segunda, 28 de setembro de 2020

Educação
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‘Português na MPB’ é o título da coluna semanal do professor Trindade

João Trindade / 30 de outubro de 2016
Foto: Arquivo
Dando uma “passagem” em algumas letras da MPB, verifiquei alguns erros gramaticais e semânticos nos referidos textos. De algumas ocorrências, falaremos agora.

Vou fazer o seguinte: mostro o original e, em seguida, digo o erro, indicando a correção e a possível razão do erro.

Vamos começar com “Pingos de Amor”, sucesso cantado por Paulo Diniz (não sei o autor ou autores), na década de 70:

“Vamos ser outra vez nós dois

Vai chover pingos de amor...”

Versão correta:

Vamos ser outra vez nós dois

Vão chover pingos de amor...

O autor (ou autores) da letra confundiu a concordância dos verbos impessoais.

Realmente, os verbos que indicam fenômeno da natureza são impessoais (não têm sujeito) e devem ficar na 3ª pessoa do singular, desde que não estejam em sentido figurado. Nesse caso, flexionarão normalmente. Daí a razão da versão correta apontada por nós. É como se disséssemos, por exemplo:

Choveram reclamações naquela repartição.

 

Agora, Roberto e Erasmo Carlos:

“Eu não me esqueço aquele tempo

E a saudade me machuca

Quando eu morava em sua casa

numa vila da Tijuca”

“Eu me lembro com saudade e tempo que passou...”

Pelo visto, as relações de Roberto e Erasmo Carlos com os verbos lembrar e esquecer não são muito boas. São várias as incidências de erro; esses são apenas dois exemplos.

Os verbos lembrar e esquecer são transitivos diretos, desde que não pronominais. Lembrar-se e esquecer-se são transitivos indiretos.

De modo que, nas letras em questão, os compositores ou redigiriam:

Eu não esqueço aquele tempo, ou

Eu não me esqueço daquele tempo.

Eu me lembro com saudade do tempo que passou, ou

Eu lembro com saudade o tempo que passou.

Ainda Roberto e Erasmo:

“Você já fez a sua parte

Me pondo no mundo

Que agora é meu dono, mãe,

E nos meus planos não estão você...

Trata-se de um erro crasso de concordância verbal. O verbo concorda com o núcleo do sujeito. A palavra “planos” parece ter embotado o raciocínio dos dois compositores.

Frase correta:

“Você já fez e a sua parte

Me pondo no mundo (é bom lembrar que a forma gramatical pondo-me prejudicaria a melodia. Aí, vale a “licença poética”).

Que agora é meu dono, mãe,

E nos meus planos não está você.”

Ou seja:

Você não está nos meus planos.

 

Amado Batista

Em determinada música (não sei, é óbvio, quem compôs), Amado Batista diz:

“Não quero falar com ela

Entre eu e ela tá tudo acabado...”

Não cabe preposição diante do pronome EU. O certo seria:

Não quero falar com ela

Entre mim e ela tá tudo acabado...

Mas exigir isso de Amado Batista seria demais...

AMBIGUIDADE

Existe uma música cantada por Reginaldo Rossi em que não há erro gramatical, mas, semântico.

O autor conseguiu um feito inédito: ultrapassar a ambiguidade.

A letra é a seguinte:

“Essa história se passou

Quando eu deixei meu grande amor

Naquela estação sorrindo...”

Aí foi demais!

Quem estava sorrindo, afinal: a estação, o “eu lírico”, o grande amor dele (a amada), ou o próprio amor (sentimento)? Vai ser difícil saber...

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