domingo, 15 de setembro de 2019
Educação
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Professor Trindade trata sobre ‘língua e linguagem’

João Trindade / 14 de julho de 2019
No idioma, temos a Língua e a linguagem. A língua é uma só, enquanto que existem várias linguagens. A língua é um padrão que pretende unificar a escrita e a fala no país, daí ser chamada língua-padrão, enquanto que a linguagem é a expressão de um grupo social, um ambiente, etc. e depende, sobretudo, do contexto de oralidade.

De modo que se estou na praia, expresso-me por meio de uma determinada linguagem; mas, se redijo um documento na repartição, expresso-me pela língua-padrão. É bom lembrar que durante muito tempo havia, nos concursos, questões apenas sobre a língua-padrão; hoje, já há questões envolvendo comparação entre os dois contextos; ou se pergunta por que a língua padrão não foi usada. Por exemplo: o uso da gíria ou da corruptela são perfeitamente aceitos num texto, desde que se esteja transcrevendo a fala de alguém que costuma fazê-lo. Tomemos, como exemplo, a seguinte letra de Humberto Teixeira, da famosa canção interpretada por Luíz Gonzaga:

Tudo em vorta é só beleza

Sol de Abril e a mata em flô

Mas Assum Preto, cego dos óio

Num vendo a luz, ai, canta de dor (bis)

Talvez por ignorança

Ou mardade das pió

Furaro os óio do Assum Preto

Pra ele assim, ai, cantá  mió (bis)

Assum Preto veve sorto

Mas num pode avuá

Mil vez a sina de uma gaiola

Desde que o céu, ai, pudesse oiá (bis)

Assum Preto, o meu cantar

É tão triste quanto o teu

Também robaro o meu amor

Que era a luz, ai, dos óio meu

Também robaro o meu amor

Que era a luz, ai, dos óio meu.

Será que o autor, Humberto Teixeira, não tinha noção de que aquelas palavras da letra, como, por exemplo, “vorta” “oiá” estavam erradas, em relação à língua-padrão? Claro que tinha. Apenas como o eu-lírico da composição era gente “sem instrução”, era natural que falasse daquela maneira. Em verdade, ele quis transcrever, o mais real possível, a fala do eu-lírico. A mesma coisa aconteceria se eu estivesse transcrevendo um diálogo entre duas pessoas que costumassem usar gíria.

Como seria, na língua-padrão, a letra?

Tudo em volta é só beleza

Céu de abril e a mata em flor

Mas assum preto, cego dos olhos

Não vendo a luz, ai, canta de dor (bis)

Talvez por ignorância

Ou maldade das piores

Furaram os olhos do assum preto

Pra ele assim, ai, cantar melhor (bis)

Assum preto vive solto

Mas não pode voar

Mil vezes a sina de uma gaiola

Desde que o céu, ai, pudesse olhar (bis)

Assum preto meu cantar

É tai triste quanto o teu

Também roubaram o meu amor

Que era a luz, ai, dos olhos meus. (bis)

Fizemos questão de transpor a letra para a língua-padrão, para que o leitor perceba o quanto o poema perderia em beleza e ritmo. Além do mais, ficaria bastante artificial. Todos  sabemos que as pessoas de mais baixo grau linguístico (sobretudo as do campo) prefere a forma “veve”, no lugar de vive. Notem como no verso 10, caso o poeta colocasse voar, quebraria totalmente o ritmo do poema.

E por que Assum Preto ainda hoje faz tanto sucesso?

Por que ao ouvirmos é como se estivéssemos vendo aquele matuto lamentando, triste, o cantar, igualmente melancólico, do Assum preto.

(Transcrito do meu livro “Português descontraído”. Editora Alumuns/Leya, 2018)

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