terça, 22 de agosto de 2017
Educação
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O som da Jovem Guarda ecoa na coluna do professor João Trindade

13 de março de 2016
ECOS DA JOVEM GUARDA

João Trindade

Parece que foi ontem. O Cine Eldorado, lotado, no Festival da Alegria (não me lembro se era bem esse o nome). Eu, vestido de “rei”, no trono, uma túnica vermelha, e o locutor (seria Amaury de Carvalho?) anunciando os prêmios que eu iria ganhar por haver “derrubado” todos os calouros daquela manhã e por isso estava sentado naquele “trono”. Os prêmios: um anel do calhambeque, certa quantia em dinheiro (doada pelo Banco Industrial de Campina Grande) e um bolo (na verdade, pão-recife).

Mas o maior prêmio mesmo para mim foi passar a ser conhecido em Patos. Eu, menino de apenas seis anos, havia conquistado a cidade.  Por onde passava, era alguém parabenizando pelo fato de haver cantado tão bem a música “Você Me Acende”, de Erasmo Carlos; este, até hoje, meu ídolo.

Era a glória. Patos passava, a partir dali, a me reconhecer como um grande cantor-mirim, páreo para Euclides Franco (irmão de Edileuson Franco), que, na semana anterior, ganhara o “reinado”, interpretando a música “Mexericos da Candinha”.

Eram os áureos tempos da “Jovem Guarda”, que, mesmo na longínqua e pequena Patos,

Incendiava as plateias. O “Festival da Alegria” realizado todos os domingos, pela manhã, no Cine Eldorado, e transmitido pela Rádio Espinharas, era diversão obrigatória na cidade e o celeiro do surgimento de novos artistas.

Embalados pelos conjuntos “Os Jovens” e “Os Selvagens”, realmente vivemos uma época de descontração, para compensar um pouco as austeridades do professor Messias, este, diretor do Colégio Estadual de Patos. Lá, no tempo de messias, quem fosse posto para fora de sala era suspenso por três dias. Certa vez, tive que passar 50 minutos (uma aula inteira!) dentro de um banheiro, fétido e imundo, na única vez em que fui posto para fora de sala, injustamente, pelo carrasco professor de Português Antônio Batista.

Mas voltemos ao Cine Eldorado.

Eram homéricas as minhas brigas com Rodrigues, guitarrista de “Os Jovens”, por causa da bateria de Castelo (este, de “Os Selvagens”). Rodrigues sabia, mas não queria admitir, que Castelo (mais tarde, baterista da Orquestra Sinfônica da Paraíba) era melhor do que Toinho, de “Os Jovens” Por outro lado, eu magoava, mesmo sem falar, o meu amigo Juca (líder de “Os Selvagens”) que havia me dado de presente um pequeno violão (o primeiro presente que recebi em Patos) pelo fato de ele notar que eu gostava mais de “Os Jovens”.

A rivalidade era grande entre os dois conjuntos. Melhor para a gente que frequentava o Eldorado; era a garantia da execução perfeita para “O Milionário”, de “Os Incríveis”.

O “Festival da Alegria” tinha de tudo. Tinha Zeti, com as palhaçadas dele; tinha o “Festival de Calouros” (ponto alto da festa); tinha “Os Jovens”; “Os Selvagens”; “Z Sete” (este, um pouco mais tarde, numa época mais recente); tinha Amaury de Carvalho, Virgílio Trindade, Saraiva e tinha O MUDO DO CINEMA, que era quem encerrava a festa: o único mudo, no mundo, que cantava. A galera vibrava e esperava, ansiosa, a hora de o mudo cantar.

Todos queríamos imitar Roberto Carlos. Eu passava horas no espelho, sonhando com o dia em que meu cabelo ficasse como o de Roberto Carlos. O meu sonho era ter cabelo grande, mas minha mãe jamais deixaria; meu cabelo era cortado, por ordem de minha mãe, “alemão”. Deixei de usar o anel do calhambeque. De que adiantava o anel do calhambeque sem o cabelo grande? Outra coisa que eu queria usar, mas minha mãe nunca deixou, era sapato sem meia. Tinha uma inveja danada de Eri, meu “rival”, num pseudonamoro que eu, na minha ilusão, iria ter com Waldízia, filha de Dudu Viola, minha primeira e prematura paixão (eu devia ter uns dez anos e ela, oito).

A Jovem Guarda não Foi só Roberto, Erasmo, Wanderléa, Wanderley e Jerry. A Jovem Guarda tinha Demétrius, Martinha, Trio esperança, Golden Boys, Os incríveis, Renato e Seus Blue Caps, Waldirene,  Silvinha, Eduardo Araújo, Os Vips, Cátia Cilene, Marcus Pitter, Paulo Henrique, Antônio Marcos e ... Roberto!

Onde andará Zé Roberto? Jerry eu o encontrei uma vez, em Campina Grande, em 88, quando fiz uma entrevista que nunca passei para o papel, devido a uma doença que tive na época. Foi um dia inteiro, à beira da piscina do Hotel Serrano, com direito a foto e tudo.

Onde andará Zé Roberto, meu maior ídolo no período da Jovem Guarda? Foram muitas as vezes em que briguei com meu irmão Francisco, por causa da Jovem Guarda e, sobretudo, de Zé Roberto. De idades diferentes, eu e Francisco nos engalfinhávamos, porque, para ele, Jovem Guarda era subproduto, alienação; preferia “Chico, Gil e Caetano” (a frase da moda na época), e eu não poderia, sendo irmão dele e de Virgílio Trindade, ambos da Rádio Espinharas, gostar de Zé Roberto.

Zé Roberto era meu grande ídolo. Embalado pelas músicas dele (que fora lançado por Roberto Carlos, assim como Martinha e Waldirene) muitas vezes chorei por Conceição (outro pseudoamor); agora, eu já com 12 anos.

Inesquecível o dia em que Zé Roberto foi a Patos. Era o primeiro cantor de projeção nacional (da Jovem Guarda) que ia a Patos. Roberto Carlos, nem pensar; no máximo, viria (como realmente veio) a João Pessoa. Zé Roberto era considerado bonito (assim como Ronnie Von; este, considerado lindo) e as meninas ficavam ouriçadas. Na época, lançara mais um LP: José Roberto e seus Sucessos (vol.3), em que aparecia montado numa moto.

As luzes do cinema se acenderam. Entrou Zé Roberto no palco, cantando “O Xote das Meninas”, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga; agora em ritmo de iê, iê, iê. Depois, vieram outros sucessos: Benzinho; Tenho Um Amor Melhor que o Seu; Preciso Esquecer que te Amo; A Minha Vingança; Hoje Eu Venho Dizer que te Amo, etc.

A história da Jovem Guarda é a história de muita gente assim como eu, que teve nela um espelho, embora por um pequeno espaço de vida Erram os que negam a importância da Jovem Guarda. Nem todo mundo que gostou daquele movimento continuou “alienado”. A Jovem Guarda nos ensinou a ser alegres e rebeldes. Roberto Carlos pode até não ter querido, ao usar cabelo grande, mudar um comportamento ou impor rebeldia; pode até ter sido pura alienação. Mas que foi importante nas relações familiares, foi. Minha mãe, por exemplo, um dia me deixou usar cabelo grande e sapato sem meia. Éramos crianças de cabelo grande, crucifixo no peito, anel do calhambeque, mas, paralelamente, líamos muito e, o mais importante: não havia drogas.

A Jovem Guarda marcou época na minha vida. Principalmente porque me pegou na fase mais marcante da infância e início da adolescência.  Quando hoje, por um momento, fecho os olhos, vejo-me cantando no Cine Eldorado, onde fui “rei” duas vezes (uma com “Você me Acende”, de Erasmo e outra com “O canudinho” de Wanderley Cardoso), e onde também fui vaiado, ao cantar “Django”, porque o guitarrista pegou um tom muito alto, e eu, tímido, não quis pedir para ele baixar.

Despedi-me de Patos e da Jovem Guarda numa manhã de domingo de 1970, quando cantei, no mesmo Eldorado, “As Curvas da Estrada de Santos”.

 

 

 

 

 

 

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