segunda, 21 de setembro de 2020

Educação
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Pelo caminho da música: projeto em escolas da PB tira adolescentes carentes das ruas

Ana Daniela Aragão / 01 de maio de 2016
Foto: Rafael Passos
O silêncio que fica ao fim das aulas na Escola Estadual Escritor Horácio de Almeida, no Alto do Mateus, em João Pessoa, é aos poucos quebrado pelo som de clarinetes, violoncelos, fagotes, trombones, entre outros instrumentos tocados pelos próprios alunos que fazem parte do Projeto de Inclusão Através da Música e das Artes (Prima), do Governo da Paraíba. Esta é uma das três escolas que têm o projeto na Capital. As outras duas funcionam em Mandacaru e Bairro dos Novais. Nesses espaços, crianças e adolescentes veem na música uma oportunidade de ocupar o tempo livre, mas também de sonhar e desenvolver outras habilidades. Alguns, já queriam tocar um instrumento; outros, não imaginavam que possuíam tanto talento.

E lá estava ele, tocando um violoncelo em uma das salas da escola, com concentração e elegância, e o ensaio ainda nem tinha começado. O estudante Wagner Félix contou que, primeiramente, começou a participar de aulas de violão. E foi nestas aulas, que surgiu um novo desafio musical. “O meu professor perguntou se eu queria tocar violoncelo no projeto. Eu fiquei muito feliz e não pude perder essa oportunidade. Eu ficava vendo filmes e novela e sonhando um dia tocá-lo”, disse.

Médico músico. Ele está no 2ª ano do ensino médio e pretende fazer medicina. Mas, a música não ficará de lado. “Serei um médico músico”, contou rindo. Para ele, a forma como a música mudou a sua vida, chega a ser tamanha que não consegue descrever. “Muita coisa muda depois que você começa a se dedicar a música. Eu era bagunceiro e não prestava muita atenção na aula. A música abre a sua mente. Você se concentra mais nas coisas. Ela mexe demais com você, tanto que não fica fácil explicar”, afirmou. E ainda completou dizendo: “Eu sou um dos melhores”.

Relação com a família. Há anos que o pai do Wagner não vive com ele. Hoje, ele mora com a mãe e seu padrasto. A princípio, ele afirmou que a família teve certo preconceito com o instrumento que ele tinha escolhido tocar. “Eles são evangélicos e diziam que era um instrumento de funeral. Que não era legal”, contou. Porém, com o tempo e a dedicação á música, os pais começaram a entender. “Eles se dizem orgulhosos de mim”, declarou.

Boas notas. O fagote é um instrumento musical de sopro. Tem uma aparência que lembra parte uma flauta e parte um clarinete. É um instrumento pouco conhecido e que o Misael Ferreira, 16, domina. Ele também teve aulas de violão a principio e, mudou da água pro vinho, quando se interessou pelo fagote, apresentado pelo seu professor.

Ele está no 2ª ano do ensino médio e afirmou que a música tem um peso importante na sua vida escolar. “Ela me proporcionou mudanças em outras areas. Antes eu não queria nada com a vida. Também só vivia na rua e meus pais me chamavam de preguiçoso. Agora tiro boas notas. A gente cria um comprometimento com os ensaios e isso reflete na nossa vida”, disse.

O Prima

Início - Começou em 17 de março de 2012. O objetivo é criar orquestras em comunidades de vulnerabilidade social e usar a música como ferramenta de resgate das crianças e jovens que vivem nesses locais.

1.000 jovens estão ativos hoje

1.000 crianças já se apresentaram em concertos da orquestra Prima e nas próprias comunidades, muitas vezes em escolas públicas, ONGs, praças, asilos e hospitais.

14 é quantidade de polos do projeto

323 concertos entre 2014 e 2015

Faça Parte! Para fazer parte do Prima, o aluno precisa estar matriculado na rede pública de ensino. Também são oferecidas aulas para alunos da rede privada e para os próprios pais dos alunos. Mas a prioridade do empréstimo do instrumento é para o jovem da rede pública.

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Ele vivia na rua. Agora, gosta da escola

José Igor da Silva é seis anos mais novo que Mizael. Está no Prima há um ano e já é considerado um dos melhores alunos de clarinete. Não é a toa que ele chamou a atenção da reportagem, tocando o instrumento com profissionalismo enquanto caminhava pela escola também a espera do ensaio.

Ele já tocava flauta, mas como um passatempo. Até que um amigo falou do projeto Prima e ele começou a participar. O clarinete foi apresentado a ele e desde então, não se soltam mais. José já tem no currículo mais de 30 concertos. “Eu só vivia na rua, sem fazer nada. Agora quase todos os dias têm ensaio e gosto muito de vir para a escola tocar. Também pretendo trabalhar com música quando crescer”.

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