domingo, 24 de janeiro de 2021

Educação
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“O eu lírico” é a nova coluna do professor João Trindade

João Trindade / 26 de março de 2017
O “eu lírico” feminino

Observe o leitor os seguintes versos de Gonçalves Dias, Chico Buarque e Paulo Vanzolini, respectivamente:

“Eu vivo sozinha

Ninguém me procura

Acaso feitura

Não sou de Tupá?

Se algum dentre os homens

De mim não se esconde

Tu é – me responde –

Tu és Marabá.”

***

“E que venho até remoçando

Me pego cantando

Sem mais nem por quê.

E quantas águas rolaram

Quantos homens me amaram

Bem mais e melhor que você...”

***

“Volto pra casa abatida

Desencantada da vida

O sonho alegria me dá

Nele você está...”

O quer têm em comum os versos citados?

1   São escritos por um autor masculino, mas na “narrativa” feminina.

O que aconteceu foi que os autores, embora do sexo masculino, usaram o “eu lírico” feminino.

E o que é “eu lírico?

“Eu lírico” é a “voz que fala no poema”. Equivale ao narrador, na prosa.

Jamais devemos confundir autor com narrador ou com o “eu lírico”. Autor é quem concebeu a obra; narrador e “eu lírico” são quem conduz o discurso. Tal distorção leva muita gente a confundir as coisas. De modo que, às vezes, você escreve uma obra de ficção (ou poema) e as pessoas associam à sua vida. Quantas vezes já não escrevi, aqui, neste espaço, textos que nada tinham a ver comigo e as pessoas me pararam para perguntar:

Aquilo aconteceu mesmo com você?

Será, então, que Paulo Honório de Graciliano é o famoso escritor alagoano, porque o texto está em primeira pessoa? Claro que não!

Quando o autor escreve um texto, separa-se da obra. É claro que pode ter se inspirado na realidade (literatura é uma fusão do real e o imaginário). Mas daí a concluir que o que o autor escreve aconteceu, obrigatoriamente, como ele é “forçar a barra”.

De modo, leitor, que você nunca deve confundir: As personagens encarnadas nos textos dos autores citadas são criação deles e estes colocaram o escrito em primeira pessoa para maior aproximação com o leitor e maior “realismo” do poema.

Mas ridículo mesmo é quando um homem vai cantar a música (caso dos dois últimos textos) e inverte o “Eu lírico”.

Não se preocupe, amigo: cante a música conforme ela é no original; ninguém vai duvidar da sua masculinidade (ou vice-versa, no caso das mulheres) se você se mantiver fiel ao original.

A não ser que você não esteja tão seguro(a) acerca da natureza de sua sexualidade!...

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