quarta, 12 de maio de 2021

Educação
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Crônica do professor Trindade fala de Gonzaga Rodrigues

João Trindade / 10 de junho de 2018
Foto: Rafael Passos
Gonzaga e Humberto

Anda o grande cronista Gonzaga Rodrigues a frequentar, assim como eu, na hora do almoço, o Shopping Sebrae.

Encontro-o em frente ao Cafezinho e o cumprimento com as palavras de sempre:

- É um prazer rever este grande cronista: o Rubem Braga da Paraíba.

Após o abraço habitual, sigo em direção à Praça da Alimentação, quando escuto o grito:

- Joãozinho!... (É assim que ele me chama).

- Fala, Gonzaga.

Ele vem bem para perto e, em tom de cochicho, exclama:

- Vou dizer uma coisa que você não vai acreditar...

- ...

- Meu sonho era que alguém me chamasse, um dia, de Humberto de Campos; ninguém me chamou, até agora.

E acrescenta:

-Para mim, o maior cronista de todos os tempos é Humberto. Na época em que ele escreveu, não havia internet, rádio era caro e um privilégio de todos e o povo lia jornal e se mandavam cartas para os cronistas. Ele era tão querido que equivalia a o que é hoje um artista de TV.

Mais ou menos essas palavras foram ditas por Humberto deCampos Filho sobre o pai, na apresentação à coleção “Humberto de Campos - Obras Escolhidas”, edição da “Opus”, que adquiri na década de 80.

As palavras de Gonzaga me trouxeram saudade e fui à estante reler o meu volume preferido: “Sombras que Sofrem”.

Em verdade, adquiri a coleção por causa de um poema que li, na adolescência, e adorei: “Tu”;um sonetozinho inocente, mas tocante.

Já sabia eu que Humberto não era grande poeta, mas também já sabia que na crônica é quase insuperável (continuo com Rubem); já conhecia, desde a infância, a antológica “O cajueiro”, lida por mim nas antologias e estudada no “Admissão ao Ginásio”.

Em “Sombras que Sofrem” o maranhense mostra a grandiosidade de cronista:simples, direto, emotivo; a maioria das crônicas são (assim como as de Rubem) pura poesia; poesia do cotidiano, como sói acontecer com asbons textos do gênero.

Não se podem comparar autores; sobretudo, de épocas diferentes; mas Humberto consegue ser mais espontâneo do que Rubem.

São poucos, no entanto, os autos e baixos dos dois: a emoção, o trato com apalavra, a emotividade (e emoção) e, sobretudo, a poesia e a maestria de tirar de cenas que passariam despercebidas a muitos verdadeiras obras de arte fazem-nos dois grandes da nossa literatura.

De Rubem, meu preferido é “200 Crônicas Escolhidas”; de Humberto, já disse em parágrafo anterior.

Humberto só cometeu um pecado (para mim, mortal) na vida: a publicação do “Diário Secreto”: um livro que manchou, sem dúvida, a reputação do escritor.Escritor tão monumental não deveria, jamais, haver publicado aquilo,conforme reconheceu uma filha, voz minoritária na família, de três irmãos, que não conseguiu, mesmo tentando muito, evitar a publicação.

Disse isso a Gonzaga, que, como fã, preferiu ficar calado.

Agradeço ao meu terceiro cronista preferido (não necessariamente o último na preferência, porque está no mesmo patamar) essa releitura. E dedico a ele este registro menor (perdoai, Mestre!).

 

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