quinta, 24 de setembro de 2020

Educação
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Entrevista: Projeto da UFPB quer democratizar o cinema

Luiz Carlos Sousa / 06 de setembro de 2015
Foto: Rafael Passos
O Núcleo de Pesquisa e Extensão em Aplicações de Vídeo Digital – LAViD da UFPB está desenvolvendo um projeto para levar o Cinema a todos os municípios do pais. O coordenador dos trabalhos o professor Guido Lemos, pioneiro no desenvolvido da TV digital no Brasil. Segundo ele, o projeto pretende levar a tecnologia 4K para exibição e produção de filmes, além de servir para educação a distância com treinamento e qualificação profissional. Nessa conversa com o Correio, Guido Lemos revela estão pesquisas, como o LAViD se mantém no estágio da arte e detalha o projeto que pretende construir uma alternativa ao Cinema de Hollywood.

- Como está sendo desenvolvido o projeto de levar o Cinema a todos os municípios?

- Esse projeto começou em 2011. Depois do trabalho e da contribuição do Lavid para a TV digital começamos a pensar que tipo de contribuição poderíamos dar em Cinema. Primeiro ponto, o Cinema é um serviço que está em mudança do analógico para o digital.

- O que se tem basicamente para mudar?

- Se tem a infraestrutura de produção – câmeras, estúdio, edição etc. Essa parte já está praticamente toda digital. A distribuição também já está quase toda digital. Ou se distribui em discos de computador ou se pode usar redes de internet ou de satélite para distribuir o filme. Essa característica elimina o custo do suporte – não se precisa mais gastar com fita ao custo de US$ 1.500 a US$ 2.000 a cada cópia e diminui o tempo para distribuir o filme.

- E a teia é muito maior chegando a praticamente todos os lugares...

- Isso. Por satélite se distribui para o Brasil inteiro na mesma hora.

- E a exibição?

- O que é que acontece? Recebe-se o filme digital e vai fazer uma exibição. Os custos para produzir se mantêm semelhantes, diminuindo um pouco. E os custos com a exibição, se têm os gerenciais, pessoal, projeto, se mantêm mais ou menos iguais. Mas na distribuição o custo foi pro chão. Não faz mais cópia e distribui rapidamente.

- Como os americanos estão trabalhando?

- Eles criaram uma associação com os principais estúdios a DCI e elaboraram um modelo em que reproduzem, mais ou menos, no digital o que faziam no analógico: produtores, distribuidores, exibidores. Só que os distribuidores, como custo deles agora é menor, há um modelo em que toda vez que se exibe um filme digital no cinema se ganha uma espécie de crédito que vai abater no custo de se adquirir a cópia para exibir.

-E está dando certo?

- A indústria do Cinema americano é um projeto de 1900. Foi pensado para distribuir com o mundo todo. O que acontece hoje é que a cultura americana é a referência mundial. Estão colhendo os frutos.

- O que ocorre com um filme brasileiro?

- É muito complicado, inclusive, para exibir aqui. Temos o exemplo de um filme produzido aqui em João Pessoa num festival que queríamos exibir na cidade e não conseguimos porque hoje o acesso não é como era no analógico, que se chegava com a fita botava no projetor e exibia.

- Como ficou com a digitalização?

- Esse filme tem que entrar no sistema que gerencia a rede, entrar pelo distribuidor para ele assinar digitalmente e liberar a exibição. Tudo controlado e criptografado para evitar a cópia indevida do material.

- Continua, então, inacessível para que esteja fora?

- O fato é que o controle do que vai ser exibido em uma sala de um cinema de João Pessoa é feito fora daqui, em Belo Horizonte, São Paulo e poderia estar sendo feito em Los Angeles, nos Estados Unidos. Tudo automatizado, a programação de cada sala, o controle de cada sala. O dono do cinema perdeu o controle daquilo que está sendo exibido. A indústria americana, agora sim, tem mais controle ainda.

- Influencia o mundo todo, como, aliás, faz há anos?

- Da distribuição do conteúdo, da formação cultural, do estímulo ao desejo de consumo. O nascedouro dessas referências culturais hoje é normalmente o Cinema. Depois, numa segunda janela vai para a TV a cabo, TV aberta, mas começa pelo Cinema.

- Que avaliação o senhor faz do impacto dessa massificação num País como o Brasil?

- Essa questão da mudança de paradigma, da maneira como ela foi pensada por esse conjunto de indústrias americanas, para efeito de um País como o Brasil a gente está perdendo, cada vez mais, a nossa soberania. Nossa população nasce e começa a consumir esse conteúdo.

- Por exemplo?

- Nossas crianças com oito, dez anos de idade, se o pai tem recursos, vão para a Disney porque as referências culturais delas estão lá. O desejo delas é conhecer aquele negócio. Ninguém está preocupado com a cultura brasileira, com o Saci, com a Cuca. Todo mundo quer consumidor o pato Donald, o Mickey. E termina num adulto atrás querendo um celular de última geração.

- Como o projeto está sendo tocado?

- Essa foi a motivação. A gente vê financiamento da RNP - Rede Nacional de Ensino e Pesquisa - que é a parceira do Lavid - Núcleo de Pesquisa e Extensão em Aplicações de Vídeo Digital desde a criação. Em 2011 tivemos uma série de reuniões com a direção da RNP e pensamos que temos que fazer alguma coisa no Cinema.

Por onde começa, diante de uma indústria tão poderosa?

- Por dois vetores: um, domínio da tecnologia de ponta – precisávamos aprender a exibir filmes. A próxima geração de Cinema será em filme 2K, 4K, 8K. Temos que aprender a manipular isso. Receber um filme, conseguir armazenar, tirar de um ponto da rede para exibir em outro.

- Em que estágio essa etapa se encontra?

- Começamos a desenvolver um programa, que chamamos de Fogo Player e com esse sistema em 2011 fizemos a primeira exibição de um filme em 4K, que estava gravado em João Pessoa e foi exibido em San Diego na Califórnia, transmitido pela internet por um link de dez gigabytes. Impressionou os organizadores do evento e todo mundo interessado como a gente tinha feito aqui com tão pouco dinheiro.

- O que foi desenvolvido aqui?

- Criamos uma forma de manipular vídeos grandes que é bem interessante. Tanto é que o pessoal do Japão também está explorando essa mesma estratégia que utilizamos. Depois começamos a trabalhar com captação ao vivo com câmeras de cinema e transmissão e exibição, com foco em saúde. Fizemos a transmissão de uma cirurgia cardíaca realizada no Hospital Universitário da UFRN do laboratório da Petrobras e depois fizemos para San Diego a transmissão simultânea de quatro cirurgias de Natal, Vitória, São Paulo e Porto Alegre e exibimos na mesma universidade na Califórnia. Isso em 2013. A melhor demonstração do evento foi a nossa. Conseguimos atingir o estado da arte. Isso em 4K.

- É o que há de mais avançado?

- Já saiu uma geração de 8 K, que é o que há de mais moderno em resolução. O Cinema, provavelmente vai para 8K e a própria televisão. Os japoneses dizem que em 2020 vão transmitir a Olimpíada em 8K. Vão captar e transmitir. Conseguimos fazer funcionar uma versão do Fogo Player com suporte para 8K.

Leia mais na edição deste domingo (6) do Jornal Correio da Paraíba. 

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