanto, não é fácil manter as contas no azul. “Se fossemos dispensados desses encargos sobraria dinheiro para outras coisas. Mas e graças a Deus as nossas contas estão todas quites”, assegura o coordenador da Casa da Criança com Câncer, Geraldo Vicente, acrescentando que os encargos giram em torno de R$ 7 mil.

Além de ofertar estadia e alimentação, a Casa da Criança também oferece tratamentos odontológico, psicológico e outras especialidades médicas. As crianças recebem, ainda, uma cesta básica e latas de leite para ajudar no consumo familiar. O translado de cada criança até o hospital para o tratamento também é por conta da entidade.

E tudo isso só é realizado porque existem os doadores, que nem sempre se identificam, mas que surgem como verdadeiros anjos vestidos de seres humanos. “No final do ano passado um cidadão chegou aqui, era um servente de pedreiro, mal vestido, queria fazer uma visita a casa. Só que tem que agendar as visitas. Não é normal você chegar e entrar, existe essa organização. Mas ele estava tão aflito para conhecer, que eu permiti a sua entrada. Ele disse: Posso falar com o senhor? Eu: pode. Eu moro no Cristo Redentor, sou ajudante de pedreiro e eu não posso fazer muita coisa, mas vim fazer uma doação, meu coração pede isso. Esse homem nos doou mil reais. E nos emocionou”, contou Geraldo Vicente.

Há também os que nem se identificam, apenas se doam. “Teve um dia que não tínhamos um quilo de carne para as nossas crianças comerem no almoço. Quando foi um tempo depois, parou um caminhão na frente da casa com 300 quilos de carne. Até hoje não sabemos de onde vieram aquelas carnes. Era carne verde de primeira qualidade. Guardamos e fizemos uma grande festa ao ver nosso freezer cheio”, disse o fundador da Casa da Criança, Gilson Espínola.

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A ajuda e o necessitado

Quem está conhecendo de perto o bem estar de uma casa de acolhimento é a dona de casa Lucileide Rodrigues. Moradora de Itaporanga, 419 quilômetros da Capital, há menos de um mês ela chegou à Casa da Criança com Câncer para cuidar da sua filha no Hospital Laureano. Além de ter que lutar pela cura da doença, Lucileide ainda se preocupa com a sua casa, onde deixou marido e outro filho.

“Eu não queria está por aqui, mas não escolhemos os nossos destinos. E se não fosse esta casa de apoio eu não teria condições de ir e vir para tratar minha filha no Hospital Laureano. Aqui já sinto que é um pedacinho do céu para todos nós que estamos recebendo os cuidados e amor desse povo”, expressou Lucileide.

Ao contrário de Lucileide, Eli Ventura não frequenta a casa por ter algum parente doente. Ele dedica um pouco do seu tempo para a Casa da Criança com Câncer realizando trabalho voluntário na área de comunicação da entidade. “Se cada um fizer um pouquinho por essas crianças, elas agradecerão bastante. Não é preciso só ajudar com dinheiro, ajude com um abraço e bastante carinho. Vale apena ver no rosto das crianças e de sua mãe o lindo sorriso quando recebem uma ajuda, não importa qual o tipo”, diz.

São histórias diferentes, mas duas palavras de ordem rodeiam estas pessoas: superação e solidariedade. Para o fundador da Casa da Criança com Câncer, Gilson Espínola, os 19 anos da entidade se resumem na missão de ajudar as pessoas que precisam de uma boa acolhida para encarar a peregrinação da doença que foi acometida. “Se todos fizessem um pouquinho de cada vez para ajudar essas crianças, todos receberiam a sua gratificação por meio das suas boas ações. O meu desejo maior é que nesta casa nunca falte comida e gente de boa fé que vem nos ajudar para que a nossa entidade continue muito bem”, comentou.

Donos do Amanhã

Há onze anos a ONG Donos do Amanhã oferece acolhimento para mais de 225 crianças de toda parte da Paraíba. A entidade trabalha estimulando a autoestima dos enfermos e do seu acompanhante oferecendo amor e os serviços essenciais médicos, como por exemplo, pagando exames que não esperam pelo tempo do Sistema Único de Saúde (SUS). Além desses serviços, os pacientes recebem ajuda como cestas básicas e latas de leites.

Contudo, para que tudo isso aconteça é preciso doar. “Esses 225 pequeninos recebem cestas básicas, seis latas de leite em pó e duas latas de suplementos alimentares. Quando estão internadas a gente abastece de fraldas descartáveis e alguns exames que eles necessitam. Os recursos para fazermos tudo isso vêm das doações que recebemos”, comentou Cristiani Lemos, gerente administrativa da entidade.

Há mais de seis meses Kátia da Silva teve que abdicar de tudo para ficar ao lado do filho Anderson da Silva, de apenas 12 anos de idade. A luta e o grande desafio neste momento é vencer uma doença genética provocada nas células da pele, xeroderma pigmentoso. “Tive que parar tudo para me dedicar ao meu filho. A Donos do Amanhã é minha segunda casa pelo motivo de nos acolher de nos oferecer coisas boas, depois de um longo dia vendo um tratamento médico que nunca imaginei acontecer com meu filho”, disse.

Anderson da deixou os afazeres escolares e as brincadeiras de criança para se cuidar. O garoto não carrega lamentações e diz que aprendeu a amar o acolhimento das pessoas da ONG Donos do Amanhã. “Por mim ficaria aqui o tempo todo recebendo o amor das pessoas que trabalham neste lugar. Sempre choro quando o carro chega para levar eu e minha mãe para casa”, disse Anderson, acrescentado que o espaço da entidade é a sua fonte para esquecer os passos da peregrinação da doença e seguir sempre sorrindo.

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INCA

O Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca), estimam-se, para o Brasil, neste ano, 12.600 novos casos de câncer em crianças e adolescentes até os 19 anos. No Brasil, em 2013, ocorreram cerca de 2.800 mortes por câncer em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos de idade. As neoplasias ocupam a segunda posição de óbitos ocorridos naquele ano, ficando abaixo somente das mortes por causas externas, configurando-se como a doença de maior letalidade.

Na Paraíba

Segundo a secretaria de Estado de Saúde, do ano passado até o momento foram registrados 72 óbitos por neoplasia em crianças, sendo 54 em 2015 e 18 este ano.

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