quinta, 21 de janeiro de 2021

Educação
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O “purismo excessivo” da língua portuguesa na coluna do professor Trindade

João Trindade / 01 de maio de 2016
Foto: Arquivo
Purismo em excesso

A cultura de Seminários e a ditadura militar de 64 colocaram na cabeça do brasileiro um purismo excessivo, em relação à Língua Portuguesa. Rubem Braga traduz muito bem esse “regrismo” inútil, na crônica “Nascer no Cairo, Ser Fêmea de Cupim”, que, desde já, indico como leitura indispensável.

De modo que há certos “erros” que, com o tempo, deixaram de ser, mas a turma da decoreba e do “regrismo” ainda questiona; sobretudo aqueles que não conhecem a língua, mas são adeptos do Português de almanaque e do Português das “fincadas”.

Certa vez, encontrei um sujeito escandalizado com uma então propaganda da Caixa: “Vem pra Caixa você também”.

Ora, há uma diferença entre língua e linguagem. Uma peça publicitária tem que levar em conta o contexto de oralidade. “Venha para a Caixa você também” (que seria o correto pela língua-padrão) nem soaria bem e nem teria o ritmo agradável alcançado pela propaganda.

O que esses puristas deviam aprender é que – repita-se! – existem língua e linguagem. A língua é uma só; daí o nome língua-padrão; as linguagens são diversas, dependendo da região, grupo social, gueto, objetivo da mensagem, etc.

Não nos esqueçamos de que Chico Buarque de Hollanda, sem dúvida o maior poeta contemporâneo brasileiro, conhecedor profundo da língua e das linguagens, diz, em “Quem te viu, quem te vê”:

“Hoje o samba saiu

Procurando você

Quem te viu

Quem te vê...(...)”

“O quê? Misturar terceira pessoa com segunda? É um absurdo!” – diria o purista de plantão.

Só que o “eu lírico” do poema é um sambista, que está falando com a namorada; nada mais natural que usasse o contexto de oralidade.

Outra coisa que está “fora de moda” é a distinção entre “este”, “esse” e flexões. Usa-se, atualmente, indistintamente; salvo, é claro, em documentos e redação oficial.

Onde ou aonde?

Pela língua-padrão, onde indica situação estática e aonde, situação dinâmica.

Por exemplo:

Você mora onde?

Aonde você vai?

Atualmente, não mais se faz a diferença.

Destaque-se que até os neoclássicos (século XVIII) não fizeram a distinção. Diz Cláudio Manuel da Costa:

“ Nize, onde estás?

Aonde, onde, aonde?”

Por fim, mas não por último, a questão da colocação pronominal.

Ora, nossa língua é portuguesa. O português nos impôs muita coisa que hoje não tem mais sentido obedecer no Brasil (opa, era para eu escrever há e não, tem). Uma delas é aquela regra inútil que diz que não se pode iniciar frase com pronome oblíquo átono, alvo de gozação de um célebre poema de Oswald de Andrade (“Pronominais).

Seja sincero, querido leitor, qualquer que seja seu grau de instrução:

Você diz: “Dê-me aí esse livro”, ou “Me dê aí esse livro”?

A segunda forma é a mais usada, em qualquer classe social e entre pessoas de quaisquer níveis de instrução.

Pergunta-se:

Por que está errado dizer: “Me dê aí esse livro”? Não há qualquer explicação lógica; e o que não tem explicação lógica não deve ser levado em conta.

Aliás, até na redação escolar esse tipo de construção vem sendo aceito, desde que, é claro, o aluno não demonstre, ao longo do texto, total desconhecimento da língua e use a forma coloquial com frequência e sem objetivo.

Para finalizar, uma advertência:

Essa “abertura” da língua, conquistada pelos modernistas, não deve ser usada como justificativa para erros crassos e desrespeito ao idioma. Essa de dizer que a gente deveria escrever como fala e o que importa é “se comunicar” é desculpa de ignorantes e preguiçosos. É claro que não posso desrespeitar estruturas básicas da língua como, por exemplo, concordância. Não está certo (e nunca estará!): “Os livro estão na mesa”; “A gente fomos”; “A turma foram”.

Como já disse, a língua é um padrão; é preciso um padrão que unifique a fala, no país; a linguagem sofre variações, pelas razões ditas anteriormente.

Se não houvesse a língua-padrão, como haveriam de se entender um gaúcho e um sertanejo nordestino?

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