sábado, 28 de novembro de 2020

Educação
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SOS professor: por que o reforço escolar entra cada vez mais cedo na vida das crianças?

Laysa Andrade / 23 de fevereiro de 2016
Foto: Laysa Andrade
O reforço escolar sempre foi uma alternativa para os pais de crianças que não estão se saindo bem na escola e, portanto, é comum que no fim do ano os locais que oferecem esse serviço estejam cheios. Porém, esse cenário tem mudado nos últimos tempos e o pacote de começo de ano letivo que inseria apenas matrícula, material e livros agora acrescentou as aulas extras.

A procura tem aumentado tanto nesse período que cartazes com endereços e telefones de reforços escolares já podem ser vistos espalhados em prédios e até nas ruas das cidades. E são vários os motivos que justificam esse acontecimento, desde a falta de tempo dos pais, até mesmo ao fato de eles não conseguirem mais acompanhar os conteúdos aplicados nas escolas atualmente.

Esse é o caso da dona de casa Ceneide da Silva Bezerra.  Ela estudou até o 6º ano do ensino fundamental e ajudar o filho mais novo nas tarefas escolares passou a ser complicado. Ela relatou que Natan da Silva Bezerra, de 13 anos, sempre foi esforçado e, como consequência, tirava boas notas. Mas, a dificuldade da mãe e a falta de auxílio nos deveres de casa refletiram no desempenho de Natan, que acabou reprovado.

A partir da reprovação do filho Ceneide percebeu que para as dificuldades encontradas a solução seria matricular Natan no reforço escolar e, assim, ele teria com quem tirar as dúvidas mais frenquentes que vinham guardadas na mochila da escola. “Eu coloquei ele no reforço porque ele tem dificuldade de entender os assuntos e eu não sei ensinar. A escola é muito boa, mas o reforço ajudou no desenvolvimento dele. Tanto que ele não reprovou mais”, falou.

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Pais têm cada vez menos tempo em ajudar

Contudo, a dificuldade em ajudar os filhos com as tarefas escolares não é o único motivo que leva os pais a procurar o reforço escolar, de acordo com a professora Emmannuelly Eufrasino. Ela conta que a falta de tempo dos responsáveis pelas crianças em auxiliar com o conteúdo também tem feito o reforço entrar cada vez mais cedo na vida dos estudantes. "Muita gente coloca os filhos no reforço porque não tem tempo. Trabalha o dia todo ou estuda também e quando chega em casa está cansado", falou.

Emannuelly acrescenta, ainda, que as aulas extras realmente podem surtir efeito e preencher as lacunas deixadas pelos pais, mas é necessário que os professores saibam como exercer o seu papel. Para ela, o objetivo do reforço é trabalhar na dificuldade do estudante, fazendo com que ele possa superá-la e não apenas fazer a tarefa trazida da escola. "Os professores de reforço devem ajudar nas atividades escolares, porém, sem responder o exercício no lugar do aluno, pois muitos educadores fazem isso e não ajudam o estudante a entender, de fato, o tema estudado", alertou.

Aprendizado deve ser prazeroso

As aulas do reforço escolar, contudo, não podem parecer um sacrifício e nem uma penalidade para a criança ou o adolescente. É o alerta feito pelo especialista Wilson Aragão, diretor do Centro de Educação da Universidade Federal da Paraíba. Ele explica que uma atitude muito comum entre os pais é colocar seus filhos no reforço como forma de punição por um mau desempenho acadêmico, fazendo com que os momentos que seriam de lazer sejam substituídos pelas aulas.

Para Wilson, essa não é a forma correta de disciplinar, pois quanto mais os estudantes veem as aulas como forma de castigo, menos eles vão se interessar pelo conhecimento. Ele acrescentou que também é função dos pais passarem aos filhos que o momento de estudo é algo prazeroso e divertido, pois só assim as crianças e os adolescentes terão realmente vontade de estudar. “Educação por impulsão não é educação, é adestramento”, falou.

O especialista vai ainda mais longe. Wilson reconhece que é preciso observar se a barreira que impede o aluno de aprender, sem necessitar de reforço, não está sendo encontrada dentro da própria escola. "É normal que alguns alunos tenham mais complicações do que outros, mas quando 50%, ou mais, das crianças não conseguem aprender determinada disciplina a culpa não é dos estudantes, mas do professor, que não sabe passar o conhecimento de forma clara, e da instituição que precisa possuir um método de ensino que torne o conhecimento agradável", ressaltou.

Dificuldade pode estar além

Para alguns alunos o problema vai além dos pais, professores e instituições. Nesses casos é preciso compreender o que, de fato, está atrapalhando o estudante. De acordo com a pedagoga, Jéssica Ferreira, além da falta de estímulo familiar ou do baixo repertório cultural, a criança pode possuir distúrbio neurológico, como a dislexia, por exemplo, que é compreendida como sendo a dificuldade na leitura e escrita, fazendo com que o aluno inverta sílabas, pule algumas linhas ao ler um texto, possua uma leitura lenta, entre outras dificuldades.

"Outro problema, bastante desconhecido, é a descalculia, que se trata da dificuldade para entender cálculos, números, enunciados de problemas, entre outros. Portanto, é necessário que essas inabilidades sejam descobertas para que se inicie um tratamento", esclareceu.

A pedagoga também afirma que se a criança estiver passando por algum momento emocional, como a separação dos pais, ou até mesmo o abuso sexual, isso irá afetar diretamente na aprendizagem do estudante. E, nesses casos, a dificuldade pode ser passageira, desde que seja feito um acompanhamento adequado.

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