quarta, 17 de julho de 2019
Educação
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Mães entre 10 e 19 anos abandonam estudos na Paraíba

Lucilene Meireles / 01 de maio de 2019
Foto: Assuero Lima
Mais de dez mil adolescentes com idade entre 10 e 19 anos foram mães, na Paraíba, em 2017. Em 2018, foram outras 9,8 mil, e uma das consequências da maternidade precoce é o abandono da escola. Totalizando mais de 20,3 mil em dois anos. Algumas pensam em retomar os estudos mais adiante, mas terminam constatando que um filho exige muito mais do que imaginavam, e a formação escolar acaba parando no meio do caminho. Um levantamento da Fundação Abrinq sobre adolescentes que são mães mostra que ser mãe tão cedo pode comprometer o futuro delas. Muitas não voltam para a sala de aula e as perspectivas não são nada promissoras no campo da educação. Só 1,4% das que foram mães em 2017 têm 12 anos ou mais de estudos.

Considerando o total de estudantes do Ensino Fundamental, 4 em cada 100 adolescentes abandonaram a escola em 2017, entre eles, meninas que engravidaram e desistiram da escola antes mesmo da criança nascer, segundo dados do Observatório da Criança e do Adolescente, da Fundação Abrinq. Como a gravidez precoce aumenta as responsabilidades das jovens mães, elas se veem obrigadas a sacrificar o próprio futuro para poder cuidar do filho.

Aos 19 anos, Maria (fictício) espera a chegada de Kaíque. A gestação entrou na reta final e ela ainda não tem ideia de como será a mudança em sua vida após a chegada do filho. Sem frequentar a escola desde que fez uma cirurgia cardíaca, o plano é retomar os estudos no 1º ano do Ensino Médio.

“Minha saúde está boa. Completei oito meses de gravidez e, por enquanto, não consigo estudar. Agora, estou muito ansiosa, preocupada, mas penso sim em voltar. Sinto falta e sei que é importante. Espero que dê certo”, declarou.

Teresa (fictício), que tem 15 anos e está grávida de oito meses, parou no 7º anos, mas afirmou que vai continuar os estudos assim que for possível deixar o bebê com alguém.

“Acho importante estudar para garantir meu futuro e o da minha filha Ana Valentina. Tenho amigas que engravidaram, abandonaram a escola e não voltaram mais, mas eu não quero fazer isso. Acho que quem não volta para a escola vai ter dificuldades no futuro”, ponderou.

Expectativa e apoio. Maria e Teresa estão na expectativa para a chegada de seus primeiros filhos e todos os planos vão depender da adaptação à nova fase da vida. Elas ainda não têm ideia de como será lidar com uma criança ainda tão jovens, mas contam com o apoio das mães, que ajudam no que podem e apoiam o desejo das meninas de voltar a estudar. “Só somos alguém na vida se estudarmos. A criança não é motivo para parar”, disse a dona de casa Joana Darc Francisco dos Santos, mãe de Teresa. Assim como a filha, ela teve a primeira gravidez aos 15 anos de idade.

Para a dona de casa Josilene Dias da Silva, que foi mãe aos 17, por enquanto, a preocupação é com a saúde da filha e do neto que chega em breve. “Mas,w eu quero que ela volte a estudar. Todos nós sabemos o quanto é importante aprender”, comentou.

"A gravidez precoce ainda é um desafio presente na realidade das adolescentes brasileiras. Em alguns estados, uma em cada cinco mães é adolescente. A maternidade na adolescência altera o projeto de futuro de uma jovem que, além de cuidar do seu processo de formação, ao se tornar mãe, tem de dividir o seu tempo entre o seu desenvolvimento e o cuidado com o filho." - Heloisa Oliveira, administradora executiva da Fundação Abrinq

Fator para mais vulnerabilidade social



A gravidez na adolescência tem se mostrado como um fator relevante na reprodução da pobreza e de aprofundamento da vulnerabilidade social de meninas no Brasil. É o que aponta o estudo ‘Gravidez na adolescência’, da Fundação Abrinq. A maternidade precoce impacta a continuidade da educação dessas adolescentes, comprometendo seu desenvolvimento pessoal e profissional e afetando a construção da sua autonomia e da sua cidadania.

Conforme a publicação, houve queda na incidência nacional de gravidez na adolescência. Porém, há grandes desigualdades quando observadas as regiões e alguns estados. A situação exige políticas e investimentos efetivos na redução da gravidez na adolescência que, quando associada a outros indicadores sociais de vulnerabilidade, contribui para um cenário bastante limitado do desenvolvimento de meninas adolescentes assim como de seus filhos e filhas.

De acordo com o estudo da Abrinq, a maternidade precoce também indica que o uso de métodos contraceptivos e de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis são ‘escanteados’. No Nordeste, um em cada cinco nascimentos (20%) foram de mães com menos de 19 anos.

Gestação de risco. As gestantes com idade a partir de 14 anos, que não apresentam nenhum risco, são atendidas na atenção básica, ou seja, nas Unidades de Saúde da Família (USFs). Já as que apresentam algum tipo de risco, incluindo as que têm idade abaixo de 14 anos, são acompanhadas nos ambulatórios das maternidades - Instituto Cândida Vargas (ICV), Frei Damião ou Hospital Universitário Lauro Wanderley (HULW).

Conforme a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de João Pessoa, através das áreas técnicas de saúde da criança e do adolescente e da saúde da mulher, elas contam com ações preventivas nas escolas e nas unidades de saúde com orientação e palestras educativas. As grávidas são acompanhadas conforme recomenda os protocolos de atendimento à gestante.

9.823 é o número de adolescentes com idade entre 11 e 19 anos que foram mães em 2018, na Paraíba, segundo a SES. Destas, 1.606 em João Pessoa, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) da Capital.

 

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