terça, 16 de julho de 2019
Educação
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Programa muda educação de crianças e adolescentes no Brejo

Lucilene Meireles / 07 de abril de 2019
Foto: Divulgação
O brejo paraibano é uma região conhecida pelo clima frio da serra e pela beleza verde da paisagem. Porém, além dos encantos da natureza, a localidade se destaca por projetos voltados para a área de educação que têm contribuído para mudar a realidade no processo de formação de crianças e adolescentes. Um deles é o Programa Escolas Transformadoras que, de fato, transformou o período das aulas – encarado por alguns como cansativo e desestimulante – em momentos prazerosos para os estudantes de uma unidade no município de Bananeiras, a 129 km de João Pessoa.

A Escola Nossa Senhora do Carmo, que é comunitária, é a única do Estado a adotar o programa. Localizada no Sítio Monte Carmelo, zona rural da cidade, começou o projeto em julho de 2005. Essa história teve início num ambiente humilde, na sala da casa de um lavrador aluno, onde funcionou até 2006. Em 2007, ganhou sede própria, construída com doações dos Irmãos Maristas e recursos do Ministério da Educação (MEC). O projeto, inicialmente, foi pensado para alfabetizar os lavradores do entorno do sítio. Porém, em 2007, passou a atender também os filhos, com educação infantil e ensino fundamental.

“Sempre pensamos em fazer da escola nova uma nova escola e, assim, fomos constituindo práticas que traziam o protagonismo do educando no processo de construção do conhecimento, uma gestão democrática como princípio de uma escola compartilhada e uma intrínseca relação com a comunidade na qual está inserida como fundamento da práxis. Até que em 2015, derrubamos os últimos muros internos: retiramos o sistema de seriação, a sala de aula, a aula, provas e o currículo imposto. Passamos a trabalhar com os educandos juntos, independente da seriação, integrados pelos projetos construídos coletivamente”, explicou a diretora da escola, Leila Coelho.

Ela explicou que as escolas ditas transformadoras são aquelas que propõem outras alternativas em educação, trazendo no fazer pedagógico a busca da autonomia do estudante, a prática da liberdade e a empatia. “O aluno tem a escolha de estudar o que tem curiosidade e de escolher como quer e onde desenvolver sua pesquisa, de ter o olhar para o desenvolvimento das competências em detrimento do conteúdo, de promover a empatia como princípio de convívio acolhedor e da potência do sentir e agir”, acrescentou.

O que há de diferente?



Nas Escolas Transformadoras, o aluno deixa de ser paciente da ação pedagógica e passa a ser agente, sujeito de sua aprendizagem. Tem a liberdade de dialogar com seu tutor, de ser ouvido, de ter seu conhecimento valorizado, de ver seu interesse se transformar em objeto de estudo, de tomar decisões colegiadas que definem as ações escolares.

“Todo o processo pedagógico é invertido, nada está pronto e imposto, a construção do processo educativo é dinâmica e transdisciplinar e a convivência é dialógica. O resultado de tudo isso: temos educandos mais preocupados com o outro, mais reflexivos sobre o ser e estar no mundo e sem sombra de dúvidas, crianças e jovens bem mais felizes, que sentem prazer de estar na escola. O mais importante para nós são os interesses do educando, suas necessidades, descobrir e encorajar suas aptidões e potencialidades, respeitando sempre sua história e sua cultura”, observou Leila Coelho.

Ela explicou que o ponto de partida da ação pedagógica é perguntar para cada um o que ele quer aprender. Dessas curiosidades nascem projetos de pesquisas. Dos projetos, nascem os roteiros de aprendizagem, com o objetivo de atingir os objetivos específicos e geral do projeto.

“Assim, temos educandos de diferentes idades estudando o mesmo projeto, com diferentes estágios de aprendizagem, mas com roteiros individuais. Esse tipo de proposta tem nos permitido perceber o ritmo de cada pessoa e a respeitar o tempo de cada educando, que pode ir além ou demandar um pouco mais de tempo do que o estipulado pelas resoluções”, acrescentou.

“Sem dúvida, o nível de aprendizado de nossas crianças e jovens tem sido muito superior ao de antes da mudança, tanto no aspecto cognitivo, como no social e afetivo. No resultado da Prova Brasil de 2017, ficamos à frente de todas as escolas de nosso município, de nosso estado e só ficamos atrás das federais”, diz a diretora da Escola Nossa Senhora do Carmo.

História da escola e a luta para construir sede própria



A Escola Nossa Senhora do Carmo não é municipal. Até 2016, era um projeto social das irmãs carmelitas, constituída como escola confessional, sempre dirigida por um grupo de leigos, por conta do estilo de vida de clausura das monjas. Em 2017, elas se viram impossibilitadas de continuar a responder como Entidade Mantenedora da escola por questões internas da ordem, e o grupo de educadores, funcionários e pais resolveram constituir uma cooperativa de desenvolvimento social, sem fins lucrativos, para manterem o projeto vivo.

Hoje é uma escola comunitária, que luta para construir sua sede própria. A escola sobrevive inteiramente de doações e parcerias. “Ganhamos um terreno, temos um projeto de escola dos nossos sonhos, pensada por toda a comunidade escolar, desde a estrutura física, metodologia, vivências e valores. Estamos em campanha de arrecadação de recursos e materiais de construção, onde estamos fazendo a escola em regime de mutirão com a comunidade escolar.

“O ingresso na rede das escolas transformadoras trouxe para nós o reconhecimento do trabalho que fazemos. Sabemos que o que estamos fazendo no chão de nossa escola é um grande trabalho e que aponta um caminho de transformação social para todos os sujeitos escolares, ou seja, educandos, educadores, pais e demais funcionários”, disse Leila Coelho, diretora da escola.

Ser uma escola transformadora também trouxe, segundo ela, visibilidade. “Somos uma escola comunitária que vive de parcerias e doações, o que não é fácil. Assim, na medida em que nos tornamos conhecida, aumenta a credibilidade de nosso trabalho. Esperamos aumentar nossos parceiros para manter o projeto vivo.

Ensino tem nucleações e não anos



A LDB (Lei de Diretrizes e Base) para a educação, em seu artigo 23, possibilita a diversidade da organização escolar, de acordo com a proposta pedagógica da escola, dando autonomia para a unidade na organização de seu ambiente educativo. “Acreditamos que os educandos aprendem mais pelas trocas e relações em grupo, bem como na potência do saber partilhado, da ajuda mútua e de uma aprendizagem colaborativa. Assim, elas se reúnem não por idade/série, mas por projetos afins”, disse Leila Coelho.

“Em nossa escola, a divisão em núcleos de aprendizagem, se define a partir dos estágios de construção do conhecimento para o segmento educativo que dispomos na escola da educação básica, de acordo com as competências exigidas para cada segmento”, disse.

Atualmente, são definidos três núcleos de aprendizagem, de acordo com o grau de construção das competências a serem adquiridas durante o tempo escolar. O primeiro núcleo é o da fase de iniciação da criança no espaço escolar, da adaptação, sociabilização e assimilação dos valores e prática, e aquisição da escrita.

O segundo núcleo corresponde à fase de desenvolvimento do processo educativo, letramento, linguagens e do raciocínio lógico e argumentativo. O último núcleo, o de aprofundamento, ampliação do conhecimento nas diversas áreas do conhecimento e nos valores que constituem os pilares educativos da escola.

A escola ainda não tem ensino médio, mas a ideia é oferecer em breve. “Tudo o que nossos educandos não querem é sair da escola. Por falta de recursos, ainda não ofertamos, mas é um desejo de todos. Seria para nós o núcleo de consolidação”, esclareceu Leila Coelho.

Intenção é expandir rede



Em 2018, aconteceu um encontro de educação em Bananeiras onde foi discutida com os educadores da região a temática de lançamento do livro do Instituto Alana, sobre o "O ser e o agir transformador – para mudar a conversa sobre educação”, com as experiências das escolas da rede de educação transformadora, certificada pela Ashoka/Alana, onde a escola entrou na rede, sendo reconhecida, a primeira e única, até agora, do Estado da Paraíba como tal.

No encontro, o professor José Pacheco, fundador da Escola da Ponte, em Portugal, uma das maiores referências em escolas transformadoras, sugeriu a criação de um núcleo para discutir educação transformadora. Um mês após o encontro, foi formado o núcleo composto por educadores de escolas públicas municipal e estadual, das universidades federal (UFPB) e estadual (UEPB) da Paraíba, escolas particulares, ONGs, representantes de secretarias de educação municipal e estadual e os educadores da escola.

O objetivo era dar apoio aos educadores e às iniciativas, trocar experiências. O grupo, que começou com 51 educadores e tem hoje 131 membros de toda a Paraíba, se encontra uma vez por mês em cada segmento representativo do núcleo. É aberto para quem desejar buscar novas alternativas em educação.

No final de março, foi realizada a primeira Conane Paraíba, uma conferência nacional que ocorre de dois em dois anos. No Estado, o evento reuniu mais de 300 educadores em busca de novas alternativas para a educação.

Escola Nossa Senhora do Carmo



269 educandos com idades entre 4 e 15 anos.

24 educadores

7 oficineiros

14 comunidades rurais e 3 urbanas atendidas.

Depoimentos de alunos



Alícia, 10 anos - “Aqui, a gente pode estudar no lugar que quiser, em árvores, no parque, no refeitório. E não é por série e sim núcleos. O primeiro, de 4 a 6 anos, é o de iniciação. O segundo, de 6 a 10, é o desenvolvimento. A nucleação três é o aprofundamento. E se a escola tiver o ensino médio, vai ter concretizamento. Na escola tradicional, a professora só anotava no quadro e o aluno respondia. Na nova escola, o aluno divide os conhecimentos, escolhe o que quer estudar”.

Jailton, 13 anos - “Não temos provas, mas métodos de avaliação onde os instrutores, a direção e a coordenação observam se o aluno está indo bem. O tutor vai falar o que a gente aprendeu naquele roteiro. Tem o roteiro da aprendizagem, onde estão os assuntos que queremos estudar junto com os conteúdos. E tem também a avaliação do dia, ou seja, no final da aula, relatamos o que aprendemos”.

Cecília Martins, 12 anos - “Nas sextas-feiras, temos oficinas extra-curriculares, como dança, música, capoeira, percussão, cinema, inglês e educação física. Temos os comitês, que são os métodos que os alunos têm de ajudar a escola, biblioteca, espiritualidade, sarau. A metodologia tem o diferencial de envolver alunos e professores, que aprendem uns com os outros. No início, preenchemos uma ficha informando o que temos interesse de aprender, informamos o que sabemos. Aqui eu aprendo mais”.

Mães aprovam



Aline Miranda Fontes da Silva, mãe de Maria Cecília Miranda, de 5 anos e de José, 8 anos - “Antes da metodologia, meus filhos estavam desestimulados, sem interesse. Agora, eles têm prazer de estar na escola. Eles adoram e eu vejo quanto contribuiu, não só para o aprendizado, mas também os valores, o comportamento, tornando-os pessoas mais dignas, de respeito, humildes, solidárias. Eles vêm evoluindo nessa autonomia. Hoje, aprendem o que querem e isso motiva bastante o autoconhecimento”.

Carliana, mãe de Maria Júlia, que está no núcleo de iniciação - “Apesar do pouco tempo na escola, tenho observado grandes avanços no aprendizado de Maria Júlia. Ela apresenta boa interação com os colegas, motivação para ir à escola, é participativa. Seu projeto de interesse é o das árvores e, entre outras evoluções, aprendeu até a fazer a relação com seu cotidiano. Fico muito feliz e encantada com os avanços dela”.

Joselma da Silva Santos Martins, mãe de Cecília - “Destaco a relação escola-família. A escola é muita aberta ao diálogo e está em constante atenção com a família na busca de envolver a todos numa parceria, permitindo aos pais acompanhar o aluno e dar sugestões. Isso é fundamental para construir uma educação em que a família também é trabalhada junto com alunos, professores que se reúnem em assembléias para falar, dar idéias para que o processo educativo seja cada vez melhor. Além disso, as crianças recebem também muito carinho e amor no ambiente escolar”.

Ana Cristina Oliveira de Medeiros – “Tenho dois filhos na escola, um no núcleo de aprofundamento e outro no núcleo de conhecimento. A escola é importante porque, além da qualidade do ensino e da interação de todos, o desenvolvimento das crianças é visível a cada dia, e os pais podem participar das oficinas de artesanato. É muita coisa boa nessa escola e estamos dispostos a crescer juntos”.

Jaqueline Moisés da Silva, mãe de Francisco Andrade Leal Neto, 12 anos – “Meu filho está na nucleação de aprofundamento, mas estuda na escola desde que funcionava no modelo tradicional. A mudança trouxe oportunidade, tanto para mim, quanto para ele, e isso faz com que nós, pais, possamos estar cada vez mais perto, interagindo com a escola e acompanhando o processo de aprendizagem. Francisco participa da oficina de tambores, que ele adora. E a escola é realmente diferenciada, transforma nossas vidas”.

“Esse programa, assim como outras iniciativas, traz visibilidade para experiências educativas transformadoras. Isso é importante porque mostra que a educação no Brasil não é 'uma terra arrasada', apesar das inúmeras dificuldades e desafios a serem superados”, diz Raquel Franzim, cocoordenadora do programa ‘Escolas Transformadoras’ e coordenadora pedagógica do Instituto Alana.

Escolas Transformadoras



O programa Escolas Transformadoras é uma iniciativa da Ashoka, organização global que reúne empreendedores sociais de diversas partes do mundo. Foi lançada no Brasil em 2015, numa correalização com o Alana, organização sem fins lucrativos que aposta em projetos que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância.

Ele reconhece e conecta escolas em uma comunidade mais ampla formada por jornalistas, especialistas em educação e empreendedores sociais reconhecidos pela Ashoka. Essa comunidade se engaja e estabelece parcerias com órgãos públicos, faculdades de educação e veículos de comunicação para disseminar a visão de que todo estudante e educador é um agente transformação social.

De acordo com Raquel Franzim, cocoordenadora do programa Escolas Transformadoras e coordenadora pedagógica do Instituto Alana, essas escolas protagonizam soluções e respostas para os desafios que a educação no Brasil precisa superar. Ela disse que algumas dessas escolas pautaram políticas públicas em seus municípios ou estados. Outras viraram grande referência para a formação de professores.

“Isso não exime a responsabilidade do MEC, Estados ou os municípios com a transformação da educação. Quem está no chão da escola hoje muitas vezes é quem conhece e vem praticando as mudanças necessárias. Deveríamos escutar e conhecer melhor elas para o aprimoramento das políticas públicas de financiamento, formação de professores, trabalho com comunidade e território, implementação curricular”, observou.

Crescimento da rede



O Programa conecta pessoas, escolas, redes e faculdades da rede pública e privada.  “Acreditamos que todos podem transformar a realidade e vemos a escola como um espaço privilegiado para formar sujeitos de transformação social. Aprender é indissociável ao aprender a ser. O cultivo de valores como a empatia, trabalho em equipe, criatividade e protagonismo na escola contribui para a melhoria da qualidade da educação”, destacou Raquel Franzim.

Segundo ela, avaliações externas, como o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), têm cada vez mais se atentado ao ambiente escolar uma demonstração da importância deste tipo de educação. A expectativa é que, cada vez mais, o engajamento da comunidade inspire o surgimento de outras comunidades, redes, núcleos, projetos em universidades.

“Os materiais que o programa vem construindo nos últimos anos como livros, que são três até o momento, nos ajudam a chegar em cada canto do país. E principalmente apoiar todo educador, todo estudante a se reconhecer como um agente de transformação da sua própria vida, da sua escola, do seu território e porque não, do nosso país”, concluiu Raquel Franzim.

Materiais gratuitos produzidos pelo programa



Livros - https://escolastransformadoras.com.br/materiais/?_sfm_customProducao=materiais-do-programa)

Série Corações e Mentes, escolas que transformam, inspirada no Programa, disponível no endereço https://www.videocamp.com/pt

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