sábado, 19 de setembro de 2020

Educação
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Professor Trindade ensina português através de textos da Bíblia; confira

João Trindade / 13 de novembro de 2016
Foto: Divulgação
Considerada por muitos como “livro sagrado”; por outros como uma “grande obra de ficção”, a Bíblia encanta, não só pela diversidade de metáforas e imagens, pela perfeição do estilo, bem como pela correção da linguagem. Não é à toa que os maiores autores da literatura brasileira, entre eles os declaradamente ateus Graciliano Ramos e Machado de Assis, citavam-na como a maior obra que já haviam lido e como “livro de cabeceira”.

A seguir, trechos dela, analisados à luz do nosso idioma:

Mateus 1.18:

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se juntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo.”

Esse versículo nos faz observar o seguinte: Após dois pontos, usa-se letra maiúscula se a pessoa vai começar novo segmento semântico (novo bloco de ideias), e minúscula se o pensamento após os dois pontos é uma continuidade do anterior. Por isso, no trecho citado se usou letra maiúscula após os dois pontos. Usaríamos letra minúscula se disséssemos, por exemplo: Ontem à noite, próximo à lagoa, foram cometidos dois pequenos furtos: um em frente ao Bompreço e outro em frente ao edifício Viña Del Mar.

Observamos, ainda no segmento, a presença de um aposto explicativo: Maria, “sua mãe”. “Sua mãe” está explicando quem é Maria em relação a Jesus. As vírgulas foram usadas porque se usa vírgula para isolar o aposto explicativo. Desposada significa casada.

Idem, 1.19:

“Então José, seu marido, como era justo, e a não queria infamar, intentou deixá-la, secretamente.”

“Seu marido” é, também, aposto explicativo; está explicando quem é José em relação a Maria. Conforme já se disse, usa-se a vírgula para isolar o aposto explicativo. A oração “como era justo” equivale a porque era justo; é uma adverbial causal. Como está deslocada (no meio da principal) teria que ser isolada por vírgula. Infamar é atribuir má fama. Intentar, no texto, significa ter intenção. “La” é objeto direto de deixar. Deixá-la tem acento porque as formas verbais combinadas com pronome resultantes em oxítonos devem seguir a regra destes. ‘Secretamente’ é adjunto adverbial de modo.

Idem 1.20:

“E, projetando ele isto, eis que em sonho lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo.”

As vírgulas depois do ‘E’ e de ‘isto’ estão isolando a oração adverbial deslocada (reduzida de gerúndio) “projetando ele isto”. Note que a causa das vírgulas não é o conectivo E, mas sim o fato de a oração estar deslocada. A rigor, a expressão “em sonho” deveria vir isolada por vírgula, por ser um adjunto adverbial; no entanto, quando o adjunto adverbial é curto, admite-se descartar a vírgula. A vírgula antes de “dizendo” existe porque separa a oração anterior da oração adjetiva reduzida dizendo (= o qual disse). A forma “não temas” está na segunda pessoa do singular do imperativo negativo, que usa como suporte o presente do subjuntivo (que eu tema, que tu temas...). O sujeito, aí, está oculto. Não temas (tu).

“Não temas receber a Maria”. Na verdade, o verbo receber, no contexto, é transitivo direto: receber Maria. O narrador, por uma questão estilística, preferiu colocar a preposição A, dispensável. “Maria” é objeto direto preposicionado.

Idem 1.21:

“E dará à luz um filho e chamará o seu nome Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.”

“Dará à luz um filho”. O verbo dar, nessa construção, é transitivo direto e indireto. Temos “um filho” como objeto direto e “à luz” como objeto indireto. É interessante notar que após Jesus colocou-se ponto-e-vírgula. Poder-se-ia ter colocado vírgula. A questão é estilística: Dando uma pausa maior, o narrador deu mais ênfase à ideia de que Jesus salvaria seu povo dos pecados. O segundo “seu” seria dispensável.” Chamará” tem acento gráfico por ser uma palavra oxítona terminada em A. são acentuados os oxítonos terminados em A(s),E(s), O(s), ÉM, ÉNS. Na mesma regra se enquadra dará.

Idem 1.22:

“Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que foi dito da parte do Senhor, pelo profeta, que diz;”

Aqui tivemos, no mesmo período, as vozes passivas sintética e a analítica. “Para que se cumprisse” é uma sintética que equivale à analítica “fosse cumprido”. O SE, nesse caso, é pronome apassivador. “O que foi dito” é analítica que equivale à sintética “o que se disse”. O sujeito de “aconteceu” é tudo isso. “Profeta” é agente da passiva de foi dito. O agente da passiva é acompanhado de preposição; no caso, a contração pelo.

Idem, 1.23:

“Eis que a virgem conceberá, e dará a luz um filho, e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, que traduzido é Deus conosco.”

Gramaticalmente, não deveria haver vírgula depois de conceberá, porque a virgem é sujeito de ambas as orações (conceberá e dará à luz). Por uma questão estilística, porém, o narrador usou um polissíndeto (repetição insistente de uma conjunção) para dar maior ritmo ao texto e ênfase ao pensamento. É uma construção equivalente àquela famosa frase do poema bilaqueano: “Trabalha, e teima, e lima, sofre, e sua...”. A segunda vírgula, sim, deveria existir, porque o sujeito da oração que se inicia com chamá-lo-ão já é outro (indeterminado). Na forma chamá-lo-ão, temos uma mesóclise (colocação do pronome no meio do verbo). Usa-se a mesóclise com os verbos no futuro do presente e futuro do pretérito. No caso, usou-se o futuro do presente (chamá-lo-ão).

1.24:

“E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher.”

“Despertando do sono” está entre vírgulas porque essa é uma oração adverbial temporal, reduzida de gerúndio, deslocada. Não deveria haver vírgula depois de ordenara, porque José também é sujeito de recebeu. Ordenara está no mais que perfeito do verbo ordenar. O mais que perfeito tem a desinência RA (RE) átonos (cantara, bebera, partira). A desinência RA (RE) tônicos caracteriza o futuro do presente (cantarei, cantarás...). A desinência RIA caracteriza o futuro do pretérito (cantaria, cantarias...). “Como o anjo do senhor lhe mandara” (= conforme o anjo mandara) é oração subordinada adverbial conformativa (= ideia de conformidade). Não havia necessidade do artigo “a” antes da expressão a sua mulher.

1.25:

“E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus.”

E não a conheceu. “A” é objeto direto de conheceu. “Não”, morfologicamente, é advérbio de negação e, sintaticamente, adjunto adverbial. “Seu” é pronome possessivo. “Primogênito” tem acento porque é palavra proparoxítona e todas são acentuadas. “Pôs” tem acento por ser monossílabo tônico terminado em o, seguido de S. São acentuados os monossílabos tônicos em A(s), E(s) e O (s). “Não a conheceu” é uma figura de linguagem chamada eufemismo (Usa-se para abrandar determinada expressão). O narrador usou “não conheceu” para não dizer manteve relações sexuais.

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