quarta, 21 de agosto de 2019
Educação
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Professor Trindade: A morte da voz passiva sintética

Redação / 30 de junho de 2019
A morte da voz passiva sintética

Certa vez, um colega de universidade me falou:

- Essa moça reprovou (sic) e está com a maior raiva de mim...

Estranhei, é claro, ao ouvir tais palavras, pois vinham de um professor. Deu até vontade de perguntar:

- Ela reprovou quem ou o quê?: Você ou alguma de suas (dele) atitudes? Contive-me; afinal, tratava-se de um colega de profissão.

Achei que o caso fosse uma exceção. Qual o quê!... Na sala dos professores, ouvi vários repetirem o verbo reprovar, num contexto passivo, sem o se da passiva sintética e com a regência errada. Era “reprovou” pra lá, “reprovou” pra cá...

Ultimamente, devido à iminência da Reforma da previdência, sou obrigado a escutar (dói-me o ouvido!) frases do tipo:

- Ainda bem que minha esposa já aposentou (sic).

Pelos exemplos aludidos e pelas repetições ouvidas no dia a dia, presume-se que sepultaram – de vez – a voz passiva sintática e o se exigido por ela, mudando-se, inclusive, a regência do verbo.

Ora, nos exemplos citados, o verbo deveria haver sido usado na voz passiva: na analítica ou na sintética. O professor em questão deveria ter dito:

Essa aluna foi reprovada (por mim). Ou

Essa aluna se reprovou. Ou:

Essa aluna reprovou-se.

No caso da aposentadoria, o falante deveria ter dito:

Ainda bem que minha esposa já se aposentou. Ou

Ainda bem minha esposa já está (ou foi) aposentada.

 

E POR FALAR NISSO...

Observemos esta manchete, da Folha de São Paulo:

“Morta aos 95 anos, Glória Vanderbilt foi símbolo da aristocracia de NY.”

O que você pensaria ao ler essa manchete, leitor? Que a mulher em questão foi morta, não? Só que ela morreu em consequência de um câncer no estômago...

Sempre fiquei intrigado com esse uso inadequado e indiscriminado do particípio morto, em praticamente todos os jornais do país. Atribuo tal erro ao vício inadmissível de se estudar o Português, decorando.

O erro da matéria ocorre devido ao seguinte:

O particípio irregular dos verbos matar e morrer é o mesmo: morto:

Ele foi morto pelo colega.

Ele estava morto.

No caso da manchete citada e de tantas outras (no mesmo sentido) que se repetem, seria preferível usar o verbo falecer:

Falecida aos 95 anos, Glória Vanderbilt (...).

Da maneira que foi redigida, a manchete dá a ideia de que a mulher foi assassinada.

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