terça, 13 de novembro de 2018
Educação
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Mulheres com ensino médio concluído são perfil mais inscrito no Enem

Katiana Ramos / 30 de outubro de 2018
Foto: Nalva Figueiredo
Mulheres e com Ensino Médio concluído. Este é o perfil de mais da metade dos participantes do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e tem se repetido pelo menos nos últimos três anos. Na edição de 2017, além de se encaixar nesse perfil, Socorro Vidal também está entre os 931.421 candidatos, na faixa etária dos 31 aos 59 anos, que fizeram as provas.

Este ano, ela entrou para outras estatísticas positivas da educação: o número de novos ingressos no Ensino Superior, sendo uma das 207.606 mil pessoas matriculadas em um curso de graduação, no grupo de pessoas de 45 a 49 anos, segundo os dados do último Censo do Ensino Superior. O CORREIO traz nesta terça-feira (30) a história da ex-garçonete, agora estudante do curso de Serviço Social, que integra a série ‘Enem: 20 anos’.

Mas, chegar até os bancos da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), se preocupar com trabalhos acadêmicos e apelar para os períodos letivos não serem atropelados por greves não foi fácil para Socorro. Aos 18 anos, ela deixou de lado o sonho de cursar uma faculdade p…ara trabalhar e ajudar os pais no sustento da casa, no interior do Ceará. “Fui embora para Fortaleza com a cara, a coragem e uma mala emprestada”, conta.

Entre as funções de balconista, recepcionista e garçonete, as leituras sempre foram presentes na vida dela, que, 30 anos depois, decidiu fazer o Enem, sem nenhuma pretensão, mas para incentivar o filho a seguir nos estudos. Resultado: os dois passaram para cursos em instituições públicas da Paraíba. No entanto, a estudante perdeu o prazo de matrículas e fez as provas novamente em 2017, quando enfim virou universitária. Já o filho, Breno Vidal, segue firme no curso de Design de Interiores.

“Tirei uma nota bem melhor. Entrei em Gestão Pública e na segunda chamada fiquei em primeiro lugar para Serviço Social. Sou a mais velha da turma e praticamente todo mundo tem idade para ser meu filho. Eu me questionava: ‘Como é que eu vou entrar na faculdade? Todo mundo novo, que acabou de terminar o terceiro ano agora. Ai, o professor disse: esqueça. Zerou para todo mundo agora. Então, fui super bem recebida”, conta a estudante.

Ela atribui os bons resultados nas duas edições do Enem das quais participou ao aprendizado sólido no período escolar e as atualizações por meio de leituras de livros e pesquisas na internet. “Além das leituras e de me recordar do que aprendi na escola, o que me ajudou muito foi a tranquilidade para fazer a prova. Eu não tinha ninguém me cobrando um bom resultado ou para que eu passasse, não levava o nome de nenhum cursinho. Acho que o que prejudica muitos jovens na prova é esse peso de passar, essa responsabilidade”, comentou Socorro Vidal.

O sociólogo e professor da FPB, Gonzaga Júnior, explicou que está “fora do perfil comum” dos alunos universitários é reflexo de políticas sociais de educação e também da melhoria da renda familiar em algumas famílias. Ele ainda reforçou que a idade não é impedimento para retomar os estudos e que tudo depende da adaptação dos alunos às novas realidades. “Desde 2012, temos tido maior oferta de vagas no ensino superior, o que possibilita o ingresso de muita gente que antes não teve essa oportunidade. Com relação ao perfil diferente do aluno que concluiu o Ensino Médio e já entra em uma graduação, boa parte dos estudantes mais velhos trabalha, tem certeza do que quer e são dedicados. Essa dedicação é uma forma de compensação ao tempo que antes ele não teve e com as atividades que tem hoje”, disse.

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