domingo, 15 de setembro de 2019
Educação
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Aumenta número de jovens que concluíram Ensino Médio

Lucilene Meireles/Katiana Ramos / 26 de junho de 2019
Foto: Arquivo
O percentual de jovens de 19 anos que conseguiram concluir o Ensino Médio na Paraíba aumentou 8,2%, nos últimos sete anos. No mesmo ritmo está a taxa líquida de matrículas nessa fase da educação básica, que aumentou 14,2%. Os dados estão no Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, parceria do Todos Pela Educação com a Editora Moderna, e foram divulgados ontem. Contudo, o Estado ainda está abaixo da média da região Nordeste.

A pesquisa mostrou ainda que a Paraíba não tem alcançado resultados satisfatórios no Ensino Médio. No Estado, apenas 8,1% dos alunos chegam ao final desta etapa do ensino com aprendizagem adequada em Matemática, por exemplo.

O estudo, que tem como base dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compara o Ensino Médio com outros estágios. Enquanto nos anos iniciais do Ensino Fundamental a Paraíba alcançou 5,1 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) em 2017, ultrapassando a meta estabelecida, que é de 4,7, há uma queda considerada importante nos anos finais e no Ensino Médio. Nos anos finais do Ensino Fundamental, o Ideb, em 2017, ficou em 3,9. Já no Ensino Médio, o rendimento foi ainda menor, alcançando apenas 3,5.

Para o especialista em Educação, Luiz de Sousa Júnior, as dificuldades que fazem com que os jovens não consigam concluir a Educação Básica se devem a carências existentes no Ensino Fundamental, principalmente na última etapa dessa fase escolar.

“Nós temos um problema no Ensino Médio que começa nos anos finais do Ensino Fundamental, quando começa a cair o nível de rendimento dos alunos. Dos 53% que conseguem concluir, são os melhores dos melhores, porque uma leva foi ficando pelo caminho”, observou o especialista em Educação.

Na opinião dele, é preciso um estudo aprofundado também sobre o Ensino Fundamental II, anos finais, porque é nessa fase que começa o problema. Ele afirmou que o Fundamental I andou muito bem, com os programas de alfabetização, de apoio pedagógico, mas quando começa a questão das disciplinas, a situação se complica.

“O professor da disciplina, em geral, dá só aquela disciplina e vai para outra escola. Ele não vive a escola em que está, porque está em duas, três escolas. Então, não consegue ter um projeto interdisciplinar que envolva todas as disciplinas. É cada um por si e Deus por todos. Com isso, há a complexificação do conhecimento, e o aluno não consegue acompanhar. Nessas circunstâncias, ele começa a ter um fracasso escolar muito exacerbado a partir do Fundamental II, e o Ideb sinaliza para isso”.

Estado. A reportagem procurou a Secretaria Estadual de Educação. Mas, a assessoria de comunicação da pasta informou que o responsável para comentar os dados da Paraíba só poderia se pronunciar nesta quarta.

Reflexo socioeconômico

Em relação à aprendizagem adequada no Ensino Médio, ele avaliou que é uma escala e a situação está muito associada ao nível socioeconômico das famílias. Conforme o especialista, de uma forma geral, os 8,1% dos alunos que conseguiram concluir o Ensino Médio com aprendizagem adequada em Matemática, estão em tratos superiores de condições econômicas e sociais. Ou seja, a situação, segundo ele, reflete o nível socioeconômico. “Quanto melhores as condições das famílias, melhor o desempenho dos alunos em cada uma das etapas”, enfatizou.

A situação, conforme Luiz de Sousa Júnior, mostra também a desigualdade do sistema. “Nós vamos ter escolas muito boas porque, em geral, tem um nível socioeconômico das famílias muito bom. E também temos na mesma região, na mesma cidade, escolas com desempenho fraquíssimo porque estão na periferia, as condições socioeconômicas não são boas. Isso é muito reflexo dessa desigualdade econômica e social do País. A escola pode muita coisa, mas não pode tudo. Ela tem sua responsabilidade, mas sozinha não dá conta. É preciso ter a parte da escola e ter a parte da sociedade”.

Aspectos positivos. Apesar da situação, o especialista em Educação observou que há um conjunto de políticas em andamento e, nele, aspectos interessantes como as escolas em tempo integral. Outro ponto positivo são as escolas que associam o ensino ao profissional, as escolas técnicas.

“Quando analisamos os dados de desempenho, vemos que as melhores escolas públicas do Ensino Médio são os IFs e isso acontece porque há professores altamente qualificados, valorizados e com uma formação muito boa. Porém, é um modelo caro e exige maior investimento em educação. Por isso, é preciso discutir a questão do novo Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), ou seja, financiar melhor o ensino regular público para ter as respostas nessa área”.

Solução demora

Não há solução de curto prazo para garantir que os alunos aprendam de forma adequada. “A criança não aprende, por exemplo, nem a falar e nem a se alfabetizar de um mês para outro. Tem que ter uma maturação”, afirmou o especialista em Educação, Luiz de Sousa Júnior. Para ele, existem ainda três questões fundamentais.

“A primeira é um bom currículo voltado para aprendizagem dos alunos, das condições pedagógicas adequadas. Isso é fundamental. A segunda é: o professor com uma boa formação, valorizado, que tenha condições de trabalhar com esse alunado. Terceiro, formando o tripé, vem o financiamento”, observou.

Para ele, se não tiver um financiamento em que se remunere bem os professores, melhore a infraestrutura das escolas, disponha de condições de livros e até mesmo de políticas de assistência social, como alimentação escolar e transporte, vai suprir a deficiência de muitos alunos que vivem em situação socioeconômica muito ruim. “Sem esses três elementos, que são essenciais, não se resolve o problema. Não dá para escolher apenas um deles”, constatou.

Conforme o especialista, para coroar esse processo, é preciso ter mais a sociedade, sobretudo a família, participando do processo educativo das crianças.

Alguns estudos mostram que os filhos de pais com nível de escolaridade superior tendem a avançar mais porque os pais participam do processo de educação e aprendizagem dessas crianças. “Por outro lado, os pais que não têm uma formação, não têm condições de ensinar, porque não sabem. Eles não conseguem oferecer um apoio, um suporte psicológico, emocional, e a criança fica ao Deus dará. É como se dissessem para resolver o problema na escola. Já os pais que têm outro nível de formação, acompanham a criança, reforçam. Se a criança vai mal, orientam para estudar, disciplinam, organizar. São circunstâncias bastante distintas”.

Projetando o futuro

Numa projeção para o futuro, o especialista em Educação observou que, até pouco tempo, mesmo de maneira muito lenta, o Brasil vinha dando sinais de mudança nas políticas educacionais. “Se não focarmos nos problemas reais da Educação, vamos ter um retrocesso feroz. A questão do Fundeb é central. Se não resolvermos o problema do Fundeb, que acaba no próximo ano, teremos a maior crise da educação brasileira de todos os tempos, porque se desabastece financeiramente um conjunto de estados e municípios de uma hora para outra. Será um caos. Ou trabalhamos nisso ou pensamos num projeto de educação, inclusive suprapartidário”.

Constatações do Todos Pela Educação

-Na Paraíba, alguns alunos apresentaram nível acima do considerado adequado pelo Todos pela Educação.

-No Ensino Fundamental - anos iniciais - 5º ano, 46,8% se destacaram em Língua Portuguesa em 2017. Em Matemática, 34,1%.

-No Ensino Fundamental anos finais (9º ano), o percentual foi de 29,5% em Língua Portuguesa e 14,3% em Matemática.

-Já no Ensino Médio. 3ª série - 23,8% apresentaram nível acima do adequado em Língua Portuguesa e 8,1% em Matemática.

Ensino Médio

Taxa líquida de matrícula – 2012-2018 (Em %)*

Brasil - 61,0/68,7

Norte - 49,7/62,4

Nordeste - 50,6/60,4

Paraíba 51,3/58,6

Sudeste - 70,4 75,6

Sul 64,3 71,5

Centro-Oeste - 64,8 71,7

*No Nordeste, o menor percentual de matrículas em 2018 é do Estado de Sergipe com apenas 48,6% no Ensino Médio. O melhor posicionado é o Ceará, com 73,0%.

Jovens de 19 anos que concluíram o Ensino Médio – 2012-2018 (%)*

Brasil - 51,7/63,6

Norte - 42,0/54,9

Nordeste - 41,2/53,6

Paraíba 48,8/52,8

Sudeste - 59,8 70,8

Sul - 55,9 66,2

Centro-Oeste - 54,0 69,4

* No Nordeste, o Estado com o percentual mais baixo é a Bahia, com 43,3% de jovens de 19 anos que concluíram o EM. Já Pernambuco é o que apresenta o maior percentual (67,7%).

Alunos acima do nível considerado adequado pelo Todos Pela Educação

- Na Paraíba, alguns alunos apresentaram nível acima do considerado adequado pelo Todos pela Educação.

- No Ensino Fundamental - anos iniciais - 5º ano, 46,8% se destacaram em Língua Portuguesa em 2017. Em Matemática, 34,1%.

- No Ensino Fundamental anos finais (9º ano), o percentual foi de 29,5% em Língua Portuguesa e 14,3% em Matemática.

- Já no Ensino Médio - 3ª série - 23,8% apresentaram nível acima do adequado em Língua Portuguesa e 8,1% em Matemática.

(Fonte: Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019)

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