quarta, 27 de janeiro de 2021

Educação
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Índios estão ganhando as salas de aula na Paraíba

Aline Martins / 19 de abril de 2017
Foto: RAFAEL PASSOS
É levar o que eu aprendi na universidade, o conhecimento científico, para o meu povo nas aldeias”, afirmou a mestranda Iranilza Cinésio, de 28 anos, que é índia potiguara. Ela é formada em Secretariado Executivo e agora faz mestrado no Programa de Pós-Graduação de Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O foco do seu trabalhado acadêmico é mostrar as contribuições que as instituições de ensino superior podem oferecer para as aldeias indígenas. Assim como a jovem, mais de 500 índios estão cursando várias graduações em diversas unidades de ensino públicas e privadas. Hoje é Dia do Índio e muitos deles já se orgulham por terem tantos fazendo ensino superior.

Antes mesmo de entrar na universidade, Iranilza Cinésio comentou que sempre trabalhou com a questão indígena e a valorização da cultura do povo. “Quando eu me formei eu senti a necessidade de levar algo para o meu povo”, frisou. A partir disso, decidiu por fazer mestrado no Programa de Pós-Graduação de Ciências das Religiões. “É levar o conhecimento científico da universidade para as aldeias. A universidade, o meu curso de Secretariado Executivo, tinha muito a função mercadológica, mas eu precisava levar o que eu aprendi para o meu povo”, afirmou, destacando que o objetivo é mostrar esse viés entre o que é dado e o que é aplicado para os indígenas. “Eu tenho que pensar no coletivo, não apenas no individual”, ressaltou.

Segundo o cacique Potiguara, José Siríaco, muitos índios potiguaras fazem ensino superior em instituições privadas e públicas da Paraíba e até mesmo de fora do Estado como a Universidade de Brasília, no Distrito Federal. Ele revelou que há indígenas cursando medicina, nutrição, enfermagem, agronomia, engenharia ambiental. “Nós temos muito orgulho deles. Eles prestaram um vestibular diferenciado e conseguiram entrar nas faculdades”, comentou. Já na área da educação básica, o cacique comentou as aulas acontecem em escolas municipais e estaduais dentro das aldeias e em todas é oferecida a disciplina da Língua Tupi. A filha dele é uma das professoras.

Mas para poder ministrar a Língua Tupi, as pessoas precisam passar por uma capacitação. De acordo com o professor formador, Josafá Padilha Freire, que é índio e já lecionou aulas em universidades do Ceará e do Espírito Santo, a ideia é passar para todos independente se é ou não indígena a Língua Tupi. Ele contou que passou por uma formação inicialmente para fixar mais as questões gramaticais da língua e hoje é o coordenador do projeto que formam professores. “Todos os alunos recebem muito bem a língua Tupi”, afirmou.

Escolas indígenas na PB. Segundo a Secretaria de Estado da Educação (SEE), a Rede Estadual de Ensino funciona com 10 escolas indígenas, nos municípios de Marcação, Rio Tinto e Baía da Traição. Os professores são da Rede Estadual. O projeto de Formação de professores na Língua Tupi está com processo em andamento na SEE. Os professores dessas escolas são todos com formação superior. O diferencial: Trata-se de uma educação intercultural bilíngue, específica que trabalha com a recuperação das memórias históricas; reafirmação das identidades étnico-potiguaras, na valorização das práticas sócio-culturais e na valorização da língua materna Tupi, baseado no etno conhecimento.

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